A Imensidão


O Caminho e a Cruz

Por Hiran de Melo

"A vida não nos conduz à morte. Ela nos ensina, silenciosamente, a morrer para que possamos aprender a viver."

Demorei muitos anos para compreender que caminhar não é apenas deslocar o corpo. É permitir que a alma acompanhe os próprios passos.

Durante muito tempo caminhei olhando apenas para o horizonte. Havia sempre um lugar onde eu imaginava que a paz me esperava. Um porto. Um oásis. Um instante definitivo em que todas as perguntas cessariam.

A juventude nos convence de que a felicidade mora sempre um pouco adiante.

Mais tarde, porém, o caminho começou a me ensinar outra lição.

Talvez o oásis nunca tenha estado no fim da estrada. Talvez ele sempre tenha florescido sob os pés daqueles que aprendem a caminhar sem tanta pressa.

Há uma diferença profunda entre percorrer um caminho e habitar o caminho.

Foi então que descobri outra companhia inseparável.

A cruz.

Durante muito tempo imaginei que ela fosse um acidente da existência, um peso distribuído de maneira desigual entre os homens. Hoje suspeito que não.

Cada ser humano recebe a sua.

Não como castigo.

Mas como linguagem.

A cruz é a forma pela qual a vida nos ensina aquilo que jamais aceitaríamos aprender espontaneamente.

Ela nos obriga a abandonar as ilusões, desmonta nossas certezas e devolve humildade ao coração.

Ao lado dela caminha outra presença, frequentemente rejeitada.

A irmã morte.

Não aquela que chega no último suspiro.

Essa é apenas a última visita.

A morte verdadeira nos acompanha desde o primeiro choro.

Ela habita cada transformação.

Morre a infância para nascer a adolescência.

Morre o adolescente para surgir o jovem.

Morre o jovem para que o adulto encontre o seu lugar.

Depois morre o adulto cheio de certezas, para que o velho descubra que sabedoria não consiste em possuir respostas, mas em aprender a fazer melhores perguntas.

Vivemos porque morremos.

E morremos para continuar vivendo.

Toda existência é construída sobre pequenas despedidas.

O sofrimento nasce quando tentamos impedir aquilo que a própria vida pede para deixar partir.

Apegamo-nos às versões antigas de nós mesmos como quem tenta conservar folhas secas acreditando que ainda pertencem à árvore.

Mas nenhuma árvore floresce sem antes aceitar perder suas folhas.

A morte nos assusta por isso mesmo.

Ela não ameaça apenas o corpo.

Ela ameaça tudo aquilo que insistimos em chamar de “eu”.

Cada perda dissolve um pouco da identidade que construímos.

Cada renúncia abre espaço para alguém que ainda não conhecemos.

É bem aí que mora o mistério da cruz.

Carregá-la não significa amar o sofrimento.

Ninguém precisa romantizar a dor.

A cruz não é um elogio ao padecimento.

Ela é a travessia inevitável entre aquilo que fomos e aquilo que ainda podemos nos tornar.

Não existe ressurreição sem alguma forma de sepultamento.

Não existe primavera que dispense o inverno.

Não existe amor maduro sem que antes morra o orgulho.

Talvez seja essa a sabedoria escondida na espiritualidade de Francisco de Assis, que chamava a morte de irmã.

Não por desejar morrer.

Mas porque compreendia que somente quem deixa morrer o ego consegue nascer para uma existência reconciliada com toda a criação.

A irmã morte não nos rouba a vida.

Ela impede que permaneçamos prisioneiros dela.

Cada pequena morte é um convite para uma liberdade maior.

Cada cruz aceita com dignidade transforma-se, pouco a pouco, em ponte.

E então compreendemos algo surpreendente.

O caminho nunca nos conduzia a um lugar.

Ele nos conduzia a nós mesmos.

O oásis não esperava depois da última curva.

Ele sempre esteve escondido na serenidade daquele que aprende a caminhar.

É por isso que ninguém chega verdadeiramente.

Todos atravessam.

E talvez viver seja exatamente isto:

aceitar o caminho como bênção,

receber a cruz como mestra,

cumprimentar a irmã morte sem medo,

e seguir adiante, descobrindo que Deus nunca esteve apenas no destino.

Sempre caminhou ao nosso lado.



A Imensidão - O caminho e a cruz

 El camino y la cruz

Por Hiran de Melo

“Morremos não porque alguém nos pode matar, mas porque a vida mesma hospeda a morte em sua estrutura”. Leonardo Boff


“Morimos no porque alguien nos pueda matar, sino porque la vida misma hospeda la muerte en su estructura". Leonardo Boff

Caminhar atento ao caminho é hábito recente, mas que sempre esteve presente na minha natureza. No início eu caminhava devagar, depois a urgência se fez presente. Era necessário chegar rapidamente ao oásis. Hoje levo a dúvida se o oásis não esteja ou mesmo seja o próprio caminho. 

Estar atento al camino es costumbre reciente, además que siempre estuvo presente en mi naturaleza. Al inicio yo caminaba lentamente, después la urgencia se hizo presente. Era necesario llegar rápidamente al oasis. Hoy llevo la duda si el oasis no esté o sea el propio camino. 

Além desta dúvida levo a certeza de que carrego uma cruz e de braços dado com a vida, a morte. A morte não como fim comum a todos os seres vivo, mas sim, como um elemento contido na própria vida. A cada instante, a cada passo, morremos e renascemos. Morre a criança, nasce o adolescente; morre o adolescente, nasce o jovem; morre o jovem nasce o homem adulto... 

Más allá de esta duda, tengo la certeza de que cargo una cruz con brazos dados a la vida, a la muerte. La muerte no como fin común a todos los seres vivos, pero sí, como un elemento contenido en la vida misma. A cada instante, a cada paso, morimos y renacemos. Muere el niño, nace el adolescente, muere el adolescente, nace el joven, muere el joven, nace el hombre adulto... 

Neste sentido poucos se perguntam por que morremos. E nem mesmo isto é visto com uma cadeia de mortes e vidas. Muitos veem o passado como a vida, o futuro como o vir a ser, o presente como fronteira de difícil percepção. E assim, a morte só se faz visível no fim da vida. Todavia, é mais provável que a morte se instale mesmo no coração da vida e assim vamos morrendo continuamente. 

En este sentido pocos se preguntan por qué morimos. Y ni esto mismo es visto como una cadena de muertes y vidas. Muchos ven el pasado como la vida, el futuro como lo que vendrá a ser, el presente como frontera de difícil percepción. Y así, es más provable que la muerte se instale en el corazón de la vida y así vamos muriendo continuamente. 

É comum olhamos para a morte como uma tragédia. Um momento de partida, de grande dor. Todavia, apesar deste olhar, outro significado vem se apresentado como mais consistência. A morte como possibilidade de uma nova vida. Até mesmo esta última no qual o sopro da vida, o hálito do ser, se ausenta. 

Es común mirar a la muerte como una tragedia. Un momento de partida de gran dolor. Aún, a pesar de este mirar, otro significado viene a presentarse con más consistencia. La muerte como posibilidad de una nueva vida. Aún cuando esta última en la cual el soplo de vida, el hálito del ser, se ausenta. 

É possível enxergar a morte como a passagem para a vida eterna, a ressurreição. A libertação definitiva da cadeia de mortes e vidas. O religar-se com a árvore da vida, o perdão pela opção original pela árvore do conhecimento. 

Es posible ver la muerte como el paso a la vida eterna, la resurrección. La liberación definitiva de la cadena de muertes y vidas. El unirse con el árbol de la vida, al perdón por la opción original por el árbol del conocimiento. 

Esta visão pode ser apurada se a cada passo, a cada morte, não nos apegarmos ao que se deixa para trás. A condição é encontrada na abertura cortês - tal como o modelo de hospitaleiro cortês reapresentado por Francisco – ao que se apresenta diante de nós. Assim, morrer não representa perder a vida, mas renascer para uma vida mais plena de amor. 

Esta visión puede ser apresurada si a cada paso, a cada muerte, no nos apegamos a lo que se deja atrás. La condición es encontrada en la apertura cortés - tal como el modelo hospitalario cortés representado por Francisco - de lo que se presenta delante de nosotros. Así morir no representa perder la vida, sino renacer a una vida más plena de amor.

A cada passo sentir a vida como uma benção, um caminho. Aceitar o caminho, mesmo que ele se apresente como uma cruz. Erguesse e levar a cruz, é o símbolo de aceitar as adversidades encontradas como condição de superá-las.

A cada paso sentir la vida como una bendición, un camino. Aceptar el camino, aún cuando él se presente como una cruz. Erguirse y llevar la cruz, es el símbolo de aceptar las adversidades encontradas como condición de superarlas. 

Condução da cruz não como um gostar do sofrimento, mas como condição de superá-lo. Contemplar a morte como uma irmãzinha presente em cada momento em que se usufrui do sopro da vida e sorrir para ela. 

Conducir la cruz, no como un gusto al sufrimiento, sino como condición a superarlo. Contemplar la muerte como una hermanita presente en cada momento en se disfrute del soplo de vida y sonreir hacia ella. 

Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, 6 de julho de 2010 da Revelação do Cristo.

Traducción libre al español: María Consuelo

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