Segredos Revelados


O caminho que me leva a você

Por Hiran de Melo

Temos vivido travessias em que não sabemos exatamente para onde estamos indo. Sabemos apenas que não podemos permanecer onde estamos.

Na travessia do deserto, tudo parece difícil, quase no limite do realizável. O sol pesa sobre o corpo, a areia se move sob os pés e, quando pensamos ter encontrado um caminho, ele já desapareceu sob outra duna.

Mas talvez o maior perigo não esteja no calor, nem na sede.

Talvez esteja naquilo que desejamos encontrar.

Nas horas mais quentes, vejo ao longe um lago azul. Ele me chama. A água parece tão próxima que quase posso senti-la. Caminho em sua direção e, quanto mais me aproximo, mais ela se afasta, até desaparecer completamente.

Era uma miragem.

E talvez algumas formas de amor também sejam.

Durante muito tempo, podemos imaginar ter encontrado a bem-amada na amiga mais amiga, porque projetamos sobre alguém aquilo que desejamos encontrar. Vestimos o outro com nossos sonhos e, depois, confundimos a imagem criada por nós com a pessoa que está diante de nós.

Aproximamo-nos da miragem e perdemos a amiga.

E, quando a miragem desaparece, percebemos que a bem-amada também não estava lá.

O deserto, então, revela algo que a abundância costuma esconder: somos, muitas vezes, estrangeiros dentro de nós mesmos.

É nesse território árido que aprendemos a necessidade de uma aliança.

Não uma aliança com o deserto para vencê-lo, mas com o próprio caminho para atravessá-lo.

Quando deixo de lutar contra a areia, ela deixa de ser apenas obstáculo. Quando aceito o calor, a sede, o cansaço e até a incerteza, o deserto começa a me ensinar. Ele não está contra mim.

Ele é o caminho.

Talvez seja isso que acontece quando finalmente fazemos as pazes com aquilo que somos e com aquilo que desejamos ser.

Nada acontece contra o meu propósito de alcançar o amor. O deserto simplesmente se apresenta como é. A transformação começa quando eu também me apresento a ele como sou.

Então compreendo que o desejo não é uma fraqueza a ser escondida.

É uma força que precisa ser reconhecida.

Sem desejo, o caminho perde sua direção. Sem coragem para reconhecer o que verdadeiramente buscamos, podemos passar a vida inteira perseguindo lagos que nunca existiram.

Depois do calor abrasador, sinto frio.

Não estou com febre, mas meu corpo estremece. E minha alma também.

É um estranho tremor.

Como se alguma coisa, dentro de mim, estivesse despertando.

Descubro, então, que talvez eu não esteja perdido entre dunas móveis. Talvez esteja simplesmente a caminho de você.

E essa descoberta muda tudo.

O deserto continua sendo deserto. O sol continua queimando. A areia continua ferindo os pés. Mas alguma coisa mudou em mim: já não caminho apenas para chegar a algum lugar.

Caminho porque estou me tornando alguém capaz de chegar.

O sol e a areia, trazida pelo vento, escavam minha alma na mesma medida em que ferem meu corpo. A escavação é lenta, quase imperceptível. Mas aquilo que é permanente acaba sendo profundo.

Talvez o deserto não queira me destruir.

Talvez queira retirar de mim aquilo que impede que eu seja.

Como o cinzel do maçom sobre a pedra bruta, cada golpe retira um pouco do excesso, do medo, da ilusão, das imagens que criei sobre mim e sobre o outro.

Não se trata de acrescentar uma forma à pedra.

Trata-se de retirar aquilo que a escondia.

Assim, o deserto também me esculpe.

E, pouco a pouco, a pedra bruta se transforma em pedra polida, não porque tenha deixado de ser pedra, mas porque descobriu uma forma mais verdadeira de existir.

Uma pedra pronta para encontrar outra pedra.

Não para desaparecer nela.

Mas para, com ela, construir.

Talvez o amor seja isso: não a fusão de dois seres que deixam de existir individualmente, mas o encontro de duas incompletudes que aprendem a construir uma morada onde ambas possam permanecer.

Depois de tanto caminhar, chego à sua presença.

Não chego como quem venceu o deserto.

Chego como quem foi transformado por ele.

Sou tenda de Cedar, envelhecido pelo tempo, cansado da caminhada, trazendo nas marcas do corpo e da alma aquilo que vivi.

Mas também sou pavilhão de Salma, aberto à festa, ao canto, à celebração do encontro.

Chego sem a miragem.

Chego sem a necessidade de inventar você.

E talvez seja somente então que posso realmente encontrá-la.

Porque amar não é encontrar no outro aquilo que imaginei.

É permitir que o outro apareça.

Inteiro.

Diferente.

Livre.

E, diante dessa liberdade, descobrir que também posso ser livre.

Então compreendo que o caminho que me leva a você nunca foi apenas um caminho exterior.

Era o caminho que me levava para dentro de mim.

Cada duna atravessada, cada miragem perdida, cada ferida, cada noite fria e cada desejo reconhecido foram retirando alguma coisa que me impedia de amar.

No fim da travessia, descubro que o oásis não estava simplesmente à minha frente.

Estava sendo construído em mim.

E quando finalmente encontro você, talvez seja porque já não procuro uma imagem para completar minha falta.

Trago apenas aquilo que sou.

Você traz aquilo que é.

E, entre nós, nasce uma possibilidade que não existia antes:

a de construirmos juntos uma morada para o amor.

Sou seu.

E você sabe.

Somos um.

Não porque deixamos de ser dois,

mas porque, sem perdermos a nossa singularidade, aprendemos a caminhar na mesma direção.

Poeta Hiran de Melo — Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita — Oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 28 de julho do ano 2012 da revelação da luz em Jesus.

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