Segredos Revelados
O estranho no ninho
Por Hiran de Melo
Conheço
pessoas que chegam de muito longe e, no entanto, parecem trazer uma antiga
familiaridade, como se, antes mesmo do encontro, alguma parte de nós já se
conhecesse.
E
conheço aquelas que chegam de tão perto que, ainda assim, parecem estrangeiras.
Talvez
porque a distância nem sempre seja medida em quilômetros.
Às
vezes, ela começa dentro de uma casa.
Um
homem pode nascer entre nós e passar a vida inteira tentando encontrar um lugar
à mesa. Pode carregar o mesmo sobrenome, falar a mesma língua, compartilhar as
mesmas lembranças e, ainda assim, sentir que existe uma fronteira invisível
separando-o dos demais.
Ele
está dentro do ninho.
Mas
alguma coisa lhe diz que não pertence inteiramente a ele.
O
estranho é aquele cuja presença interrompe a familiaridade.
Aquele
que chega trazendo no olhar alguma coisa que não reconhecemos.
Uma
pergunta que não fizemos.
Uma
maneira diferente de caminhar.
Uma
liberdade que não sabemos como receber.
E,
diante do diferente, quase sempre nasce a necessidade de conferir documentos.
Não
necessariamente papéis.
Às
vezes, pedimos atestados invisíveis.
Queremos
provas de caráter.
Provas
de fidelidade.
Provas
de pureza.
Provas
de pertencimento.
Como
se disséssemos ao recém-chegado:
“Antes
de entrar, prove que você é digno de estar conosco.”
Ao
estrangeiro exigimos aquilo que raramente exigimos de nós mesmos.
Talvez
porque o conhecido nos dê a ilusão de segurança.
O
outro, porém, carrega a possibilidade do inesperado.
E
o inesperado perturba.
Há
momentos em que o estrangeiro é recebido com esperança.
Esperam
dele aquilo que nós mesmos já não conseguimos oferecer.
Então
alguém lhe entrega uma dor e diz:
“Cure.”
Entrega-lhe
um filho, uma família, uma comunidade ferida e diz:
“Salve.”
Entrega-lhe
uma esperança quase morta e pede:
“Faça-a
voltar a viver.”
E,
sem perceber, transformamos uma pessoa em promessa.
Colocamos
sobre seus ombros o peso das nossas carências.
Chamamos
de enviado aquele que acreditamos poder realizar aquilo que não conseguimos
realizar.
Mas
basta que ele não corresponda à imagem que construímos para que a esperança se
transforme em desconfiança.
O
enviado pode tornar-se impostor.
O
hóspede pode tornar-se usurpador.
O
irmão pode tornar-se ameaça.
E
aquele que ontem era aguardado como resposta passa a ser acusado de ser o
problema.
Talvez
porque seja mais fácil expulsar o mensageiro do que escutar a mensagem.
Há
verdades que não são rejeitadas porque sejam falsas.
São
rejeitadas porque chegam cedo demais ao lugar onde ainda não estamos preparados
para recebê-las.
Foi
assim que o amor se tornou escândalo.
Não
o amor que escolhe apenas os seus.
Não
o amor que se oferece em troca de alguma coisa.
Mas
aquele que atravessa a fronteira.
Aquele
que alcança até mesmo quem nos feriu.
Perdoar
quem nos fez mal parece, para muitos, uma espécie de desordem.
Amar
o inimigo parece ainda mais estranho.
Porque
construímos nossa identidade também a partir daqueles que decidimos manter do
lado de fora.
Precisamos
de um “nós”.
E,
algumas vezes, para que o “nós” pareça mais forte, precisamos inventar um
“eles”.
Assim
nascem os muros.
Primeiro,
dentro da linguagem.
Depois,
dentro do coração.
Por
fim, dentro da casa.
O
outro passa a ser aquele que pensa diferente.
Depois,
aquele que ameaça.
Depois,
aquele que não merece.
E
quando percebemos, já não estamos protegendo nossa casa.
Estamos
apenas protegendo nosso medo.
Talvez
seja essa a mais silenciosa das prisões:
a
necessidade de que o outro seja semelhante para que possamos amá-lo.
O
estrangeiro, então, torna-se um espelho.
E
talvez seja isso que realmente incomode.
Porque
o espelho não acusa.
Apenas
devolve.
Diante
dele, descobrimos que também somos estrangeiros em alguma parte da vida.
Também
já chegamos a lugares onde ninguém conhecia nossa história.
Também
desejamos ser recebidos sem precisar apresentar certificados de perfeição.
Também
carregamos dentro de nós regiões que ainda não conseguimos explicar.
Há
uma parte de nós que permanece estrangeira até para nós mesmos.
Talvez
por isso o encontro verdadeiro com o outro nunca seja apenas um encontro entre
duas pessoas.
É
também o encontro entre aquilo que sabemos ser e aquilo que ainda não
conseguimos reconhecer em nós.
O
estrangeiro nos desloca.
Tira-nos
do centro.
Abre
uma fresta na parede das certezas.
E,
pela fresta, entra aquilo que não planejamos.
Uma
palavra.
Um
olhar.
Uma
pergunta.
Uma
possibilidade.
Talvez
o outro não tenha chegado para ocupar nosso lugar.
Talvez
tenha chegado para ampliar o espaço.
Talvez
não queira destruir o ninho.
Talvez
apenas nos mostre que o ninho ficou pequeno.
Porque
uma casa que só acolhe os semelhantes deixa de ser abrigo e começa a ser
fronteira.
E
uma comunidade que só reconhece aqueles que pensam como ela corre o risco de
confundir fraternidade com uniformidade.
Ser
irmão não é ser igual.
É
conseguir permanecer próximo sem exigir que o outro deixe de ser quem é.
Talvez
a verdadeira fraternidade comece justamente quando já não precisamos perguntar
de que lado o outro está.
Porque
algumas fronteiras existem apenas enquanto continuamos acreditando nelas.
As
terras distantes de que falamos talvez nunca tenham estado muito longe.
Podem
estar dentro de uma família.
Dentro
de uma amizade.
Dentro
de uma comunidade.
Dentro
de um templo.
Dentro
de uma crença.
E,
talvez mais profundamente, dentro de nós.
Somos
todos estrangeiros em algum lugar.
Todos
carregamos uma parte de nós que ainda procura uma morada.
Todos
já fomos o estranho no ninho de alguém.
E
todos, em algum momento, poderemos ser chamados a decidir se abriremos a porta
ou levantaremos mais um muro.
Talvez
o segredo não esteja em deixar de ser estrangeiro.
Mas
em descobrir que nenhum de nós é inteiramente dono da casa.
A
vida nos hospeda por algum tempo.
O
outro também.
E
talvez o que chamamos de diferença seja apenas uma das muitas formas pelas
quais o mistério humano entra pela porta.
Por
isso, quando o estrangeiro chegar, talvez não seja preciso perguntar
imediatamente quem ele é.
Talvez
seja suficiente perguntar:
“Que
parte de mim ainda não aprendi a acolher?”
Porque
pode acontecer que aquele que julgávamos estranho tenha vindo apenas para nos
devolver uma parte de nós mesmos.
E
então descobriremos, com alguma surpresa, que o estrangeiro nunca esteve
completamente do lado de fora.
Ele
estava apenas esperando que abríssemos espaço dentro de nós.
Poeta Hiran de Melo —
Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita — Oráculo de Melquisedec, ao
Vale do Mirante, 19 de dezembro do ano de dois mil e doze da Revelação da Luz
do Estranho.

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