Lições do Cotidiano
Quando os Irmãos Deixam de Caminhar Juntos
Sobre a evasão das Lojas Maçônicas e o difícil ofício de liderar sem
possuir
Por Hiran de Melo
Talvez as Lojas Maçônicas
não estejam morrendo.
Talvez estejam apenas
mudando.
A Maçonaria continua
existindo.
Os Templos continuam
abertos.
Os rituais continuam
sendo realizados.
As colunas continuam
ocupadas.
Mas existe uma pergunta
que precisamos ter coragem de fazer:
por que
tantos Irmãos deixam de frequentar as Lojas?
E talvez a resposta não
esteja apenas fora da Maçonaria.
Talvez seja necessário
olhar para dentro.
Não para procurar
culpados.
Mas para compreender.
Porque uma Loja não perde
seus Irmãos apenas quando eles deixam de acreditar na Maçonaria.
Às vezes, eles
simplesmente deixam de encontrar nela um lugar onde ainda desejam estar.
Existe uma diferença
entre pertencer a uma Loja e apenas estar inscrito nela.
O primeiro é um vínculo.
O segundo é um registro.
E talvez uma das maiores
crises que enfrentamos esteja justamente nessa distância.
O Irmão continua sendo
maçom.
Mas deixa de ser um Irmão
presente.
Continua acreditando nos
princípios.
Mas não encontra mais
sentido nas reuniões.
Continua respeitando a
Ordem.
Mas já não sente
necessidade de estar ali.
E então começa a faltar.
Primeiro uma sessão.
Depois outra.
Depois algumas semanas.
Até que sua ausência
deixa de ser percebida.
E talvez esse seja o
momento mais perigoso.
Não quando um Irmão vai
embora.
Mas quando sua ausência
já não faz falta.
Quando falamos em evasão, muitas vezes procuramos explicações
externas.
A família.
O trabalho.
A idade.
A distância.
A saúde.
A falta de tempo.
E todas essas razões
podem ser verdadeiras.
Mas talvez exista uma
pergunta que precisamos fazer antes:
o que a
Loja fez para que aquele Irmão desejasse continuar?
Porque ninguém permanece
em um lugar apenas porque um dia entrou nele.
As pessoas permanecem
onde encontram significado.
Onde encontram respeito.
Onde encontram amizade.
Onde sentem que sua
presença importa.
Uma Loja pode ter
excelentes ritualistas, grandes oradores e uma administração eficiente.
Mas se o Irmão entra e
sente que ninguém percebeu sua chegada, talvez não demore muito para que sua
saída também passe despercebida.
Talvez o Venerável Mestre
precise compreender uma coisa simples:
liderar uma
Loja não é conduzir uma reunião.
É cuidar de pessoas.
O Venerável Mestre não é
apenas aquele que ocupa o Oriente.
É aquele que precisa
enxergar o Ocidente.
Precisa perceber quem
está silencioso.
Quem deixou de falar.
Quem antes participava e
agora não participa.
Quem chega atrasado.
Quem vai embora cedo.
Quem está presente
fisicamente, mas já começou a se ausentar por dentro.
Porque existe uma evasão
que acontece antes da saída.
O Irmão continua sentado
entre as colunas.
Mas seu coração já não
está ali.
E talvez o verdadeiro
líder seja aquele que consegue perceber essa ausência antes que ela se
transforme em desligamento.
Mas existe um perigo.
O mesmo que encontramos
em qualquer grupo humano.
O Venerável Mestre pode
começar liderando a Loja.
E terminar acreditando
que a Loja lhe pertence.
Primeiro:
"Eu fui
eleito."
Depois:
"Eu estou
administrando."
Mais tarde:
"Eu decido."
E, finalmente:
"Eu sou a
Loja."
É uma transformação
silenciosa.
Quando isso acontece,
qualquer crítica parece desrespeito.
Qualquer sugestão parece
oposição.
Qualquer divergência
parece deslealdade.
O Venerável Mestre deixa
de ser o servidor de uma instituição e começa a agir como proprietário de um
território.
E uma Loja não é
território de ninguém.
O Venerável
Mestre ocupa o Oriente por um tempo. A Loja permanece.
Essa talvez seja uma das
maiores lições da liderança maçônica.
O cargo passa.
A instituição fica.
O homem deixa o malhete.
Outros o receberão.
Por isso, quem compreende
verdadeiramente a liderança não pergunta:
"Como
faço para que todos pensem como eu?"
Pergunta:
"Como faço para que todos possam contribuir?"
Uma Loja saudável não é
aquela em que todos concordam.
É aquela em que os Irmãos
conseguem discordar sem deixar de se reconhecer como Irmãos.
Porque a Maçonaria não
deveria ser uma fábrica de pensamentos iguais.
Deveria ser um espaço de
aperfeiçoamento.
E aperfeiçoar-se é também
aprender a conviver com aquilo que nos contraria.
Quando uma Loja começa a
exigir conformidade absoluta, ela pode até parecer unida.
Mas talvez esteja apenas
silenciosa.
E existe uma diferença
enorme entre harmonia e silêncio.
A harmonia é construída.
O silêncio, às vezes, é
apenas medo.
Talvez alguns Irmãos não
tenham abandonado a Maçonaria.
Talvez tenham abandonado
uma determinada forma de vivê-la.
Como aquele ciclista que
deixa o grupo, mas continua amando a bicicleta.
O Maçom pode deixar de
frequentar uma Loja sem deixar de acreditar nos princípios maçônicos.
Pode afastar-se de uma
administração sem afastar-se da Ordem.
Pode cansar-se de
disputas internas sem cansar-se da busca pela Verdade.
Pode abandonar a
convivência sem abandonar o ideal.
E isso deveria nos fazer
pensar.
Porque, quando um Irmão
sai, talvez a primeira pergunta não devesse ser:
"O que
há de errado com ele?"
Talvez devêssemos
perguntar:
"O que aconteceu entre nós?"
Há Irmãos que se afastam
porque não encontram espaço.
Não porque desejem
comandar.
Mas porque nunca foram
ouvidos.
Há Irmãos que se afastam
porque tudo já parece decidido.
Não porque sejam
indiferentes.
Mas porque perceberam que
sua presença não altera nada.
Há Irmãos que se afastam
porque a Loja se tornou uma disputa permanente.
E há aqueles que
simplesmente se cansaram de ver a Maçonaria reproduzir, dentro de seus Templos,
as mesmas vaidades que deveria ajudar a superar fora deles.
Quando isso acontece, o
avental deixa de ser símbolo de igualdade.
O cargo vira distinção.
O grau vira hierarquia
social.
O conhecimento vira
instrumento de superioridade.
E a fraternidade passa a
ser apenas uma palavra repetida no ritual.
É nesse momento que o
Maçom começa a caminhar sozinho.
Ainda acredita no
caminho.
Ainda ama a loja.
Mas já não encontra
prazer em caminhar com aqueles que deveriam estar ao seu lado.
Talvez a grande crise da
Loja não seja a quantidade de Irmãos presentes.
Talvez seja a qualidade
do vínculo entre eles.
Uma sessão cheia pode
esconder uma Loja vazia.
E uma sessão pequena pode
revelar uma fraternidade viva.
Porque o que sustenta uma
Loja não é apenas o número de obreiros.
É a disposição de um
Irmão olhar para o outro e perceber:
"Você faz falta."
Talvez seja essa uma das
frases mais poderosas que um Venerável Mestre pode dizer.
Não:
"Precisamos
de mais membros."
Mas:
"Precisamos cuidar melhor dos que já temos."
Não:
"Por
que os Irmãos não vêm?"
Mas:
"O que estamos fazendo para que desejem voltar?"
O Venerável Mestre talvez
precise aprender a olhar para trás.
Como o ciclista que
diminui a velocidade para esperar quem ficou.
Olhar para o Irmão mais
antigo.
Para o mais jovem.
Para aquele que fala
demais.
Para aquele que nunca
fala.
Para aquele que conhece
profundamente os rituais.
E para aquele que ainda
está tentando compreender seus primeiros símbolos.
Olhar para o Irmão que
pensa diferente.
Para o que critica.
Para o que questiona.
Para o que está cansado.
Para aquele que,
silenciosamente, já começou a se afastar.
E dizer:
"Vamos juntos."
Porque liderar uma Loja
não é chegar primeiro ao Oriente.
É garantir que ninguém
precise abandonar o caminho para conseguir permanecer nele.
Talvez seja hora de
compreendermos que o Venerável Mestre não precisa ser o Irmão mais importante
da Loja.
Precisa ser o Irmão que
mais compreende a responsabilidade de servir.
Seu poder não está no
malhete.
Está na capacidade de
unir.
Sua autoridade não está
no cargo.
Está na confiança.
Sua liderança não está em
ser seguido.
Está em fazer com que
outros também encontrem seu próprio caminho.
O Venerável Mestre que
precisa ser obedecido o tempo todo talvez esteja apenas exercendo autoridade.
O Venerável Mestre que
consegue formar novos líderes está exercendo liderança.
E existe uma diferença
enorme entre as duas coisas.
Quem lidera
para si constrói dependência.
Quem lidera para a instituição constrói continuidade.
Talvez a pergunta que
precisamos fazer às nossas Lojas seja muito simples:
Para que estamos juntos?
Se estamos juntos apenas
para cumprir calendário, a evasão continuará.
Se estamos juntos apenas
para realizar rituais, alguns permanecerão por obrigação.
Se estamos juntos apenas
para ocupar cargos, sempre haverá disputa.
Se estamos juntos apenas
para preservar tradições, talvez não consigamos conversar com o presente.
Mas se estamos juntos
para construir fraternidade, talvez exista futuro.
Se estamos juntos para
aprender, existe espaço.
Se estamos juntos para
servir, existe propósito.
Se estamos juntos para
nos tornarmos homens melhores, existe esperança.
Porque a Maçonaria pode
sobreviver sem muitos de nós.
Mas uma Loja só permanece
viva quando seus Irmãos ainda sentem que vale a pena estar juntos.
Talvez a evasão dos
Maçons não seja apenas um problema de frequência.
Talvez seja um pedido
silencioso de mudança.
Um pedido para que as
Lojas voltem a ser lugares onde o Irmão não seja apenas contado.
Mas percebido.
Não apenas convocado.
Mas acolhido.
Não apenas ouvido.
Mas escutado.
Não apenas utilizado para
preencher uma função.
Mas reconhecido como
pessoa.
Porque ninguém permanece
por muito tempo onde sua presença é indiferente.
E talvez seja essa a
grande responsabilidade do Venerável Mestre:
não deixar que um Irmão desapareça antes de perceber que ele está
partindo.
No fim, talvez uma Loja
não morra quando seus Irmãos deixam de frequentá-la.
Talvez ela comece a
morrer quando aqueles que permanecem já não percebem quem está faltando.
E talvez o verdadeiro
Venerável Mestre seja aquele que, ao olhar para as colunas, percebe uma
ausência.
Não para cobrar.
Não para julgar.
Mas para procurar.
Para perguntar.
Para ouvir.
Para estender a mão.
E dizer:
"Irmão, nós sentimos sua falta."
Porque a Maçonaria não
deveria ser uma estrada onde os mais fortes chegam primeiro.
Nem um território
pertencente aos que ocupam os cargos.
Deveria ser um caminho
onde cada Irmão pudesse encontrar seu lugar.
E onde aquele que ficou
para trás pudesse ouvir a voz de quem está à frente:
"Não se preocupe. Eu espero você."
Talvez seja isso que
esteja faltando em muitas de nossas Lojas.
Não mais discursos.
Não mais cargos.
Não mais poder.
Mas alguém disposto a
diminuir o próprio passo.
A olhar para trás.
E lembrar uma verdade que
talvez esteja esquecida:
uma Loja
não é forte porque tem muitos Irmãos.
É forte porque nenhum Irmão se sente sozinho dentro dela.
E talvez o futuro da
Maçonaria dependa menos da capacidade de trazer novos homens para dentro dos
Templos e muito mais da nossa capacidade de fazer com que aqueles que já estão
lá dentro ainda desejem permanecer.
Porque, no fim, liderar não é estar à
frente.
É caminhar ao lado.
E, quando necessário,
parar.
Esperar.
E dizer:
"Vamos juntos."
ANEXO - Contribuição à abertura ao diálogo
Por Damião Cacimiro – Mestre Instalado
Meu
amado irmão, seu trabalho sobre Evasão das Lojas Maçônicas, faz uma importante
reflexão sobre liderança, inclusão e fraternidade, demonstrando que a
permanência dos irmãos depende menos da obrigação ritualística e mais do
sentimento de pertencimento, reconhecimento e propósito. Aponta um modelo de
liderança servidora, fundamentado na escuta, no cuidado com as pessoas, na
valorização das diferenças e na formação de novos líderes, em vez da
concentração de autoridade dos ocupantes de cargos. Também, reforça que o futuro
da Maçonaria depende menos da capacidade de atrair novos integrantes e mais da
habilidade de preservar a fraternidade entre aqueles que já fazem parte da
Ordem, cabendo a liderança caminhar ao lado dos irmãos, cultivar relações de
confiança e garantir que ninguém se sinta sozinho em sua jornada iniciática.
Ante o exposto, concordo plenamente com seu pensamento, contudo, acrescento a
necessidade de recuperação do sentido das sessões, para que não seja apenas o
cumprimento de um calendário ou a repetição mecânica de procedimentos, mas para
que proporcione aprendizado, reflexão e fortalecimento dos laços fraternos. O
Irmão deve sair do Templo com a sensação de que evoluiu, aprendeu algo novo e
compartilhou uma experiência significativa com seus pares. A solução para a
evasão está no reencontro com o propósito essencial da Maçonaria, em
aperfeiçoar homens, fortalecer virtudes e construir fraternidade. Quando os
irmãos compreenderem que estão juntos por um propósito maior, a participação em
loja deixará de ser obrigação e transformar-se-á em escolha consciente
Comentários
Postar um comentário