O Fogo Não Queima a Si Mesmo
Uma parábola para os que
carregam o avental gasto pelo tempo
Por Hiran
de Melo
Um velho maçom peregrino
encontra-se com o Mestre e lhe revela:
A
tempestade que nenhuma têmpera resistiu
"Finalmente chegou o
dia.
O
dia em que veio a tempestade que nenhuma têmpera resistiu.
Diante
de sua força colossal, as colunas que eu jurava eternas se fizeram de papel.
Vidas
se foram. Outras se afastaram do Templo. Outras ainda ficaram — mas já não são
as mesmas que um dia jurei reconhecer no escuro.
Vi,
como nunca havia visto, que da vida não vêm somente trabalho, fraternidade e
luz — vêm também a perda, e a ruína dos sonhos que um dia se acreditou seguros
porque erguidos em esquadro e compasso."
Os
escombros da oficina interior
E continuou o testemunho:
"Vagando
entre os escombros da própria oficina interior, descubro-me sem colunas e sem
destino.
Eu,
que sempre me enxerguei como obreiro a caminho do Oriente, revelo-me hoje um
velho peregrino parado no tempo — ainda que em fuga na alma.
Talvez,
na verdade, eu nunca tenha sido um verdadeiro obreiro rumo à Luz. Talvez tenha
sido, sempre, apenas mais um perdido na noite profana. Talvez a própria certeza
de estar a caminho já fosse, desde o início, a forma mais educada do meu
extravio."
A cópia
borrada do que fui
"Meus
referenciais se desmancham sem sequer opor resistência ao sopro do vento.
Muitos
irmãos que eu imaginava fiéis se foram. Os poucos que ficaram já estão de
partida.
Trabalho
por força do hábito, de modo que a obra não parece parada. Mas o que faço hoje
é pura imitação do que fiz ontem.
Sou
uma cópia borrada do aprendiz que fui."
O espelho
sem avental
E
com mais tristeza, como quem pede acolhida, aconchego, revela o mais profundo:
"Perdi
o sorriso espontâneo e solto.
Olho-me
no espelho — sem avental, sem insígnias — e me assusto com o que vejo: um
semblante de dor esmagando o coração.
Do
aprendiz de outrora não restaram sequer as lembranças.
De
tudo que perdi, o que mais perdi foi a esperança.
Falta-me
entusiasmo para reerguer o que caiu. Falta-me disposição para retomar o malho e
a talha."
A Loja
amada, a Loja morta
"Olho
para você, amada Loja, e meus olhos veem a alma que amei — morta.
E,
saindo das cinzas dela, vejo outra que não me conhece, e que já não me diz
respeito.
Lanço
as mãos na direção da coluna onde ontem recolhia água viva, e hoje só encontro
um mar de ressentimentos.
Desse
líquido eu não posso beber: ele não sacia a sede. Fere a alma de quem
ama."
A serra que
já não se atravessa
Então, revela mais das
suas andanças:
"Subo
a serra da Borborema e contemplo a entrada da cidade de Lagoa Seca. Ali fica
uma Loja antiga, quase esquecida. É noite de sessão magna. Os irmãos sobem a
serra de um lado e descerão pelo outro, para prestar contas do próprio trabalho
e lançar novos votos. Os veículos estão parados. Lá embaixo não há como
atravessar a coluna de irmãos rumo ao Templo — nem de bicicleta.
Eu
iria para a cidade de Esperança, passando por Lagoa Seca, pela Loja antiga, e
depois por Lagoa de Roça, até chegar à Loja destino, erguida em pedra. Mas não era
mais possível.
Voltei-me
na direção de onde vinha, e retorno ao ponto de partida sem nenhum sorriso nos
lábios."
O que
estava encoberto pela pressa
"Percebo,
então, algo que talvez sempre tenha estado ali, apenas encoberto pela pressa:
que buscar a Luz numa estrada, numa Loja, numa coluna de irmãos que sobe e
desce a mesma serra a cada sessão, é ainda buscar por fora aquilo que só se
encontra por dentro."
Ao
que o Mestre lhe respondeu:
O fogo que
não queima a si mesmo
"O
dia em que voltarás a sorrir se avizinha do teu semblante.
O
fogo que hoje queima a tua alma não mais a queimará neste dia — pois ela mesma
se tornará fogo.
E
o fogo não queima a si mesmo. Ele ilumina a noite. E a torna dia.
Foi
isso, meu irmão, que o Ancião ensinou aos obreiros: que a luz maçônica não é
recebida de fora, como quem recebe uma tocha emprestada — ela é acesa dentro do
homem, e continua ardendo ainda que toda estrutura ao redor tenha
desabado."
Água fora,
fogo dentro
E
retorna com profunda sinceridade:
"A
tempestade que te derrubou as colunas de papel é irmã do fogo que hoje te
consome por dentro: ambas vieram destruir o que parecia eterno, para lembrar-te
de que só é eterno aquilo que não se constrói com as mãos.
A
água apagou o que estava fora, no Templo de pedra. O fogo, agora, queima o que
ainda restava preso dentro, no templo do coração.
E
quando não houver mais nada a queimar, o que sobrar já não será dor.
Será Luz."
Sobe para
acender
"Volta à Loja, velho
peregrino.
Mas desta vez não subas
para pedir.
Sobe para acender."
Poeta Hiran
de Melo — Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e
Noaquita, oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 11 de abril do ano 2011
da revelação do nome de Deus.
O fogo não queima a si
mesmo - versão existencial
Por Hiran de Melo
Um
peregrino encontra-se com o mestre e lhe revela:
Finalmente
chegou o dia em que veio a mãe de todas as ondas. Diante de sua força colossal,
as casas de concreto se fizeram de papel. Vidas se foram. Outras fugiram. Vi,
como nunca havia visto, que do mar não vêm somente alimento, poesia e bravura —
vêm também a morte, e a destruição dos sonhos que um dia se acreditou seguros
porque erguidos em cimento e aço.
Vagando
entre os escombros, descubro-me sem casa e sem destino. Eu, que sempre me
enxerguei como navegante a caminho, revelo-me hoje um peregrino parado no tempo
— ainda que em fuga na alma. Talvez, na verdade, eu nunca tenha sido um
verdadeiro peregrino rumo à fonte de luz. Talvez tenha sido, sempre, apenas
mais um perdido na noite.
Meus
referenciais se desmancham sem sequer opor resistência ao sopro do vento.
Muitos dos que eu imaginava que me amavam se foram; os poucos que ficaram já
estão de partida. Remo por força do hábito, de modo que o barco não parece
parado. Mas o que faço hoje é pura imitação do que fiz ontem. Sou uma cópia
borrada de mim mesmo.
Perdi
o sorriso espontâneo e solto. Olho-me no espelho e me assusto com o que vejo:
um semblante de dor esmagando o coração. Do menino de outrora não restaram
sequer as lembranças.
De
tudo que perdi, o que mais perdi foi a esperança. Falta-me entusiasmo para
reerguer o que caiu. Falta-me disposição para replantar o fruto proibido.
Olho
para você e meus olhos veem a alma que amei — morta. E, saindo das cinzas dela,
vejo outra que não me conhece, e que já não me diz respeito. Lanço as mãos na
direção do poço onde ontem recolhia água viva, e hoje só encontro um mar de
ressentimentos. Desse líquido eu não posso beber: ele não sacia a sede, fere a
alma de quem ama.
Subo
a serra da Borborema e contemplo a entrada da cidade de Lagoa Seca. Ali há um
pequeno santuário da Virgem dos Pobres. É domingo, dia da Virgem. Os fiéis
sobem a serra de um lado e descerão pelo outro, para prestar gratidão e lançar
novos pedidos. Os veículos estão parados. Lá embaixo não há como atravessar a
multidão de crentes — nem de bicicleta.
Eu
ia para a cidade de Esperança, passando por Lagoa Seca, pelo santuário da
Virgem, e depois por Lagoa de Roça, a do Cristo Redentor de concreto armado.
Mas não é mais possível. Volto-me na direção de onde vim, e retorno ao ponto de
partida sem nenhum sorriso nos lábios.
Percebo,
então, algo que talvez sempre tenha estado ali, apenas encoberto pela pressa:
que buscar a fonte de luz numa estrada, num santuário, numa multidão que sobe e
desce a mesma serra todos os domingos, é ainda buscar por fora aquilo que só se
encontra por dentro.
Ao
que o mestre lhe respondeu:
O
dia em que voltarás a sorrir se avizinha do teu semblante. O fogo que hoje
queima a tua alma não mais a queimará neste dia — pois ela mesma se tornará
fogo. E o fogo não queima a si mesmo. Ele ilumina a noite e a torna dia.
A
onda que te derrubou as casas de concreto é irmã do fogo que hoje te consome
por dentro: ambos vieram destruir o que parecia eterno, para lembrar-te de que
só é eterno aquilo que não se constrói com as mãos. A água apagou o que estava
fora. O fogo, agora, queima o que ainda restava preso dentro. E quando não
houver mais nada a queimar, o que sobrar já não será dor. Será luz.
Volta
à serra, peregrino. Mas desta vez não subas para pedir. Sobe para acender.
Poeta Hiran de Melo — ao
Vale do Mirante, 11 de abril do ano 2011 da revelação do nome de Deus.
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