Lições do Cotidiano – Capítulo 9

 

Sonhos, obrigações e deveres

 

O peregrino, ao encontrar o mestre, questiona-o: 'Como nunca desistir dos sonhos'? Lembrei-me de algo semelhante que li na orelha de um livro de um especialista em literatura de autoajuda.

 

Referia-se aos sonhos diurnos, aqueles que nascem como o vento em plena luz do dia. Sentimos sua presença, os sentimos como nossos, mas ignoramos sua origem.

 

“Nunca desista dos sonhos!" A frase ecoava em meus ouvidos, mas soava distante e irreal. Quais sonhos nutrir quando a vida se resume a um emaranhado de obrigações e deveres? Preso a essa teia, iludo-me em cumprir um destino traçado. Por obrigações entendo os fardos que a vida impõe, os quais não posso evitar. Deveres, por outro lado, são as expectativas sociais que pairam sobre mim, as quais posso escolher abraçar ou não, mesmo que a lei as exija.

 

Sempre ouvi dizer que sonho é sinônimo de liberdade. Mas, confesso, desconheço essa liberdade. Tudo o que sei sobre ela vem de relatos alheios: artistas, poetas, filósofos. Todos eles, criadores de mundos utópicos, onde a liberdade é a regra. 'Menino, estude para ser gente!', me diziam.

 

Estudei, mas continuo sem saber se me tornei essa tal de 'gente'. A vida me ensinou que a liberdade é um conceito abstrato, enquanto a realidade é feita de obrigações e deveres. Quantas vezes fui obrigado a decorar fórmulas e teorias, para depois esquecê-las por completo, sem jamais encontrar uma aplicação prática para elas.

 

Qual o número da placa do meu primeiro carro?

 

O número daquela placa, um enigma perdido no tempo. Um Fusca 1.6, comum entre tantos. Naquele tempo, era uma espécie de senha, um código para reencontrar meu companheiro de estrada. Mas a vida segue seu curso, e as coisas importantes mudam. Hoje, a placa é apenas um detalhe, um fragmento de um passado distante. Liberdade, talvez, seja isso: deixar para trás as pequenas obsessões e abrir espaço para novas memórias.

 

Dizem que, sem sonhos, as perdas pesam mais, os obstáculos se tornam intransponíveis e os fracassos, definitivos. Talvez seja verdade. Uma senhora sábia me disse outro dia: 'Só quando os que sonham se tornarem imortais, eu poderei sonhar.' Mas, afinal, quais perdas são suportáveis? Nenhuma, acredito. A dor é inerente à vida, e só a aceitamos com o tempo. Para isso, não precisamos de sonhos, apenas de tempo.

 

Sonho com meu pai no céu, buscando um conforto que a razão não me oferece. Como aceitar sua partida? As escolhas da vida nos levam a um labirinto de incertezas. O mestre, em sua sabedoria, me disse: 'A busca pela verdade é um caminho solitário, repleto de dúvidas. Mas é nesse vazio que encontramos a nós mesmos.' Suas palavras ecoam em meu interior, oferecendo um raio de esperança em meio à escuridão.

 

Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 17 dias de abril do ano 2011 da revelação do nome de Deus.

 

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