Por Hiran de Melo
Troca de mensagens à toa na Web
Comentando: No WhatsApp, você recebe uma mensagem e raramente
percebe, de imediato, que ela chegou. Há lacunas entre o enviar, o receber, o
abrir e o ler. O mesmo ocorre quando você responde. Há um vazio. Irei registrar
aqui fragmentos de um “diálogo”:
Mensagem
recebida:
Acho
bonita a forma como você se expressa e faz correlação com autores. Meu sonho é
escrever assim. Frivolidades ou gêneros literários... Mas por que grito? É tão
assustador, estrondoso... Por que não? Ecos...
Mensagem
resposta:
Para
proporcionar um maior impacto e permitir o desvelar do ser. Muitas vezes, o
nosso grito se dá no silêncio. E esse dói mais ainda.
Mensagem
recebida:
Estou a
pensar. Grito remete, para mim, a uma resposta... e silêncio se contradiz com
grito. Silêncio é inércia. Gritar é movimento...
Mensagem
resposta:
Minha
doce e meiga amiga, no espaço poético nos desprendemos da lógica racional e
linear para entrar no mundo quântico e pulsar. Este pulsar se propaga no vácuo,
onde não existe matéria para transmitir o som — daí o silêncio.
O grito
do silêncio acontece quando você quer chorar, mas não tem mais lágrimas; quer
se levantar, mas falta apoio; quer presença, mas só encontra ausência.
Quer
abraçar alguém que tanto desejou no passado, mas, mesmo ela estando à sua
frente, até disponível ao abraço... falta-lhe vontade.
Quando o
desejo escapa... Mas isso é próprio do desejo: está sempre a escapar, fugir, se
esconder...
Comentando: Um grande vazio, silêncio... Muitas vezes, é assim
os “diálogos” via WhatsApp.
Breves
Considerações
Você já parou para pensar no que acontece entre o
momento em que alguém te manda uma mensagem e o instante em que você a lê?
Parece simples, mas esse intervalo — esse “vazio” — diz muito sobre quem somos.
Às vezes, o silêncio entre uma mensagem e outra fala mais alto que qualquer
palavra. E é nesse espaço que mora algo profundo: o desejo, a ausência, o que
sentimos e nem sempre conseguimos dizer.
Na psicanálise, especialmente na visão de Jacques
Lacan, o desejo é como uma linguagem. Não é algo que controlamos. Na verdade,
somos movidos por ele — e muitas vezes nem sabemos exatamente o que desejamos.
Um exemplo disso aparece num diálogo via WhatsApp, onde alguém diz: “Meu sonho é escrever
assim”. Esse sonho não é só sobre escrever bem. É sobre querer ser
visto, reconhecido, talvez até amado. Mas o desejo, como diz Lacan, está sempre
escapando. Ele nunca se satisfaz totalmente.
Outro trecho do diálogo fala sobre o grito e o
silêncio. Por que
o grito? — Pergunta alguém. E a
resposta vem: “Muitas
vezes o nosso grito se dá no silêncio”. Isso pode parecer confuso, mas é muito real.
Às vezes, o que mais queremos dizer não sai em voz alta. Fica preso. É aquele
momento em que você quer chorar, mas não tem mais lágrimas. Quer companhia, mas
só encontra ausência. Quer abraçar alguém, mas falta vontade. Isso é o que
Lacan chama de gozo — um tipo de dor intensa que vem do desejo não realizado. É
o sentimento que ultrapassa o prazer e invade o corpo e a mente.
Pequei só o pretexto para divagar sobre o impacto
da web na humanidade e das comunicações quebradas, sem conexões, sem espaço
para reflexões. Na contemporaneidade, estamos por demais ocupados para cuidar
de nós mesmos. São frases soltas, sem contexto. Não há espaço nem tempo para
escuta. Este escapar, este esconder, é próprio do humano — inclusive,
independente do querer. O escapar é no sentido de que o desejo não se permite
simbolizar. Daí o porquê de tantos discursos valorizando a escuta. Todavia, a
solidão, com nova nomenclatura, avança.
A psicanálise também fala sobre o Nome-do-Pai, que
é como uma regra que organiza nossos desejos. Quando essa regra falha — quando
não temos limites ou referências — podemos nos perder. O diálogo mostra isso:
frases poéticas, soltas, sem lógica. É bonito, mas também revela uma busca por
sentido. E essa busca é humana.
Por isso, transformar-se é mais do que mudar por
fora. É olhar para dentro, entender suas faltas, aceitar que o desejo nunca se
completa — mas pode nos mover. Iluminar é compartilhar o que você aprende, é
agir com sabedoria. Inspirar é viver com propósito, sendo exemplo de respeito,
escuta e empatia.
Se você está lendo isso, saiba: sua vida pode ser
esse convite. Seu gesto pode ser esse farol. Sua escuta pode ser esse templo.
Porque o mundo não precisa só de palavras bonitas — precisa de pessoas que
vivem com verdade.
Transforme-se. Ilumine. Inspire.
E lembre-se: mesmo no silêncio, há sempre uma voz
querendo ser ouvida. Que seja a sua — com coragem, com afeto, com humanidade.
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