Segredos Revelados


O Apocalipse de Alef

Quando a glória perde o rosto e a humildade encontra um caminho

Por Hiran de Melo

Um dia, seu Pai morreu.

E, naquele instante em que a morte costuma silenciar os homens, Alef ouviu uma saudação antiga, quase arquetípica:

O Rei morreu, viva o Rei.

Era chegada a hora de herdar os exércitos do pai. De ocupar o lugar que a morte havia deixado vazio. De ser maior, mais forte e mais bravo do que aquele que partira.

Alef não esperou que as lágrimas secassem.

Levantou os olhos para os céus e gritou:

— O mundo conhecerá a força de Alef, o Maior, e beijará os seus pés!

E, como se o próprio céu respondesse à sua ambição, ouviu:

— À glória.

Foi o bastante.

Partiu sem sequer lançar um último olhar para a casa onde nascera.

Tinha pressa.

Haveria de conquistar o mundo.

E conquistou.

Mas, a cada território submetido, alguma coisa dentro dele também era conquistada. Não por outro homem, mas pela própria sede de poder.

Esmagou sob os pés qualquer vestígio de humanidade que pudesse retardar sua marcha. Escreveu o próprio nome com fogo e sangue — sangue de inimigos, mas também de companheiros que, pouco a pouco, deixaram de ser homens ao seu lado para se tornarem soldados obedientes à sua vontade.

A cada vitória, seu exército crescia.

Os vencidos que poupava da morte eram incorporados às suas fileiras. Vieram homens de outras terras, outras línguas, outros costumes. E chegou o dia em que os estrangeiros eram mais numerosos do que aqueles que haviam partido com ele de sua própria terra.

Alef já não comandava apenas um exército.

Comandava homens que o temiam.

E talvez tenha sido aí que começou sua maior derrota.

Porque existe uma solidão que não nasce da ausência de pessoas.

Nasce quando já não podemos distinguir quem permanece por amor e quem permanece por medo.

Sua sede de vitória não conhecia ponto de chegada.

Depois de uma conquista vinha outra. Depois de um inimigo, outro. Depois de uma fronteira, outra.

O mundo inteiro parecia pequeno diante de sua ambição.

Até os seus se rebelaram.

Sentiam saudade de casa. Dos filhos. Das mulheres. Dos pais. Da vida que haviam deixado para trás para seguir aquele homem que prometera glória.

Alef não compreendeu a saudade.

Ou talvez tenha compreendido e, por isso mesmo, a tenha temido.

Matou os que pensaram em recuar.

E, ao matar aqueles que queriam voltar, matou também a última possibilidade de retorno dentro de si.

Sabia que não poderia voltar.

Em sua terra natal, seria presa fácil dos adversários políticos e da própria mãe. Seu poder precisava permanecer longe das raízes.

Assim, o conquistador tornou-se prisioneiro da própria conquista.

Já não havia casa para onde voltar.

Não havia amigos em quem confiar.

Não havia silêncio onde pudesse repousar.

Havia apenas o exército.

E, para proteger seu sono, mercenários estrangeiros que o temiam mais do que o respeitavam.

Talvez essa seja uma das faces mais silenciosas do poder:

chegar ao lugar em que todos obedecem e ninguém verdadeiramente nos acompanha.

Agora, de olhos fechados, Alef via tudo novamente.

Via o pai morto.

Via a casa abandonada.

Via as batalhas.

Via os companheiros caídos.

Via os homens que haviam beijado seus pés.

Via também aqueles que morreram por não querer fazê-lo.

Mas, dessa vez, não havia exército.

Não havia espada.

Não havia território para conquistar.

Alguém lhe ofereceu uma taça de vinho.

E nela estava o veneno.

Por fim, uma simples taça faria aquilo que nenhum exército conseguira fazer.

Tiraria sua vida.

Não, porém, sua glória.

Alef talvez tivesse imaginado uma morte diferente.

Morreria lutando.

De pé.

Contra novos adversários vindos de terras desconhecidas.

Não morreria assim.

Tão cedo.

Tão silenciosamente.

Mas a morte não negocia com a glória.

E naquele instante compreendeu aquilo que talvez tivesse passado a vida inteira tentando evitar:

há uma fronteira que nenhum conquistador atravessa acompanhado.

A última jornada é sempre solitária.

Sem exército.

Sem riquezas.

Sem títulos.

Sem aplausos.

Sem sequer o corpo físico que durante tantos anos acreditara ser sua fortaleza.

Entraria sozinho no mundo das trevas.

Sem armas.

Sem luz.

E, então, tomado pela raiva e pelo medo, Alef fez sua profecia:

“O Grande Alef viverá na alma de todo aquele que servir à Deusa da Glória e enfrentará sozinho o mesmo caminho que enfrentarei agora.”

E assim se fez.

Ao longo de muitos e muitos milênios, homens continuaram erguendo impérios, disputando territórios, buscando reconhecimento e confundindo poder com grandeza.

Tantos foram os gritos.

Tantos os gemidos.

Tanto sangue derramado em nome da glória.

Até que, no coração da própria história, surgiu uma outra possibilidade.

Não veio montado em um cavalo de guerra.

Não chegou acompanhado de exércitos.

Não pediu que beijassem seus pés.

Veio como criança.

E, diante da violência dos homens, escolheu a humildade.

Diante do poder, escolheu o serviço.

Diante da vingança, escolheu o perdão.

Diante da morte, ofereceu amor.

No sangue derramado de um único Cordeiro, a humanidade encontrou uma possibilidade que Alef jamais compreendera:

a de vencer sem conquistar.

Talvez seja esse o verdadeiro apocalipse.

Não o fim do mundo.

Mas o desvelamento daquilo que somos.

Porque Alef não desapareceu.

Ele apenas mudou de lugar.

Agora pode estar dentro de nós.

Está naquele desejo de sermos maiores que os outros. Na necessidade de sermos reconhecidos. Na vontade de dominar para não sermos dominados. Na dificuldade de voltar para casa depois de termos ido longe demais dentro de nós mesmos.

E, ao lado dele, permanece a Criança.

Aquela que ainda sabe que grandeza não é estar acima.

É poder permanecer ao lado.

Aquela que não precisa de súditos para existir.

Que não transforma companheiros em soldados.

Que não precisa esmagar ninguém para sentir-se inteira.

Por isso, amado irmão, sorria.

E olhe para o espelho.

Talvez você encontre ali a face de Alef — o Adulto que deseja conquistar, dominar, possuir e ser reconhecido.

Talvez encontre o semblante de Jesus — a Criança que ainda conhece a delicadeza, o acolhimento, o perdão e a capacidade de recomeçar.

Ou talvez veja os dois.

Porque o verdadeiro campo de batalha nunca esteve fora.

Ele está dentro.

Todos os dias, alguma coisa em nós deseja erguer um trono.

E alguma coisa, silenciosamente, prefere permanecer humana.

Entre Alef e a Criança, entre a glória e a humildade, entre o poder e o amor, seguimos escrevendo aquilo que um dia deixaremos de nós.

Talvez a grande revelação não seja descobrir quem vencerá.

Talvez seja perceber que, enquanto vivermos, a escolha ainda estará em nossas mãos.

Poeta Hiran de Melo
Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita — Oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 13 de outubro do ano de dois mil e doze da revelação da Luz do Cristo.

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