Lições do Cotidiano – Capítulo 2

O fogo não queima a si mesmo

 

Um peregrino encontra-se com o mestre e lhe revela: Finalmente chegou o dia em que veio a mãe de todas as ondas. Em face de sua força colossal as casas de concreto se fizeram de papel. Vidas se foram, outras fugiram. Viu-se como nunca que do mar não só vinham alimento, poesia e bravura. Também vinham a morte e a destruição de sonhos realizados no cimento e no aço.

 

Vagando entre os escombros descubro-me sem casa e sem destino. Eu que sempre me enxerguei com um navegante a caminho, revelo-me um peregrino parado no tempo, embora em fuga na alma. Em verdade parece-me, hoje, que nunca fui um verdadeiro peregrino a caminho da fonte de luz, apenas mais um perdido na noite.

 

Meus referenciais se desmancham sem se opor ao sopro do vento. Muitos dos que eu imaginava que me amavam se foram e os poucos que ficaram estão de partida. Por força do hábito remo, de modo que o meu barco não se acha parado. E assim, o que faço hoje é pura imitação do que fiz ontem. Sou uma cópia borrada de mim mesmo.

 

Perdi o sorriso espontâneo e solto. Olho-me no espelho e me assusto com o que vejo. Um semblante de dor esmaga o meu coração. Do menino de outrora não restou nem as lembranças.

 

De tudo que perdi, o que mais perdi foi a esperança. Falta-me entusiasmo para reerguer o caído. Falta-me disposição para replantar o fruto proibido.

 

Olho para você e meus olhos vêem a alma que amei morta. E saindo das cinzas delas, vejo outra que me desconhece. E que não me diz respeito. Lanço minhas mãos na direção do poço em que ontem recolhia água viva e hoje só encontro um mar de ressentimentos. Não posso beber do líquido desse poço. Ele não sacia a sede e fere a alma do amante.

 

Subo a serra da Borborema e contemplo a entrada da cidade de Lagoa Seca. Nela encontra-se um pequeno santuário da Virgem dos Pobres. É domingo e é dia da Virgem. Os fieis subiram a serra por um lado e descerão pelo outro, para prestar pleito de gratidão e lançar novos pedidos. Os veículos estão parados. Lá embaixo não há como passar por dentro da multidão de crentes. Nem de bicicleta.

 

Eu ia para a cidade de Esperança, passando pela cidade de Lagoa Seca, pelo santuário da Virgem, e em seguida pela cidade de Lagoa de Roça, a do Cristo Redentor de concreto armado. Mas, não é mais possível. Volto-me na direção de onde vim e retorno ao ponto de partida sem nenhum sorriso nos lábios.

 

Ao que o mestre lhe respondeu: O dia em que voltarás a sorrir se avizinha do teu semblante. O fogo que queima a tua alma não mais a queimará neste dia. Pois ela se tornará fogo. E, o fogo não queima a si mesmo, mas ilumina a noite e a torna dia.

 

Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 11 de abril do ano 2011 da revelação do nome de Deus.

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