Lições
do Cotidiano
Sementes do Maracujazeiro
Por Hiran de Melo
Como de costume, estávamos voltados ao
Mestre, na espera de seus ensinamentos. Não havia ansiedade no ar. Não havia
pressa. Era tão bom ouvi-lo, tanto quanto contemplar aquele semblante pacífico
e pacificador. Além do mais, beber o silêncio é uma dádiva divina.
Depois de uma longa e, ao mesmo tempo,
instantânea pausa, alguém dentre nós falou: Como fazer para vencer a morte?
O Mestre, então, mandou distribuir a cada
um de nós um fruto do maracujazeiro. Recebemos um maracujá, recém retirado da
árvore, de pele lisa e de cor amarela. Belo, parecia pronto para o consumo, mas
não estava.
Em seguida, o Mestre fez distribuir, mais
uma vez, a cada um de nós, um fruto do maracujazeiro, bastante envelhecido. A
aparência, agora, já não era bela. Ao contrário, era plena de rugas. E assim,
podemos ver e experimentar que, na juventude, a pele era lisa e bela;
entretanto, no amadurecimento, não é mais para a pele que se deve olhar, mas
para a delícia da substância que envolve as sementes existentes no interior do
maracujá.
A casca lisa nos engana com sua promessa
de plenitude imediata — parece pronta, mas ainda não é. Já a casca enrugada,
que a um primeiro olhar julgaríamos decadência, esconde exatamente o que
buscávamos: a polpa em seu ponto certo, e mais do que ela, as sementes. Eis a
primeira lição silenciosa daquele entardecer: aprendemos cedo demais a temer as
rugas, quando são elas que anunciam que algo, finalmente, amadureceu o bastante
para ser entregue.
Aliás, também ali estava a resposta. A
morte não é para ser vencida. Ela é uma grande parceira da vida, sem ela não há
como novas manifestações desta se apresentarem.
Ficamos imaginando o que seria de nossa
existência se o envelhecimento um dia não tivesse fim. Sim, é possível que
implorássemos à senhora Morte que fizesse seu trabalho de parteira.
Parteira — não coveira. É esta a inversão
que o Mestre nos convidava a fazer, sem pronunciar uma só palavra além do gesto
de repartir dois frutos. Chamamos a morte de fim porque olhamos apenas para a
casca que se desfaz, e não para a semente que ela liberta. Se a velhice não
tivesse fim, não haveria parto algum — apenas um envelhecer infinito, uma casca
cada vez mais enrugada guardando para sempre o que deveria ter sido semeado. É
a própria morte, paradoxalmente, quem garante que a vida continue a nascer.
Por fim, todos nós compreendemos que, em
verdade, a vida nunca se vai, mas apenas se apresenta em novas formas. E para
tanto, é necessário que a antiga morra. Para descobrir a semente, é necessário
que a fruta morra; para que a árvore nasça, é preciso que a semente pereça.
Nada se perde — tudo se converte. A fruta
que se decompõe não desaparece: torna-se solo, depois seiva, depois árvore,
depois fruta outra vez. E se olharmos com atenção, perceberemos que essa cadeia
nunca foi interrompida, apenas disfarçada de fins sucessivos. A juventude bela
e a maturidade enrugada não são dois estados opostos, mas dois momentos do
mesmo gesto: o de amadurecer até doar-se por inteiro. A essência — a semente —
é a única coisa que atravessa intacta cada uma dessas mortes, porque nunca dependeu
da casca para existir.
Em um entardecer tão mágico, tomamos suco
de maracujá e voltamos para casa, felizes.
Felizes, talvez, porque naquela tarde
bebemos não apenas o suco, mas a certeza silenciosa de que nada do que amamos
jamais se perde de fato — apenas muda de casca, esperando a próxima primavera
para florescer outra vez.
Hiran de Melo — Mestre Instalado,
Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita, oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante,
vinte e um dias de outubro do ano de dois mil e treze da revelação do Sabor da
Vida.
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