Segredos Revelados -  – Capítulo 2

Quando o perdão se fez presente

Sobre o dia em que o amor deixou de pedir explicações e o perdão abriu a porta

Por Hiran de Melo

Há momentos em que o amor não termina quando alguém parte.

Termina quando já não somos capazes de perdoar.

A separação, às vezes, acontece muito antes da despedida. Primeiro, ela nasce dentro do coração. Depois, ganha palavras. Por fim, transforma-se em distância.

E quando o perdão não mais se fez possível, a decisão pela separação já havia sido tomada.

No outro mundo, os deuses fizeram festa.

Não porque o amor tivesse morrido, mas porque o medo havia vencido.

Os tambores da guerra celestial tocaram durante toda a noite. E, quando o sorriso de quem partira parecia carregar o deboche de quem acreditava ter vencido, os deuses dançaram sobre aquilo que julgavam ser a derrota do amor.

Mas eles não sabiam de uma coisa:

há derrotas que são apenas o silêncio antes do recomeço.

Quando o perdão se fez ausente, nada mais parecia restar.

Restaram as lágrimas.

E ela chorou.

Chorou pelo que havia sido. Pelo que poderia ter sido. Pelo que jamais seria novamente.

Suas lágrimas caíram sobre a terra como chuva sobre um deserto esquecido.

E aconteceu aquilo que somente a dor, quando finalmente compreendida, consegue fazer:

a terra voltou a produzir.

Do lugar onde antes havia apenas sofrimento, nasceu um novo olhar.

Às vezes, é preciso chorar aquilo que perdemos para enxergar aquilo que ainda podemos encontrar.

Foi então que, certa manhã, os eleitos perceberam um novo sorriso florescendo no rosto da princesa.

Nos Céus, o Pai sorriu.

Não era um sorriso de vitória.

Era o sorriso de quem sabia que a espera havia chegado ao fim.

A princesa ainda não sabia.

O coração, entretanto, já sabia.

Foi quando alguém bateu à sua porta.

Ela esperava um príncipe.

Esperava alguém vestido de sonhos, trazendo nas mãos as promessas que um dia haviam sido feitas.

Mas encontrou um mendigo.

Um homem queimado pelo sol, marcado pelos caminhos, coberto pelas cicatrizes de quem atravessara mares e desertos.

Ela olhou demoradamente.

Não reconheceu de imediato aquele rosto.

E talvez tenha sido justamente aí que começou a verdadeira prova.

Porque algumas pessoas retornam para nós sem a aparência com que partiram.

O tempo muda os rostos.

A vida muda os corpos.

A dor muda os olhos.

E há pessoas que voltam tão diferentes que precisamos escolher entre reconhecer aquilo que os olhos veem ou aquilo que o coração ainda consegue sentir.

Ela pensou na antiga profecia.

Talvez aquele mendigo fosse o príncipe que procurava.

Talvez seu beijo tivesse o poder de transformar cinzas em árvore, deserto em jardim, ausência em presença.

Mas a razão levantou suas dúvidas.

— E se não for ele?

O coração, porém, respondeu em silêncio:

— E se for?

Essa é uma das grandes tragédias humanas.

A razão deseja provas.

O amor deseja possibilidade.

A razão pergunta quem o outro se tornou.

O coração pergunta se ainda existe alguma coisa que possa nascer entre os dois.

Ela permaneceu diante da porta.

Durante muito tempo.

Até compreender que o perdão não era um prêmio que concederia ao homem que estava diante dela.

Era uma liberdade que concederia a si mesma.

Perdoar não significava dizer que nada havia acontecido.

Não significava apagar as feridas.

Não significava transformar o passado em mentira.

Perdoar significava apenas não permitir que aquilo que havia acontecido continuasse decidindo o que ainda poderia acontecer.

Foi então que ela abriu a porta.

E compreendeu.

O mendigo era exatamente aquele que seu coração esperava.

Não o príncipe dos contos de infância.

Não o homem perfeito que imaginara.

Mas o homem real.

Aquele que havia conhecido o abandono, a solidão, o fracasso e a própria fragilidade.

Talvez fosse justamente por isso que agora pudesse ser amado.

Porque o amor verdadeiro não começa quando encontramos alguém perfeito.

Começa quando conseguimos enxergar alguém inteiro.

Com suas cicatrizes.

Com seus erros.

Com seus medos.

Com aquilo que o mundo não considera digno de ser amado.

A princesa correu até o armário.

Retirou de lá os brinquedos de sua infância.

E sorriu.

Havia muito tempo que aqueles brinquedos esperavam.

Esperavam por aquele dia em que ela deixaria de viver segundo as expectativas dos outros e teria coragem de voltar ao lugar onde seu coração sempre havia morado.

Naquele instante, compreendeu que havia passado grande parte da vida tentando parecer adulta para um mundo que jamais saberia o que fazer com a sua criança interior.

Então deixou a menina voltar.

E, com ela, voltou também a capacidade de acreditar.

Não numa fantasia.

Mas na possibilidade de recomeçar.

Quando o perdão se fez presente, os tambores do outro mundo silenciaram.

Os deuses da guerra ficaram sem música.

Não havia mais vitória a celebrar.

Porque descobriram tarde demais aquilo que os homens quase sempre esquecem:

a guerra pode destruir uma casa.

Pode separar duas pessoas.

Pode transformar amor em silêncio.

Mas não consegue vencer aquilo que decide renascer.

Nos mares celestiais, uma antiga canção voltou a ser ouvida.

Era a canção do amor.

Aquela que existia antes dos homens aprenderem a guerrear.

Aquela que continua existindo depois que todas as guerras terminam.

E então algo extraordinário aconteceu.

Um perfume de criança atravessou os Céus e desceu sobre a Terra.

As flores que haviam esquecido como nasceram voltaram a florescer.

Os pássaros encontraram novamente seus cantos.

E os homens, por um breve instante, compreenderam que a eternidade talvez não seja viver para sempre.

Talvez seja deixar alguma coisa de nós continuar vivendo depois que já não estivermos aqui.

Quando o perdão se fez presente, ninguém voltou a ser exatamente quem era.

A princesa deixou de esperar o príncipe.

O mendigo deixou de desejar ser reconhecido como príncipe.

E ambos descobriram que o amor não precisava transformar um no outro.

Precisava apenas permitir que um enxergasse o outro.

Talvez seja esse o segredo que tantas vezes procuramos fora de nós.

Perdoar não é devolver ao outro o lugar que ele ocupava.

É retirar de dentro de nós o lugar que a dor ocupou.

É deixar de alimentar aquilo que nos feriu.

É parar de conversar diariamente com uma ausência.

É compreender que algumas pessoas não precisam voltar para que possamos seguir adiante.

E que, às vezes, justamente quando alguém retorna, a maior prova de amor não é recebê-lo.

É descobrir se ainda existe amor suficiente para recebê-lo sem deixar de ser quem somos.

Naquela manhã, a princesa finalmente entendeu.

O beijo não transformaria o mendigo em príncipe.

O beijo transformaria o olhar dela.

E, quando o olhar mudou, tudo mudou.

Porque o verdadeiro milagre nunca esteve no outro.

Estava nela.

Estava na capacidade de olhar para as ruínas e ainda imaginar uma casa.

De olhar para as cinzas e ainda acreditar na árvore.

De olhar para o passado e dizer:

— Eu não posso mudá-lo.

Mas posso escolher o que farei com ele.

Foi assim que o amor venceu o medo.

Não porque o passado tivesse sido esquecido.

Mas porque deixou de ser o senhor do futuro.

E os deuses, finalmente vencidos, compreenderam aquilo que nunca haviam aprendido:

há batalhas que terminam quando alguém decide não mais lutar.

E talvez seja esse o verdadeiro segredo revelado:

quando o perdão se faz presente, não é o passado que muda. Somos nós que deixamos de pertencer a ele.

Poeta Hiran de Melo — Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita — Oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 15 de outubro do ano de dois mil e doze da revelação da Luz do Cristo.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog