Lições do Cotidiano


A Hora da Partida

Por Hiran de Melo

Depois de tantas trocas de olhares, abraços, beijos, ternuras, carinhos e tudo aquilo de bom e belo que ainda pode ser trocado entre dois seres que se desejam, chega um dia em que nos detemos diante daquele que amamos e fazemos uma pergunta que, no início, parecia impossível:

É ela?

É ela aquela a quem tanto almejei?

É ela aquela que procurei entre tantos rostos?

É ela aquela que meu desejo imaginou antes mesmo que eu pudesse conhecê-la?

Talvez essa pergunta nunca surgisse se entre nós houvesse apenas encontros.

Mas o amor também é feito de desencontros.

E são justamente os desencontros que nos obrigam a olhar novamente para aquilo que julgávamos conhecer.

No começo, quase sempre amamos aquilo que vemos.

Mas, muitas vezes, vemos no outro aquilo que desejamos encontrar.

É o desejo que escolhe primeiro.

Ele chega antes do conhecimento.

Projeta sobre o outro aquilo que falta em nós e, silenciosamente, constrói uma imagem que passamos a chamar de pessoa amada.

Assim nascem os encantamentos.

Assim nascem as paixões.

No início, não enxergamos inteiramente o outro.

Enxergamos aquilo que desejamos que ele seja.

E o outro, muitas vezes, também procura corresponder àquilo que imaginamos.

Não há necessariamente mentira nisso.

Há apenas o modo misterioso como o desejo começa seus trabalhos.

É como se cada amante oferecesse ao outro um espelho onde ambos pudessem contemplar aquilo que gostariam de encontrar.

Por algum tempo, esse espelho basta.

Mas nenhum espelho consegue esconder para sempre aquilo que existe atrás dele.

O tempo passa.

Os dias se acumulam.

Os encontros começam a revelar os desencontros.

Os véus vão caindo.

O encanto se desfaz.

E então acontece aquilo que talvez seja a mais verdadeira experiência do amor:

começamos finalmente a conhecer quem está diante de nós.

Ela é assim.

Eu sou assim.

E agora?

Somos capazes de nos aceitar?

Não como gostaríamos de ser.

Não como um dia imaginamos que seríamos.

Mas como realmente somos.

Essa talvez seja a primeira grande prova de qualquer relacionamento.

Porque amar alguém enquanto essa pessoa corresponde à nossa fantasia é uma experiência de encantamento.

Amar alguém depois que conhecemos suas limitações, suas contradições, seus medos e suas imperfeições é uma experiência de escolha.

E o amor, quando amadurece, deixa de ser apenas aquilo que sentimos.

Passa a ser também aquilo que decidimos fazer com o que sentimos.

Por isso, depois que os véus caem, surgem perguntas ainda mais difíceis.

Nossos valores caminham na mesma direção?

Nossos sonhos ainda podem habitar o mesmo horizonte?

Nossos objetivos de vida se encontram?

Somos capazes de crescer juntos?

Ou estamos apenas tentando impedir que o outro cresça para que a relação permaneça igual?

E quando as respostas não são aquelas que desejávamos ouvir, chegamos à encruzilhada.

É hora de encerrar?

Devemos partir em busca de um novo encantamento?

Esperar que outra pessoa reacenda em nós a mesma projeção do desejo?

Ou seria possível recomeçar a relação a partir de um conhecimento mais profundo?

Talvez essa seja uma das maiores confusões dos amantes.

Muitos não abandonam uma relação porque deixaram de amar.

Abandonam porque o encantamento terminou.

E, ao encontrar outra pessoa, acreditam ter encontrado um novo amor, quando encontraram apenas uma nova tela para projetar os mesmos desejos.

Mudam o rosto.

Mudam a história.

Mudam o corpo.

Mas levam consigo a mesma fantasia.

Por isso, talvez seja preciso aprender a não escolher alguém apenas porque desperta em nós uma paixão imediata.

É preciso conhecer.

Conversar.

Observar.

Conviver.

Descobrir quem é aquela pessoa quando não está tentando nos conquistar.

E, principalmente, descobrir quem somos nós quando já não estamos tentando conquistá-la.

Talvez por isso a amizade seja tão importante.

Amigos não precisam sustentar permanentemente o encantamento.

Podem simplesmente existir diante de nós.

Com suas virtudes.

Com seus defeitos.

Com seus silêncios.

Com suas diferenças.

Ampliar o círculo de amizades pode ser também uma forma de ampliar as possibilidades do amor.

Não porque devamos transformar cada amizade em uma possibilidade amorosa.

Mas porque, quanto mais profundamente conhecemos as pessoas, maiores são as chances de reconhecer aquela com quem poderemos construir um caminho comum.

O amor duradouro talvez não seja aquele que encontramos pronto.

Talvez seja aquele que construímos depois de descobrir que o outro não é aquilo que imaginamos.

É nesse momento que a escolha se torna verdadeira.

Antes, havia o encantamento.

Agora, existe a liberdade.

Antes, havia a projeção.

Agora, existe o conhecimento.

Antes, havia o desejo de possuir o outro.

Agora, pode nascer o desejo de caminhar com ele.

Mas há ainda um critério.

Talvez o mais importante.

É preciso observar o que acontece com a nossa paixão pela vida.

E com a nossa paixão pelo outro.

Porque um relacionamento pode continuar existindo mesmo depois que o amor deixou de crescer.

Pode haver companhia sem encontro.

Pode haver proximidade sem intimidade.

Pode haver fidelidade sem desejo.

Pode haver carinho sem encantamento.

Pode haver amizade onde antes existia amor.

E talvez não exista nada de errado nisso.

Os afetos mudam de nome.

Mudam de lugar.

Mudam de intensidade.

Mas há algo que precisamos observar:

a vida ainda cresce dentro dessa relação?

O outro ainda desperta em nós curiosidade?

Ainda queremos conhecê-lo?

Ainda desejamos descobrir seus novos caminhos?

Ainda sentimos vontade de dividir com ele aquilo que a vida nos oferece?

Ainda existe tesão pela vida?

Ainda existe tesão pelo outro?

Não falo apenas do desejo dos corpos.

Falo de algo maior.

Daquela força silenciosa que nos faz olhar para alguém e pensar:

quero continuar descobrindo você.

Quero conhecer quem você está se tornando.

Quero descobrir quem eu me torno quando estou ao seu lado.

Quero que a nossa presença no mundo faça a vida de ambos crescer.

Talvez esse seja um dos sinais mais profundos de um amor vivo.

Porque o amor não precisa permanecer eternamente em estado de paixão.

Mas precisa continuar produzindo vida.

Precisa gerar movimento.

Precisa ampliar o mundo.

Precisa fazer com que os dois sejam mais do que eram antes de se encontrarem.

Quando isso acontece, talvez seja hora de permanecer.

Mas, se o desejo pela vida começa a diminuir.

Se o outro deixa de despertar qualquer curiosidade.

Se a presença se torna apenas hábito.

Se os sonhos já não encontram lugar comum.

Se permanecemos apenas por medo de partir.

Então talvez seja preciso escutar aquilo que o coração, há muito tempo, tenta dizer em silêncio.

Talvez seja hora de seguir em frente.

A partida, nesse caso, não precisa ser uma derrota.

Pode ser um ato de respeito.

Respeito por si.

Respeito pelo outro.

Respeito pela história que um dia foi verdadeira.

Porque há histórias que não precisam ser eternas para terem sido importantes.

Há amores que cumprem sua missão e, depois, pedem passagem.

Há pessoas que chegam para nos ensinar a amar.

Outras chegam para nos ensinar a partir.

E talvez a sabedoria esteja justamente em não transformar a partida em fracasso.

Nem transformar a permanência em virtude.

Às vezes, é preciso ficar.

Às vezes, é preciso partir.

O que não devemos é permanecer onde já não existe vida apenas porque temos medo do desconhecido.

E também não devemos partir apenas porque o encantamento inicial terminou.

Entre ficar e partir existe uma palavra esquecida:

discernimento.

É ele que nos permite distinguir o fim da paixão do fim do amor.

É ele que nos ajuda a perceber quando os afetos se tornaram amigos e quando ainda existe, entre eles, uma força capaz de reinventar o desejo.

Porque talvez o verdadeiro amor não seja aquele que nunca perde o encanto.

Talvez seja aquele que, depois que o encanto se desfaz, ainda encontra razões para nascer novamente.

E quando isso não acontece?

Quando a relação deixa de alimentar a vida?

Quando o desejo não se transforma, mas simplesmente desaparece?

Quando a presença do outro já não nos convida a crescer?

Então talvez seja chegada a hora da partida.

Não como quem foge.

Mas como quem reconhece.

Não como quem abandona.

Mas como quem agradece.

Não como quem nega o que viveu.

Mas como quem aceita que algumas histórias possuem um tempo próprio.

Depois de muitas trocas de olhares, abraços, beijos, ternuras e carinhos, talvez a pergunta mais importante não seja mais:

É ela?

Talvez seja:

Quem somos nós quando estamos juntos?

Somos mais vivos?

Mais livres?

Mais inteiros?

Mais capazes de amar?

Se a resposta for sim, talvez ainda haja caminho.

Se a resposta for não, talvez seja preciso coragem para partir.

Porque o amor, quando verdadeiro, não deveria nos diminuir.

Deveria nos fazer crescer.

E talvez essa seja a mais silenciosa das lições do cotidiano:

não escolhemos alguém apenas para que nos ame.

Escolhemos alguém com quem possamos aprender a amar melhor.

E, quando esse amor deixa de fazer a vida crescer, talvez a partida seja apenas a última forma de agradecer pelo caminho percorrido.

Poeta Hiran de Melo
Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa-Cruz e Noaquita

Oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante,
aos dezenove dias de novembro do ano de 2013,
da revelação da Luz que é o Amor.

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