Lições do Cotidiano – Capítulo 5

“A nós descei, divina luz! 
A nós descei, divina luz! 
Em nossas almas acendei 
O amor, o amor de Jesus!

 

Reino dos Céus na Terra

 

Era uma tropa de burros. Digamos: pouco numerosa. Ou melhor, de um burro só. E assim, nem fazia poeira. Nem tão pouco, barulho. Arrastava-se nas estradas do sertão como um raio de luz na brecha de uma porta. Nem mesmo destino certo tinha. “Vou para aonde o Pai me levar”, parece ser o ditado mais apropriado a esta procissão vagante, que segue um burrinho que conduz uma Mãe com o seu Filho recém-nascido.

 

Os moribundos cantam uma ladainha, não sei se para afugentar os animais ferozes e famintos, ou para afugentar o próprio medo da morte. Quem sabe? – Nenhuma destas hipóteses, pois cantam porque gostam de cantar. Em verdade, nem procissão de moribundos ela é. Ao contrário, a aparência engana, é uma caravana de bem-aventurados. Pois segue a mansidão. E também oram, ou melhor, rezam, no dizer dos filhos da terra.

 

Aprimoremos os nossos ouvidos, é possível escutá-los. Dentro de nós, é possível escutá-los. Ou pelo menos, falo por mim, eu os escuto desde pequeno. E os vejo, quando fecho os olhos. Caminham com os corações voltados para os Céus. Passam por cima das pedras sem se machucarem ou machucá-las. Até parece que as pedras são polidas, como os são os seixos nos rios. As águas os banham, mas não os ferem. O peregrino, em procissão, caminha voltado à fonte da vida. Assim, parece não sentir fome nem sede.


Meu avô materno era tropeiro. Subiu e desceu a vida inteira a serra da Borborema, trazendo e levando objetos de troca. Nisso, perdeu a saúde do pulmão, mas não perdeu o sorriso no rosto. Vivia recluso em um quartinho, no fundo do quintal, mas de nada reclamava. Torcia, devido à enfermidade nos pulmões, mas o fazia baixinho, para não incomodar a ninguém. Era tão pacífico que resolvi chamá-lo de Vida Boa. Ele sorriu agradecido.

 

Vida Boa se vestia com roupas no final dos tempos. Então um dia, dei-me conta de que poderia modificar isso. Prometi-lhe uma camisa nova e fui trabalhar para isso. Mas não deu tempo. Ele partiu antes. Então, só me restou presenteá-lo com a camisa com a qual foi enterrado. Agora, o vejo na procissão, seguindo sorridente, vestido com uma camisa nova e alva, como no Reino dos Céus.

 

Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 15 dias de março do ano 2013 do anúncio da Presença do Nome entre nós.

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