Tolices do cotidiano

Por Hiran de Melo

Nasci na Maternidade Municipal Elpídio de Almeida — ou, pelo menos, é o que dizem. O prédio permanece o mesmo, assim como o pátio que o cerca. O tempo, ali, parece ter respeitado a forma, embora talvez tenha mexido no conteúdo. A parteira foi dona Edna, a mesma que, anos depois, acolheu minhas duas filhas do primeiro matrimônio. Outros vieram depois, como frutos que amadurecem em estações distintas.

Fui criado numa casa grande, generosa para os padrões da época. Havia muitas dependências, e eu transitava por todas, mas era no quarto — aquele pequeno território de estudo, brincadeira e sono — que minha infância se concentrava. Talvez tenha sido ali que nasceu minha obsessão por espaços amplos, como se o tamanho da casa pudesse conter o tamanho dos sonhos, ou compensar os vazios que a vida vai deixando.

Essa mania me acompanhou por décadas. Morei em casas maiores do que minhas necessidades, maiores do que os afetos que nelas cabiam. E, por isso, uma parte considerável dos meus rendimentos se esvaía em manter paredes que mal abrigavam móveis, quanto mais presenças. Casas tão grandes que ecoavam o silêncio, como se pedissem por vozes que não vinham.

Hoje, aposentado, habito outra casa espaçosa — cheia de móveis, mas com pouca gente. E, curiosamente, é no menor cômodo que concentro minha existência. Ali estão minha mesa de trabalho, o notebook, a impressora, livros à espera de leitura e documentos aguardando ordem. Há uma cadeira para o labor e outra para o descanso. E uma cama. Para quem mais? Para mim, que me espalho pela casa inteira, mas me recolho nesse canto como quem retorna ao ventre.

Nos outros cômodos, guardo o que sobrou: os guarda-roupas, as bicicletas, duas mesas grandes o suficiente para acolher oito pessoas — uma na cozinha, outra na sala de estar. Mas os lugares permanecem vazios, como se esperassem por um banquete que nunca chega.

O jardim é vasto, mas raramente o visito. O quintal também. E, como se não bastasse, construí quartos nesses espaços. Para guardar o quê? Objetos que já deveriam ter partido, memórias que resistem ao tempo, fantasmas que ainda pedem abrigo.

A casa tem cinco varandas, quase nunca pisadas. E por que tanto? Porque um dia imaginei que seria necessário espaço para todos os “meus” filhos e filhas. Coloco “meus” entre aspas porque, na verdade, nunca foram meus. São seres que passaram por mim como o vento: intensos, breves, livres. Estiveram comigo enquanto precisavam, enquanto dependiam. Depois, seguiram seus próprios caminhos, como devem seguir. Como dizia o profeta Gibran, são filhos da vida, não dos pais. São flechas lançadas, e nós, os arcos que se curvam com amor.

Escrevo estas tolices não por vaidade, mas por necessidade. Para não perder o hábito de falar, de existir em palavras. O silêncio tem me ocupado com profundidade crescente. E os escritos, talvez, sejam apenas gritos lançados num vale sem ecos — mas ainda assim, gritos. Porque mesmo o eco ausente é melhor que o esquecimento.

Testemunho de um escritor que habita o silêncio

Inspirado na luz de Heidegger

Ao escrever Tolices do cotidiano, não pretendi construir uma narrativa linear, tampouco oferecer respostas. O que fiz — ou melhor, o que aconteceu — foi um desvelar. Heidegger diria que o ser se revela na clareira do mundo, e talvez este texto seja justamente isso: uma abertura, uma fresta por onde o ser escapa das estruturas e se deixa ver em sua fragilidade.

A casa, ao longo do texto, não é apenas cenário. Ela é símbolo do habitar — esse modo de ser que não se limita à ocupação de espaços físicos, mas que se dá como cuidado, como presença. Habitar é estar no mundo de forma significativa. E, ao revisitar minha trajetória, percebo que sempre busquei casas grandes não por ostentação, mas por uma tentativa de conter o tempo, de abrigar ausências, de dar forma ao que escapa.

Mas o ser não se deixa capturar por paredes. As casas que construí — e que hoje ecoam o silêncio — revelam o equívoco de tentar preencher o vazio com matéria. Heidegger nos lembra que o vazio não é o nada, mas a possibilidade do ser. E é nesse vazio que hoje habito: um cômodo pequeno, onde concentro minha existência, como quem retorna ao ventre, ao essencial.

Os filhos, que um dia imaginei abrigar em cada canto da casa, são talvez o ponto mais delicado dessa reflexão. Coloquei “meus” entre aspas porque compreendi, tardiamente, que não se possui o que é livre. Eles passaram por mim como o vento — e o vento não se prende, apenas se sente. Foram presença enquanto precisaram, mas o destino deles é o mundo, não o meu lar. Como flechas lançadas, seguiram seu curso, e eu, arco curvado, permaneço com o gesto.

Escrever estas “tolices” é, portanto, um modo de resistir ao esquecimento. A linguagem, para Heidegger, é a morada do ser. E ao escrever, eu habito. Mesmo que o vale não devolva ecos, ainda assim lanço minha voz. Porque o silêncio que me ocupa não é ausência, mas profundidade. E os gritos que lanço — mesmo sem retorno — são testemunhos de que ainda sou.

Este texto não é uma crônica. É uma morada. E nela, o ser se recolhe, se interroga, se permite ser.

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