Lições do Cotidiano – Capítulo 6

Quando
os afetos se tornam amigos
Melquisedec
fitou os olhos da bem-amada. Tendo vencido todas as batalhas e conquistado o
coração da mais bela princesa da terra, tudo de bom e belo lhe era oferecido:
um lugar à mesa do palácio, uma vida repleta de luxos. Contudo, seu olhar
permanecia fixo, perdido nas planícies dos desertos que atravessara.
Deixara-se
ficar quieto; as razões que o coração conhece o comandavam. Manso, pacífico,
leve.... Nada lembrava o antigo guerreiro. Outro final se lhe apresentava:
poderia montar num cavalo preto, tal qual o mocinho no final de um filme do
velho oeste, e partir para novas aventuras. O cavalo ali estava, mas a ele
faltavam os afetos indomáveis.
Ficara
íntimo em demasia de seus antigos afetos, e assim os domesticara. No seu peito
algo batia, mas não mais pulsava. De modo que todos os sentimentos agora
atendiam por nomes. Aceitaram ser catalogados e arquivados. Não há abismo maior
para um ser do que estar amigo de seus antigos afetos.
Velhos
conselheiros lhe recomendaram que escolhesse um novo fazer e se entregasse a
ele. Deixasse ser possuído pelo
trabalho. Desta forma os afetos domesticados lhes seriam companheiros úteis.
Outros limites se apresentariam para serem ultrapassados. E assim, não
precisaria mais avançar deserto adentro para encontrar a sua alma.
Uma
lágrima brotou do seu olho esquerdo. Sua bem-amada enxugou-o com os lábios
plenos de sorriso. Deixou-se abraçar e abraçou-a com infinita ternura. E assim
ficaram por uma eternidade. Entretanto, o mar não ficou parado. Veio em
um crescente até banhar os seus pés. Acordado pelas ondas, Melquisedec
compreendeu que seria necessário dar
um novo passo. Mas, a direção deste novo passo ele não poderia decidir sozinho.
Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, nas areias do oceano atlântico, aos vinte e quatro dias de janeiro de dois mil e treze anos do nascimento do Sol.
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