Lições do Cotidiano

Reino dos Céus na Terra

Por Hiran de Melo

"A nós descei, divina luz! A nós descei, divina luz! Em nossas almas acendei o amor, o amor de Jesus!"

Era uma tropa de burros. Digamos: pouco numerosa. Ou melhor, de um burro só. E assim, nem fazia poeira. Nem tão pouco, barulho. Arrastava-se nas estradas do sertão como um raio de luz na brecha de uma porta. Nem mesmo destino certo tinha. "Vou para aonde o Pai me levar", parece ser o ditado mais apropriado a esta procissão vagante, que segue um burrinho que conduz uma Mãe com o seu Filho recém-nascido.

Há, nesta imagem, algo que ultrapassa a simples cena bíblica que evoca. O burro, a mãe, o filho — não são apenas personagens de uma narrativa sagrada específica, são figuras que atravessam culturas e tempos, arquétipos que dormem no fundo de cada consciência humana e despertam sempre que alguém, em qualquer sertão do mundo, se põe a caminhar sem destino certo, confiando apenas que o Pai conduz. O burro carrega a humildade de quem aceita servir sem pressa de chegar; a mãe e o filho recém-nascido são, em qualquer tradição, o princípio que cria e a esperança que acaba de nascer.

Os moribundos cantam uma ladainha, não sei se para afugentar os animais ferozes e famintos, ou para afugentar o próprio medo da morte. Quem sabe? – Nenhuma destas hipóteses, pois cantam porque gostam de cantar. Em verdade, nem procissão de moribundos ela é. Ao contrário, a aparência engana, é uma caravana de bem-aventurados. Pois segue a mansidão. E também oram, ou melhor, rezam, no dizer dos filhos da terra.

O engano da aparência é, talvez, a verdadeira lição desta procissão: o que parece cortejo fúnebre é, visto de perto, cortejo de bem-aventurados. Talvez seja este também o mecanismo silencioso pelo qual a fé alivia o peso do viver — não porque negue a dor do cotidiano, mas porque a transfigura, direcionando-a para algo maior do que ela mesma. Cantar não afugenta a morte nem a fera; cantar transforma quem canta.

Aprimoremos os nossos ouvidos, é possível escutá-los. Dentro de nós, é possível escutá-los. Ou pelo menos, falo por mim, eu os escuto desde pequeno. E os vejo, quando fecho os olhos. Caminham com os corações voltados para os Céus. Passam por cima das pedras sem se machucarem ou machucá-las. Até parece que as pedras são polidas, como os são os seixos nos rios. As águas os banham, mas não os ferem. O peregrino, em procissão, caminha voltado à fonte da vida. Assim, parece não sentir fome nem sede.

O sertão, aqui, não é cenário passivo — é personagem que testa e que também acolhe. Sua aridez espelha a alma que atravessa deserto antes de encontrar fonte; e é justamente por reconhecer nele um espelho que os peregrinos deixam de temê-lo. As pedras que poderiam ferir tornam-se seixos polidos; as águas que poderiam afogar tornam-se banho. Não é o sertão que muda — é o olhar de quem, voltado para os Céus, já não vê nele apenas obstáculo, mas caminho.

Meu avô materno era tropeiro. Subiu e desceu a vida inteira a serra da Borborema, trazendo e levando objetos de troca. Nisso, perdeu a saúde do pulmão, mas não perdeu o sorriso no rosto. Vivia recluso em um quartinho, no fundo do quintal, mas de nada reclamava. Torcia, devido à enfermidade nos pulmões, mas o fazia baixinho, para não incomodar a ninguém. Era tão pacífico que resolvi chamá-lo de Vida Boa. Ele sorriu agradecido.

É neste avô, mais do que em qualquer outra figura do texto, que a procissão distante se torna procissão de carne e sangue. Vida Boa é o peregrino real, aquele que subiu e desceu sua própria Borborema sem nunca abandonar o sorriso — sabedoria ancestral encarnada em um homem simples, que aceitou a finitude do corpo sem deixar que ela lhe roubasse a paz. Chamá-lo de Vida Boa não foi apenas apelido: foi reconhecimento de que a verdadeira riqueza de uma existência não se mede pelo que possui, mas pela mansidão com que se atravessa o que falta.

Vida Boa se vestia com roupas no final dos tempos. Então um dia, dei-me conta de que poderia modificar isso. Prometi-lhe uma camisa nova e fui trabalhar para isso. Mas não deu tempo. Ele partiu antes. Então, só me restou presenteá-lo com a camisa com a qual foi enterrado. Agora, o vejo na procissão, seguindo sorridente, vestido com uma camisa nova e alva, como no Reino dos Céus.

E assim se fecha o círculo: a promessa não cumprida em vida se cumpre na visão, a camisa que chegou tarde demais para o corpo chega a tempo certo para a alma. A morte, longe de interromper a procissão, é o que permite que Vida Boa finalmente a alcance — não como fim, mas como transição para um estado em que já não há pulmão doente, nem quartinho no fundo do quintal, apenas a caminhada mansa, de coração voltado para os Céus, vestido de branco, entre a Mãe e o Filho que sempre o esperaram.

Hiran de Melo — Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita, oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 15 dias de março do ano 2013 do anúncio da Presença do Nome entre nós.

 

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