A Imensidão

Na hora da última despedida

Por Hiran de Melo

Diante de um caixão que guarda um corpo morto, um pastor chama as suas ovelhas. Um coral ecoa o chamado. Fiéis choram — por motivos conhecidos, e por tantos outros que nem eles mesmos sabem nomear. Uma amada amiga morreu. É a hora da última despedida.

A morte de uma amiga é sempre o anúncio de outras mortes por vir. É o sinal de que uma geração inteira começa a se despedir de si mesma. E ali, nos bancos da igreja, dois testemunhos se cruzam sem se tocar: o de tanta esperança proclamada na vida que continua depois da morte — e o de tanta certeza silenciosa de que talvez não continue nada.

Se a fé fosse inteira, a solenidade seria só isso: um encontro de gente feliz, celebrando a páscoa da bem-amada rumo à vida eterna. Mas o que se faz presente, teimoso, é outra coisa. O apego à vida terrena. O apego à companhia que agora falta. O corpo morto está ali, na urna, como referência. Mas a lembrança que o coração insiste em guardar não é a do corpo parado. É a dos encontros repletos de vida.

É comum que o amor por quem partiu se manifeste numa lágrima que desce pelo rosto. Ou mais de uma. Nesses dias, os olhos se transformam em fontes de água viva. É difícil fazer diferente. Há um aperto no peito que não deixa a alma sorrir.

É um momento em que todos pedem misericórdia — pelos que se foram, e pelos que ficaram. Ainda não é hora de agradecer feliz pela graça de uma acolhida no paraíso. É hora, apenas, de perguntar.

Serei digno de ser recebido pelo Pai?

Santa Mãe Maria! Rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amém!

Talvez a resposta não esteja em nenhuma doutrina, mas na própria pergunta — porque só quem ama teme perder, e só quem teme perder aprendeu, de verdade, a amar. O caixão guarda um corpo. Mas o que ele revela, a cada despedida, é o tamanho exato do vínculo que a morte tentou apagar e não conseguiu. A fé promete o paraíso depois. O amor já é, aqui e agora, a única imensidão que a morte não alcança.

 

A Imensidão - Na hora da última despedida

En la hora de la última despedida

Por Hiran de Melo

 Em face de um caixão que guarda um corpo morto; um pastor clama as suas ovelhas; um coral ecoa o chamado; fiéis choram por motivos conhecidos e por tantos outros ocultos. Uma amada amiga morreu; é a hora da última despedida.

 En cara de un ataúd que guarda un cuerpo muerto, un pastor clama a sus ovejas, una coral repite el llamado, fieles lloran por motivos conocidos y por tantos otros ocultos. Una amada amiga murió, es la hora de la última despedida.

 A morte de uma amiga que anuncia a proximidade da morte de outros amigos e de outras amigas. De uma geração que se finda. É forte o testemunho de tanta esperança na vida pós-morte e tanta demonstração de falta de fé nesta possibilidade.

 La muerte de una amiga que anuncia la proximidad de la muerte de otros amigos y de otras amigas. De una generación que termina. Es fuerte el testimonio de tanta esperanza en la vida post-mortem y tanta demostración de falta de fe en esta posibilidad.

 A existência de fé faria da solenidade um encontro de pessoas felizes com a páscoa da bem-amada para a vida eterna. Mas o que se faz presente é o apego à vida terrena, o apego à companhia da amiga que faz ausente. O corpo morto é referenciado. Mas, a lembrança que se quer guardar é dos encontros repletos de vida.

 La existencia de fe haría de la solemnidad un encuentro de personas felices con la pascua de la bien amada para la vida eterna. Pero lo que se hace presente es el apego a la vida terrena, el apego a la compañía de la amiga que se hace ausente. El cuerpo muerto es referencia. Pero el recuerdo que se desea guardar es de los encuentros repletos de vida.

 É comum manifesta-se o amor que se sente pelo que partiu através de uma lágrima que rola no rosto. Ou de mais de uma. Nesta época os olhos se transformam em fontes de água viva. É muito difícil fazer diferente. Além do mais existe um aperto no coração que impossibilita um sorriso da alma.

 Es común manifestar el amor que se siente por el que partió a través de una lágrima que rueda por el rostro. O más de una. En ese momento los ojos se transforman en fuentes de agua viva. Es muy difícil hacer de manera diferente. Además existe una aprieto en el corazón que imposibilita una sonrisa del alma.

 Este é um momento que todos pedem misericórdia pelos que se foram e pelos que ficaram. Ainda não é o momento do agradecer feliz pela graça da acolhida no paraíso dos céus.

 Este es un momento que todos piden misericordia por los que se fueron y por los que quedaron. Aún no es el momento de agradecer feliz por la gracia a la acogida en el paraíso de los cielos.

 Este é o momento em que se pergunta: serei digno de ser recebido pelo Pai?

 Este es el momento en que se pregunta: seré digno de ser recibido por el Padre?

 - Santa Mãe Maria! Rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Amem!

 - Santa María Madre! Ruega por nosotros pecadores, ahora y en la hora de nuestra muerte. Amén!

 Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, 11 de fevereiro de 2010 da Revelação do Cristo.

 Traducción libre al español: María Consuelo

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