A Voz que Escapa - Confidência sobre Silêncios Digitais Por Hiran de Melo Há tempos venho colecionando fragmentos. Não são frases inteiras, tampouco ideias completas. São pedaços de vozes que chegam até mim — às vezes tarde, às vezes entrecortadas, quase sempre envoltas em silêncio. São mensagens que recebo no WhatsApp, como quem recebe uma garrafa lançada ao mar. E, ao abrir, não sei se o que leio é resposta, desabafo ou apenas ruído. Não há urgência. Há lacunas. Entre o enviar e o receber, entre o abrir e o ler, há um tempo suspenso. Um tempo que não é cronológico, mas existencial. É nesse intervalo que mora o vazio. E é nesse vazio que escuto o outro. Recebi, certa vez, uma mensagem que dizia: “Acho bonita a forma como você se expressa e faz correlação com autores. Meu sonho é escrever assim. Frivolidades ou gêneros literários... Mas por que o grito? É tão assustador, estrondoso... Por que não? Ecos…” Li com cuidado. Respondi com silêncio. Depois com palavras: ...
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Mostrando postagens de outubro, 2025
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A Voz da Humanidade em Nós Por Hiran de Melo Troca de mensagens à toa na Web Comentando: No WhatsApp, você recebe uma mensagem e raramente percebe, de imediato, que ela chegou. Há lacunas entre o enviar, o receber, o abrir e o ler. O mesmo ocorre quando você responde. Há um vazio. Irei registrar aqui fragmentos de um “diálogo”: Mensagem recebida: Acho bonita a forma como você se expressa e faz correlação com autores. Meu sonho é escrever assim. Frivolidades ou gêneros literários... Mas por que grito? É tão assustador, estrondoso... Por que não? Ecos... Mensagem resposta: Para proporcionar um maior impacto e permitir o desvelar do ser. Muitas vezes, o nosso grito se dá no silêncio. E esse dói mais ainda. Mensagem recebida: Estou a pensar. Grito remete, para mim, a uma resposta... e silêncio se contradiz com grito. Silêncio é inércia. Gritar é movimento... Mensagem resposta: Minha doce e meiga amiga, no espaço poético nos desprendemos da lógica racional e linear para entrar no mund...
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Tolices do cotidiano Por Hiran de Melo Nasci na Maternidade Municipal Elpídio de Almeida — ou, pelo menos, é o que dizem. O prédio permanece o mesmo, assim como o pátio que o cerca. O tempo, ali, parece ter respeitado a forma, embora talvez tenha mexido no conteúdo. A parteira foi dona Edna, a mesma que, anos depois, acolheu minhas duas filhas do primeiro matrimônio. Outros vieram depois, como frutos que amadurecem em estações distintas. Fui criado numa casa grande, generosa para os padrões da época. Havia muitas dependências, e eu transitava por todas, mas era no quarto — aquele pequeno território de estudo, brincadeira e sono — que minha infância se concentrava. Talvez tenha sido ali que nasceu minha obsessão por espaços amplos, como se o tamanho da casa pudesse conter o tamanho dos sonhos, ou compensar os vazios que a vida vai deixando. Essa mania me acompanhou por décadas. Morei em casas maiores do que minhas necessidades, maiores do que os afetos que nelas cabiam. E,...