Segredos Revelados -
Quando o perdão se fez presente
Sobre o dia em que o amor deixou de pedir
explicações e o perdão abriu a porta
Por Hiran de Melo
Há
momentos em que o amor não termina quando alguém parte.
Termina
quando já não somos capazes de perdoar.
A
separação, às vezes, acontece muito antes da despedida. Primeiro, ela nasce
dentro do coração. Depois, ganha palavras. Por fim, transforma-se em distância.
E
quando o perdão não mais se fez possível, a decisão pela separação já havia
sido tomada.
No
outro mundo, os deuses fizeram festa.
Não
porque o amor tivesse morrido, mas porque o medo havia vencido.
Os
tambores da guerra celestial tocaram durante toda a noite. E, quando o sorriso
de quem partira parecia carregar o deboche de quem acreditava ter vencido, os
deuses dançaram sobre aquilo que julgavam ser a derrota do amor.
Mas
eles não sabiam de uma coisa:
há
derrotas que são apenas o silêncio antes do recomeço.
Quando
o perdão se fez ausente, nada mais parecia restar.
Restaram
as lágrimas.
E
ela chorou.
Chorou
pelo que havia sido. Pelo que poderia ter sido. Pelo que jamais seria
novamente.
Suas
lágrimas caíram sobre a terra como chuva sobre um deserto esquecido.
E
aconteceu aquilo que somente a dor, quando finalmente compreendida, consegue
fazer:
a
terra voltou a produzir.
Do
lugar onde antes havia apenas sofrimento, nasceu um novo olhar.
Às
vezes, é preciso chorar aquilo que perdemos para enxergar aquilo que ainda
podemos encontrar.
Foi
então que, certa manhã, os eleitos perceberam um novo sorriso florescendo no
rosto da princesa.
Nos
Céus, o Pai sorriu.
Não
era um sorriso de vitória.
Era
o sorriso de quem sabia que a espera havia chegado ao fim.
A
princesa ainda não sabia.
O
coração, entretanto, já sabia.
Foi
quando alguém bateu à sua porta.
Ela
esperava um príncipe.
Esperava
alguém vestido de sonhos, trazendo nas mãos as promessas que um dia haviam sido
feitas.
Mas
encontrou um mendigo.
Um
homem queimado pelo sol, marcado pelos caminhos, coberto pelas cicatrizes de
quem atravessara mares e desertos.
Ela
olhou demoradamente.
Não
reconheceu de imediato aquele rosto.
E
talvez tenha sido justamente aí que começou a verdadeira prova.
Porque
algumas pessoas retornam para nós sem a aparência com que partiram.
O
tempo muda os rostos.
A
vida muda os corpos.
A
dor muda os olhos.
E
há pessoas que voltam tão diferentes que precisamos escolher entre reconhecer
aquilo que os olhos veem ou aquilo que o coração ainda consegue sentir.
Ela
pensou na antiga profecia.
Talvez
aquele mendigo fosse o príncipe que procurava.
Talvez
seu beijo tivesse o poder de transformar cinzas em árvore, deserto em jardim,
ausência em presença.
Mas
a razão levantou suas dúvidas.
—
E se não for ele?
O
coração, porém, respondeu em silêncio:
—
E se for?
Essa
é uma das grandes tragédias humanas.
A
razão deseja provas.
O
amor deseja possibilidade.
A
razão pergunta quem o outro se tornou.
O
coração pergunta se ainda existe alguma coisa que possa nascer entre os dois.
Ela
permaneceu diante da porta.
Durante
muito tempo.
Até
compreender que o perdão não era um prêmio que concederia ao homem que estava
diante dela.
Era
uma liberdade que concederia a si mesma.
Perdoar
não significava dizer que nada havia acontecido.
Não
significava apagar as feridas.
Não
significava transformar o passado em mentira.
Perdoar
significava apenas não permitir que aquilo que havia acontecido continuasse
decidindo o que ainda poderia acontecer.
Foi
então que ela abriu a porta.
E
compreendeu.
O
mendigo era exatamente aquele que seu coração esperava.
Não
o príncipe dos contos de infância.
Não
o homem perfeito que imaginara.
Mas
o homem real.
Aquele
que havia conhecido o abandono, a solidão, o fracasso e a própria fragilidade.
Talvez
fosse justamente por isso que agora pudesse ser amado.
Porque
o amor verdadeiro não começa quando encontramos alguém perfeito.
Começa
quando conseguimos enxergar alguém inteiro.
Com
suas cicatrizes.
Com
seus erros.
Com
seus medos.
Com
aquilo que o mundo não considera digno de ser amado.
A
princesa correu até o armário.
Retirou
de lá os brinquedos de sua infância.
E
sorriu.
Havia
muito tempo que aqueles brinquedos esperavam.
Esperavam
por aquele dia em que ela deixaria de viver segundo as expectativas dos outros
e teria coragem de voltar ao lugar onde seu coração sempre havia morado.
Naquele
instante, compreendeu que havia passado grande parte da vida tentando parecer
adulta para um mundo que jamais saberia o que fazer com a sua criança interior.
Então
deixou a menina voltar.
E,
com ela, voltou também a capacidade de acreditar.
Não
numa fantasia.
Mas
na possibilidade de recomeçar.
Quando
o perdão se fez presente, os tambores do outro mundo silenciaram.
Os
deuses da guerra ficaram sem música.
Não
havia mais vitória a celebrar.
Porque
descobriram tarde demais aquilo que os homens quase sempre esquecem:
a
guerra pode destruir uma casa.
Pode
separar duas pessoas.
Pode
transformar amor em silêncio.
Mas
não consegue vencer aquilo que decide renascer.
Nos
mares celestiais, uma antiga canção voltou a ser ouvida.
Era
a canção do amor.
Aquela
que existia antes dos homens aprenderem a guerrear.
Aquela
que continua existindo depois que todas as guerras terminam.
E
então algo extraordinário aconteceu.
Um
perfume de criança atravessou os Céus e desceu sobre a Terra.
As
flores que haviam esquecido como nasceram voltaram a florescer.
Os
pássaros encontraram novamente seus cantos.
E
os homens, por um breve instante, compreenderam que a eternidade talvez não
seja viver para sempre.
Talvez
seja deixar alguma coisa de nós continuar vivendo depois que já não estivermos
aqui.
Quando
o perdão se fez presente, ninguém voltou a ser exatamente quem era.
A
princesa deixou de esperar o príncipe.
O
mendigo deixou de desejar ser reconhecido como príncipe.
E
ambos descobriram que o amor não precisava transformar um no outro.
Precisava
apenas permitir que um enxergasse o outro.
Talvez
seja esse o segredo que tantas vezes procuramos fora de nós.
Perdoar
não é devolver ao outro o lugar que ele ocupava.
É
retirar de dentro de nós o lugar que a dor ocupou.
É
deixar de alimentar aquilo que nos feriu.
É
parar de conversar diariamente com uma ausência.
É
compreender que algumas pessoas não precisam voltar para que possamos seguir
adiante.
E
que, às vezes, justamente quando alguém retorna, a maior prova de amor não é
recebê-lo.
É
descobrir se ainda existe amor suficiente para recebê-lo sem deixar de ser quem
somos.
Naquela
manhã, a princesa finalmente entendeu.
O
beijo não transformaria o mendigo em príncipe.
O
beijo transformaria o olhar dela.
E,
quando o olhar mudou, tudo mudou.
Porque
o verdadeiro milagre nunca esteve no outro.
Estava
nela.
Estava
na capacidade de olhar para as ruínas e ainda imaginar uma casa.
De
olhar para as cinzas e ainda acreditar na árvore.
De
olhar para o passado e dizer:
—
Eu não posso mudá-lo.
Mas
posso escolher o que farei com ele.
Foi
assim que o amor venceu o medo.
Não
porque o passado tivesse sido esquecido.
Mas
porque deixou de ser o senhor do futuro.
E
os deuses, finalmente vencidos, compreenderam aquilo que nunca haviam
aprendido:
há
batalhas que terminam quando alguém decide não mais lutar.
E
talvez seja esse o verdadeiro segredo revelado:
quando
o perdão se faz presente, não é o passado que muda. Somos nós que deixamos de
pertencer a ele.
Poeta
Hiran de Melo — Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita — Oráculo de
Melquisedec, ao Vale do Mirante, 15 de outubro do ano de dois mil e doze da
revelação da Luz do Cristo.
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