Lições do Cotidiano

Pedalar Junto, Pedalar Exposto

Por Hiran de Melo

Talvez os grupos de pedal não estejam morrendo.

Talvez estejam apenas mudando.

A bicicleta continua nas ruas. As trilhas continuam esperando. Há quem pedale sozinho, quem treine, quem compita, quem fotografe, quem pare para tomar café. Há espaço para todos.

O problema começa quando esquecemos que existem diferentes maneiras de amar a bicicleta. Pedalar junto exige uma renúncia: aceitar que o seu ritmo não é o único que importa. Mas vivemos tempos em que muitos querem aparecer mais do que pertencer.

A bicicleta deixa de ser caminho e vira vitrine. A camisa identifica. A marca separa. O equipamento classifica. E aquele que pedala sozinho, sem o uniforme certo, pode receber apenas um olhar de cima para baixo.

É quando o esporte, que deveria aproximar, começa a criar fronteiras. Mas também existe o outro lado.

Quem organiza um grupo sabe que liderar é cuidar. É pensar na rota, na segurança, no ritmo, nos que ficam para trás.

O problema surge quando o líder deixa de cuidar do grupo e começa a acreditar que o grupo lhe pertence.

Liderar é servir ao caminho. Possuir é acreditar que o caminho é seu.

Talvez os grupos não estejam desaparecendo por falta de ciclistas.

Talvez estejam sendo obrigados a escolher o que querem ser.

Equipes.

Clubes.

Comunidades.

Ou apenas encontros.

Tudo bem.

Nem todo grupo precisa durar para sempre.

Mas aqueles que desejarem permanecer talvez precisem recuperar uma coisa simples: a capacidade de olhar para trás. E perceber que alguém ficou.

Alguém mais lento.

Mais tímido.

Menos equipado.

Sem a camisa certa.

E ainda assim dizer:

"Vamos juntos."

Porque pedalar junto nunca significou chegar todos ao mesmo tempo.

Significou não transformar a diferença de velocidade em diferença de valor.

No fim, talvez o verdadeiro grupo seja aquele em que ninguém precisa ser o melhor, o mais rápido ou o mais visto.

Basta estar ao lado.

Porque, às vezes, diminuir a própria velocidade para que o outro continue é a forma mais bonita de liderança.

E talvez seja também a maneira mais simples de lembrar que, na estrada e na vida, ninguém deveria precisar pedalar sozinho.

Juntos Somos Mais - Pedal

 


 Pedalar Junto, Pedalar Exposto – versão aprofundada

 Sobre quando um grupo deixa de ser caminho e passa a ser território

 Por Hiran de Melo

 Talvez os grupos de pedal não estejam morrendo.

Talvez estejam apenas mudando.

E há uma diferença enorme entre morrer e deixar de ser aquilo que um dia fomos.

A bicicleta continua passando pelas ruas.

Os pneus continuam encontrando o asfalto.

As trilhas continuam escondendo pedras, raízes e lama.

Há ainda homens e mulheres que acordam cedo, vestem uma camisa, prendem o capacete e saem para pedalar. Alguns sozinhos. Outros em pequenos grupos. Alguns atrás de desempenho. Outros atrás de conversa. Há quem queira chegar primeiro. Há quem só queira chegar.

Talvez o que esteja desaparecendo não seja o ciclismo coletivo.

Talvez esteja desaparecendo uma determinada ideia de grupo.

 

Aquele grupo que nasceu para reunir pessoas diferentes em torno de uma mesma coisa: pedalar.

Sem que fosse necessário perguntar qual bicicleta você possui.

Qual camisa veste.

Quantos quilômetros já percorreu.

Quantos seguidores tem.

Ou qual é a sua velocidade média.

Pedalar junto, no seu sentido mais simples, deveria significar uma coisa quase esquecida em nossos dias: aceitar que, durante algum tempo, o seu ritmo não será o único ritmo importante.

E talvez seja aí que esteja o problema.

Porque pedalar junto exige uma renúncia.

A renúncia de chegar primeiro.

A renúncia de aparecer mais.

A renúncia de transformar cada encontro em uma oportunidade de provar alguma coisa.

Quem pedala em grupo precisa aprender que a bicicleta é individual, mas o caminho pode ser coletivo.

Você escolhe sua bicicleta.

Você escolhe sua marcha.

Você sente suas pernas.

Mas, quando decide entrar em um grupo, aceita também uma responsabilidade silenciosa: olhar para o lado.

E olhar para o lado é uma das coisas mais difíceis que o ego humano consegue fazer.

 

Existem muitos tipos de grupos.

Os que treinam.

Os que competem.

Os que fotografam.

Os que comem.

Os que pedalam devagar.

Os que pedalam rápido.

Os que reúnem homens.

Os que reúnem mulheres.

Os que oferecem apoio.

Os que buscam desempenho.

E talvez essa seja uma das maiores lições.

O problema não é existirem grupos diferentes.

O problema começa quando um grupo acredita que sua maneira de pedalar é a única maneira legítima de amar a bicicleta.

O ciclista que pedala a treze quilômetros por hora não é menos ciclista.

O que pedala a trinta não é necessariamente mais.

O que para obejtivando fotografar uma árvore florida não trai o ciclismo.

O que passa pela árvore sem perceber a flor também não.

Há quem encontre a bicicleta no esforço.

Há quem a encontre na paisagem.

Há quem a encontre na competição.

Há quem a encontre na amizade.

Há quem a encontre no silêncio.

Talvez a bicicleta seja justamente uma das poucas coisas que ainda conseguem reunir pessoas que não precisam desejar a mesma coisa para compartilhar o mesmo caminho.

O problema começa quando o grupo deixa de ser um lugar onde as diferenças convivem e passa a ser um lugar onde as diferenças são classificadas.

É aí que pedalar junto começa, lentamente, a se transformar em pedalar exposto.

 

Pedalar exposto é outra coisa.

É sair de casa não apenas para percorrer uma estrada, mas para ser visto nela.

A bicicleta deixa de ser instrumento e passa a ser declaração.

A camisa passa a dizer quem você é.

A marca da bicicleta passa a dizer quanto você vale.

O capacete passa a dizer a qual grupo você pertence.

E, de repente, aquele que pedala sozinho torna-se invisível.

Ou pior:

torna-se suspeito.

Ele não veste a camisa certa.

Não pertence à equipe certa.

Não usa o equipamento esperado.

Não participa da fotografia.

Não aparece na rede social.

E então acontece uma coisa estranha.

A bicicleta, que deveria aproximar, começa a separar.

O esporte, que deveria criar encontros, começa a produzir fronteiras.

Aquele que pedala sozinho cruza com outro ciclista.

Olha.

Cumprimenta.

Espera um "bom dia".

E recebe apenas um olhar que desce da cabeça aos pés.

Como se a pessoa estivesse sendo avaliada pela bicicleta.

Pela roupa.

Pelo equipamento.

Pelo pertencimento.

É nesse momento que entendemos que o ego não é apenas aquele sujeito que quer ser o líder.

O ego também é aquele que decide quem merece ser reconhecido.

E talvez seja esse o ego mais perigoso.

Porque o líder pode ser substituído.

Mas a cultura da exclusão permanece.

 

Uma das respostas mais fortes diria, em essência, que o ciclista continuava amando o esporte, mas havia abandonado a competição.

Não porque tivesse deixado de gostar da bicicleta.

Mas porque cansou do que algumas pessoas fizeram com ela.

Essa talvez seja uma distinção importante.

Há pessoas que abandonam grupos.

Mas não abandonam o ciclismo.

Abandonam a competição.

Mas não abandonam o caminho.

Abandonam a camisa.

Mas não abandonam a bicicleta.

E isso nos obriga a fazer uma pergunta diferente:

Será que os grupos estão morrendo ou será que algumas pessoas estão apenas procurando uma forma mais saudável de pertencer?

 

Porque existe uma diferença entre pertencer a um grupo e pertencer a uma causa.

O grupo pode desaparecer.

A causa permanece.

O grupo pode mudar.

O amor permanece.

A camisa pode ser retirada.

A bicicleta continua.

Talvez algumas pessoas estejam descobrindo que não precisam de uma multidão para continuar pedalando.

E talvez isso não seja fracasso.

Talvez seja amadurecimento.

 

Mas há também o outro lado.

Quem organiza um grupo sabe que liderar não é apenas colocar um roteiro em uma mensagem.

Há alguém que pesquisa a estrada.

Que pensa na distância.

Que observa o clima.

Que se preocupa com a segurança.

Que calcula o ritmo.

Que tenta prever o imprevisto.

E, muitas vezes, faz isso sem receber nada em troca.

Por isso, é injusto dizer que toda liderança nasce do ego.

Algumas lideranças nascem do cuidado.

O problema está em outra coisa.

Está no momento em que o cuidado se transforma em posse.

O líder começa organizando o grupo.

Depois começa a falar pelo grupo.

Depois começa a decidir quem pertence ao grupo.

E, finalmente, chega ao ponto em que acredita que o grupo pertence a ele.

É uma transformação silenciosa.

Primeiro:

"Eu organizei."

Depois:

"Eu mantenho."

Mais tarde:

"Eu decido."

Até que, um dia:

"Eu sou o grupo."

E quando isso acontece, qualquer discordância parece uma traição.

Qualquer saída parece abandono.

Qualquer crítica parece ingratidão.

A liderança, então, deixa de ser serviço.

Torna-se propriedade.

Talvez seja essa a fronteira mais delicada de todas.

Liderar é cuidar de um caminho que pertence a todos. Possuir é acreditar que o caminho pertence a quem o abriu.

 

Uma das possíveis respostas diria:

"Não importa quantos sejamos, desde que possamos pedalar na mesma sintonia."

Há uma sabedoria nisso.

Mas também existe um perigo.

A expressão "mesma sintonia" pode significar duas coisas muito diferentes.

Pode significar respeito por uma missão comum.

Ou pode significar obediência a uma única maneira de pensar.

A primeira constrói comunidade.

A segunda constrói conformidade.

Uma comunidade saudável não exige que todos sejam iguais.

Exige apenas que saibam conviver com as diferenças.

Talvez um bom grupo não seja aquele que reúne pessoas que pedalam da mesma forma.

Talvez seja aquele que consegue fazer diferentes pessoas pedalar juntas sem que uma precise diminuir a outra.

Porque um grupo não é uma coleção de pessoas iguais.

É uma convivência entre diferenças.

E toda convivência exige negociação.

 

Há ainda uma realidade que nenhum debate sobre ego pode ignorar.

A estrada.

O carro.

O caminhão.

A motocicleta.

O motorista distraído.

A ausência de respeito.

A falta de infraestrutura.

O medo.

Há ciclistas que não deixaram os grupos porque se tornaram individualistas.

Deixaram porque ficaram com medo.

Não é possível falar sobre o futuro dos grupos de pedal ignorando a insegurança de quem pedala.

Não existe comunidade possível quando o caminho se torna uma ameaça permanente.

O grupo pode ter a melhor liderança.

O melhor roteiro.

A melhor intenção.

Mas existe uma força externa que nenhum grupo consegue controlar sozinho.

O trânsito.

E talvez seja por isso que a discussão sobre o desaparecimento dos grupos precise sair um pouco do espelho.

Nem tudo é ego.

Nem tudo é vaidade.

Nem tudo é falta de compromisso.

Às vezes, o problema está fora de nós.

E reconhecer isso também é uma forma de maturidade.

 

Talvez a verdadeira crise dos grupos de pedal não seja a diminuição do número de pessoas.

Talvez seja a dificuldade de responder a uma pergunta muito simples:

Para que estamos juntos?

Se a resposta for apenas para aparecer, o grupo será frágil.

Se for apenas para competir, sempre haverá alguém melhor.

Se for apenas para mostrar equipamentos, sempre haverá uma bicicleta mais cara.

Se for apenas para acumular seguidores, sempre haverá alguém com mais seguidores.

Se for apenas para preservar uma posição de liderança, cedo ou tarde alguém desejará ocupar o lugar.

Mas se a resposta for amizade, talvez haja espaço.

Se for segurança, talvez haja propósito.

Se for saúde, talvez haja permanência.

Se for liberdade, talvez haja futuro.

Se for simplesmente o prazer de pedalar, talvez ainda exista algo que nenhuma rede social consiga substituir.

Porque existe uma coisa que uma fotografia não registra.

O momento em que alguém diminui a velocidade para esperar quem ficou para trás.

Existe uma coisa que um aplicativo não contabiliza.

O amigo que percebe que você não está bem.

Existe uma coisa que nenhuma bicicleta de alto valor pode comprar.

A certeza de que, se alguma coisa acontecer, alguém vai parar.

Talvez seja isso que um grupo de pedal deveria ser.

Não uma vitrine.

Não uma hierarquia.

Não uma extensão das redes sociais.

Mas uma pequena comunidade em movimento.

 

A bicicleta é curiosa.

Quando você pedala sozinho, descobre seus próprios limites.

Quando pedala com outros, descobre seus limites diante dos outros.

Mas, quando amadurece, percebe que a verdadeira liberdade talvez esteja em não precisar provar nada.

Nem a velocidade.

Nem a bicicleta.

Nem a roupa.

Nem a força.

Nem o lugar que ocupa.

Você simplesmente pedala.

E talvez seja justamente nesse momento que a bicicleta volta a ser o que sempre foi.

Um meio.

Um caminho.

Uma possibilidade de encontro.

Talvez os grupos não estejam morrendo.

Talvez estejam sendo obrigados a escolher o que querem ser.

Alguns serão clubes.

Outros serão equipes.

Outros serão comunidades.

Alguns serão apenas encontros ocasionais.

E outros desaparecerão.

Tudo bem.

Nem todo grupo precisa durar para sempre.

Mas aqueles que desejarem permanecer precisarão compreender uma verdade simples:

ninguém pertence a um grupo para ser propriedade de alguém.

Pertencemos porque encontramos ali alguma coisa que, sozinhos, não encontraríamos da mesma maneira.

Uma conversa.

Um desafio.

Uma paisagem.

Uma amizade.

Um cuidado.

Um motivo para sair de casa.

E talvez a maior prova de que um grupo está vivo não seja a quantidade de bicicletas alinhadas na largada.

Seja a capacidade de alguém olhar para trás.

E perceber que existe outra pessoa.

Mais lenta.

Mais tímida.

Menos equipada.

Menos conhecida.

Talvez até sem camisa de equipe.

E ainda assim dizer:

"Vamos juntos."

Porque, no fim, pedalar junto nunca significou chegar todos ao mesmo tempo.

Significou não transformar a diferença de velocidade em diferença de valor.

E talvez seja aí que esteja a fronteira entre o grupo que apenas reúne pessoas e a comunidade que realmente as une.

O grupo que possui quer ser obedecido.

O grupo que lidera quer ser seguido.

Mas o grupo que verdadeiramente serve sabe fazer uma coisa mais difícil:

pedalar ao lado.

Sem precisar estar à frente.

Sem precisar aparecer.

Sem precisar ser dono do caminho.

Apenas ao lado.

Porque talvez seja isso que ainda possa salvar os grupos de pedal.

Não mais ciclistas.

Não bicicletas mais caras.

Não redes sociais mais eficientes.

Mas a velha e quase esquecida disposição humana de diminuir um pouco a própria velocidade para que o outro consiga continuar.

E, naquele instante, quando ninguém está tentando ser o melhor, o mais rápido ou o mais visto, acontece uma coisa extraordinária.

A bicicleta deixa de ser uma máquina de movimento.

E volta a ser aquilo que talvez sempre tenha sido:

uma maneira de nos lembrarmos de que ninguém atravessa a vida verdadeiramente sozinho.

Juntos Somos Mais - Pedal

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