Utopia Subjacente – Capítulo 6


“No amor não existe medo; pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo. Por conseguinte, quem sente medo ainda não está realizado no amor”. Primeira Carta de João (4,18).

 

O lixeiro de tesouros antigos

 

Toda iniciação prescreve a morte do homem velho para propiciar o nascimento do homem nobre, do homem novo. É o desabrochar do ser que habita em cada um de nós, nas profundezas da alma.

 

Como realizar, na prática, a transformação para o homem novo após a iniciação?

 

Inicialmente, é preciso reconhecer que o chamado "homem velho" é caracterizado pela ausência de um desejo genuíno. Ele é dominado por desejos alheios, internalizados ao longo da vida por meio das influências de familiares, professores e colegas. Em contrapartida, o "homem novo" possui um desejo consciente e autêntico, formado a partir de experiências presentes e vividas com intensidade.

 

No "homem velho", as decisões são guiadas por memórias inconscientes que limitam a visão de futuro. O medo, muitas vezes arraigado no passado, dita as escolhas. Já no "homem novo", o amor é a força motriz, impulsionando-o a buscar o que é bom e belo. É através do amor que ele descobre seus verdadeiros desejos e direciona sua vida para um propósito mais significativo.

 

Para dar início a essa transformação, é fundamental um processo gradual de desapego do passado. Isso envolve a libertação de hábitos antigos, crenças limitantes e memórias dolorosas que impedem o crescimento pessoal. Ao se desfazer do que já foi, o indivíduo abre espaço para o novo e se conecta com sua essência mais profunda.

 

Ao esvaziarmos as lembranças, abrimos espaço para novas experiências e atitudes. Agora, basta seguir as motivações que brotam do coração, do centro do ser. Motivações que valorizam o ser mais do que o ter

 

Se, por exemplo, eu guardo livros que não mais os leio, melhor doá-los. E uma biblioteca pública é um destino melhor do que um amigo particular. Um destino particular pode gerar a expectativa de reciprocidade, aflorando o sentimento de recompensa no receptor. Pior ainda, o doador pode nutrir a expectativa de gratidão. Em ambos os casos, o destino particular pode criar novas e sutis amarras, fortalecendo os padrões do 'homem velho'.

 

São João nos oferece um critério preciso: quem sente medo ainda não alcançou a plenitude do amor, distinguindo assim o 'homem novo' do 'homem velho'.

 

Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 26 de novembro de 2010.

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