Lições do
Cotidiano
Quando os afetos se tornam
amigos
Por Hiran de Melo
Melquisedec fitou os olhos da bem-amada.
Tendo vencido todas as batalhas e conquistado o
coração da mais bela princesa da terra, tudo o que havia de bom e belo lhe era
oferecido: um lugar à mesa do palácio, o conforto dos dias tranquilos, uma vida
cercada de luxos e de certezas.
Contudo, seu olhar permanecia distante, perdido nas
planícies dos desertos que atravessara.
Porque foi ali, e não no palácio, que sua alma
aprendera a pronunciar o próprio nome.
Deixara-se ficar em silêncio. As razões que somente
o coração conhece haviam assumido o comando de sua vida.
Manso. Pacífico. Leve.
Nada mais lembrava o antigo guerreiro.
Diante dele, entretanto, outro final parecia
possível. Poderia montar num cavalo negro, como o mocinho que, ao final dos
antigos filmes do velho oeste, desaparece na linha do horizonte, e partir
novamente em busca de outras aventuras.
O cavalo estava ali.
Mas faltavam-lhe os afetos indomáveis.
E talvez não fosse falta.
Talvez fosse escolha.
Todo guerreiro carrega, sem saber, um amante
adormecido.
E todo amante carrega, sem saber, um guerreiro em
repouso.
Não são dois homens disputando o mesmo peito.
São um só homem aprendendo a respirar em dois
tempos.
Melquisedec havia se tornado íntimo demais de seus
antigos afetos. E, de tanto conhecê-los, acabou por domesticá-los.
Alguma coisa ainda batia dentro de seu peito, mas já
não pulsava como antes.
Os sentimentos haviam perdido o mistério.
Agora todos tinham nome.
Todos possuíam lugar.
Todos podiam ser reconhecidos, classificados,
catalogados e, finalmente, arquivados.
E talvez não exista abismo maior para um ser humano
do que este: tornar-se amigo dos próprios afetos.
Porque há afetos que nasceram para nos inquietar.
Há desejos que precisam permanecer indomáveis para
que não percamos a coragem de buscá-los.
Há amores que não pedem repouso, mas travessia.
Quando domesticamos tudo aquilo que um dia nos fez
estremecer, corremos o risco de transformar a própria existência numa casa
perfeitamente organizada, onde já não mora ninguém.
Velhos conselheiros, então, recomendaram-lhe que
escolhesse um novo fazer e se entregasse inteiramente a ele.
Que deixasse o trabalho possuí-lo.
Que encontrasse nele novos limites a ultrapassar,
novas montanhas a escalar, novas tarefas capazes de ocupar o espaço deixado
pelos antigos afetos.
Dessa maneira, diziam, seus sentimentos domesticados
poderiam tornar-se companheiros úteis.
E assim ele não precisaria mais avançar deserto
adentro para encontrar a própria alma.
Mas o deserto não se atravessa uma única vez.
Há desertos que retornam.
Há travessias que apenas fingem ter terminado.
Uma lágrima brotou do olho esquerdo de Melquisedec.
Sua bem-amada aproximou-se e a enxugou com os lábios
plenos de sorriso.
Ele deixou-se abraçar.
E abraçou-a com infinita ternura.
Assim permaneceram.
Por um instante.
Por uma vida.
Por uma eternidade.
Entretanto, o mar não permaneceu imóvel.
Veio crescendo, silenciosamente, até banhar os pés
dos dois.
Como sempre vêm as águas profundas quando julgamos
haver terminado a travessia.
O deserto ensina o homem a caminhar sozinho.
O mar, porém, lembra-lhe que ninguém termina de
conhecer a si mesmo sozinho.
Foi então que Melquisedec compreendeu.
A vida não havia terminado quando chegara ao
palácio.
O amor não era o prêmio recebido depois da batalha.
E a paz não significava a ausência de novos
caminhos.
Talvez o verdadeiro perigo não estivesse em perder
os afetos, mas em torná-los tão conhecidos que deixassem de nos surpreender.
Talvez fosse preciso voltar a sentir.
Voltar a desejar.
Voltar a não saber.
Acordado pelo movimento das ondas, Melquisedec
percebeu que um novo passo se tornara necessário.
Mas havia algo que agora compreendia com uma clareza
que nenhum deserto lhe ensinara:
o
próximo passo não poderia ser decidido sozinho.
Porque há momentos em que a alma precisa de solidão
para se encontrar.
Mas há outros em que precisa de alguém ao lado para
descobrir para onde ir.
E talvez seja essa a mais silenciosa das lições do
cotidiano:
quando
os afetos se tornam amigos, talvez seja chegada a hora de aprender novamente a
amá-los.
Hiran de Melo
Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa-Cruz e Noaquita
Oráculo de Melquisedec, nas
areias do Oceano Atlântico,
aos vinte e quatro dias de janeiro de dois mil e treze anos do nascimento do
Sol.
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