A Voz que Escapa - Confidência sobre Silêncios Digitais

Por Hiran de Melo

Há tempos venho colecionando fragmentos. Não são frases inteiras, tampouco ideias completas. São pedaços de vozes que chegam até mim — às vezes tarde, às vezes entrecortadas, quase sempre envoltas em silêncio. São mensagens que recebo no WhatsApp, como quem recebe uma garrafa lançada ao mar. E, ao abrir, não sei se o que leio é resposta, desabafo ou apenas ruído.

Não há urgência. Há lacunas.

Entre o enviar e o receber, entre o abrir e o ler, há um tempo suspenso. Um tempo que não é cronológico, mas existencial. É nesse intervalo que mora o vazio. E é nesse vazio que escuto o outro.

Recebi, certa vez, uma mensagem que dizia:

“Acho bonita a forma como você se expressa e faz correlação com autores. Meu sonho é escrever assim. Frivolidades ou gêneros literários... Mas por que o grito? É tão assustador, estrondoso... Por que não? Ecos…”

Li com cuidado. Respondi com silêncio. Depois com palavras:

“Para proporcionar um maior impacto e permitir o desvelar do ser. Muitas vezes, o nosso grito se dá no silêncio. E esse dói mais ainda.”

O grito e o silêncio. Dois extremos que se tocam. O grito que não se ouve, o silêncio que ensurdece. O outro respondeu:

“Grito remete, para mim, a uma resposta... e silêncio se contradiz com grito. Silêncio é inércia. Gritar é movimento…”

E eu, escutando, pensei: no espaço poético, nos desprendemos da lógica. O grito pode ser silêncio. O silêncio pode ser grito. Há dor que não se nomeia. Há desejo que não se realiza. Há presença que não se concretiza, mesmo quando o corpo está ali, disponível ao abraço.

Essas mensagens não são conversas. São tentativas. Tentativas de tocar o outro, de ser tocado. Tentativas de existir para além da tela.

Outro dia, recebi:

“Como o eu lírico não tem ou a não possui, vive a devagar…”

E eu, que também vivo a devagar, respondi:

“É neste espaço do devagar que se desvela o ser. A concretude do algo são as obrigações éticas. Que se manifestam no contexto social. Já nas relações a dois, o cuidado com o outro é algo a ser construído diariamente”.

Falei de Freud, de Lacan, da linguagem. Mas, no fundo, falava de mim. Falava da escuta. Falava da tentativa de compreender o outro, mesmo quando ele se expressa em fragmentos, em lapsos, em falhas.

E então, veio uma última mensagem:

“Bom dia. Estou em fase de reclusão, isolamento e autoconhecimento. Para poder chegar a este nível teu, aí acima. [...] Vejo que estou na fase de amadurecimento mental e é inevitável correr atrás de minha qualidade de vida”.

Ali, não havia mais metáfora. Havia carne. Havia cansaço. Havia desejo de estabilidade, de dignidade, de tempo para si. E eu escutei. Não apenas com os ouvidos, mas com o corpo inteiro.

Essas mensagens são testemunhos. São confissões. São confidências. E eu, que as recebo, sou apenas um ponto de escuta. Um lugar onde o outro pode existir, mesmo que por instantes, mesmo que em silêncio.

Porque, no fim, o que buscamos não é resposta. É acolhimento. É a possibilidade de sermos ouvidos — mesmo que em fragmentos, mesmo que em ecos.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog