A Imensidão

A Montanha Encantada

Quem sobe para possuir, desce para descobrir quem é.

Por Hiran de Melo

Existe uma montanha que todos nós, cedo ou tarde, somos chamados a subir.

Ela não aparece nos mapas. Não pertence a nenhum país. Não tem nome gravado em pedra. Ainda assim, cada ser humano a reconhece quando chega a hora. É a montanha da existência.

Quase todos partem jovens. Levam consigo apenas uma carroça vazia e a força dos próprios músculos. Não sabem exatamente o que procuram. Sabem apenas que precisam caminhar.

E a montanha, silenciosa, começa a oferecer presentes.

Primeiro vem uma pequena pedra preciosa: o reconhecimento. Depois outra: o conhecimento. Mais adiante surgem o dinheiro, a profissão, o prestígio, os afetos, os títulos, as vitórias, os sonhos realizados. A cada curva aparece um novo brilho, e é quase impossível resistir à tentação de recolhê-lo.

A carroça vai ficando pesada.

O viajante também.

Talvez esse seja o primeiro encantamento da montanha: fazer-nos acreditar que a vida consiste em acumular aquilo que encontramos pelo caminho.

Durante muito tempo essa ilusão parece verdadeira.

Então chega o cume.

Quando finalmente alcança o ponto mais alto, o viajante já não é o menino que iniciou a subida. O tempo esculpiu seu rosto com uma delicadeza que só os anos conhecem. As mãos carregam marcas invisíveis, e o coração aprendeu que toda conquista possui um preço que não aparece nas vitrines do mundo.

É então que descobre aquilo que ninguém lhe contou na partida.

Não existe caminho de volta.

A vida nunca retorna pelas pegadas que deixou. Ela segue sempre adiante.

É preciso descer.

Mas a descida acontece pelo lado do poente, onde a luz não anuncia começos, e sim despedidas.

Ali a montanha revela seu verdadeiro segredo.

A mesma montanha que durante toda a subida parecia oferecer riquezas começa, serenamente, a pedi-las de volta.

Não por crueldade.

Por sabedoria.

Uma pedra após outra.

Um tesouro após outro.

Primeiro devolvemos aquilo que julgávamos indispensável. Depois aquilo que acreditávamos eterno. Em seguida, devolvemos até mesmo certas imagens que construímos de nós mesmos.

E, pouco a pouco, percebemos uma verdade que a juventude dificilmente consegue compreender.

Não somos aquilo que carregamos.

Jamais fomos.

As pedras nunca pertenceram ao viajante.

Foram apenas empréstimos da própria estrada.

A cada renúncia, a carroça se torna mais leve.

Curiosamente, é nesse momento que o caminhante também se torna mais inteiro.

Porque há perdas que não diminuem.

Revelam.

Há desprendimentos que não empobrecem.

Libertam.

No fim da descida, quase nada permanece sobre a carroça.

Mas algo extraordinário aconteceu.

Pela primeira vez, ela transporta apenas aquilo que nenhuma montanha pode tomar: a consciência de quem realmente a conduz.

Conta-se que muitos fizeram essa travessia antes de nós.

Existem relatos das partidas.

Há fotografias dos rostos jovens, discursos de entusiasmo, promessas de conquistas, poemas celebrando o início da jornada.

Mas não existem testemunhos do retorno.

Da Montanha Encantada ninguém volta para contar como foi.

Não porque tenham desaparecido.

Mas porque quem alcança o outro lado já não fala a linguagem de quem ainda está subindo.

Enquanto isso, no sopé da montanha, permanecem aqueles que nunca partiram.

Alguns observam.

Outros imaginam.

E há os poetas.

São eles que recolhem fragmentos das antigas travessias e os transformam em histórias. Não para explicar a montanha — pois ela não cabe nas palavras —, mas para manter acesa a coragem daqueles que ainda partirão.

Nas noites de lua cheia, essas histórias atravessam gerações.

Os jovens as escutam com os olhos brilhando.

Na manhã seguinte, colocam as mãos sobre uma carroça vazia e iniciam a subida, convencidos de que sua caminhada será diferente de todas as anteriores.

E talvez seja.

Porque nenhuma montanha se repete.

Embora ensine sempre a mesma lição.

A Montanha Encantada nunca existiu para enriquecer seus viajantes.

Ela existe para realizar uma alquimia silenciosa.

Transformar o peso das posses na leveza da consciência.

Fazer com que cada ser humano descubra, ao final da longa travessia, que a maior riqueza jamais esteve nas pedras recolhidas durante a subida, mas na pessoa que nasceu enquanto aprendia, lentamente, a deixá-las para trás.


A Imensidão - A montanha encantada

Por Hiran de Melo

La montaña encantada

Ele iniciou a sua jornada rumo à conquista da montanha encantada. Levava consigo uma carroça cuja força de tração era os seus músculos. Na medida em que subia a montanha foi encontrando pedras preciosas e se apropriando delas. Estava ficando rico. Cada vez mais rico.

 El inició su viaje rumbo a la conquista de la montaña encantada. Llevaba consigo una carroza cuya fuerza de tracción eran sus músculos. En la medida en que subía la montaña fue encontrando piedras preciosas y apropiándose de ellas. Estaba haciéndose rico. Cada vez más rico.

 Um dia chegou ao topo da montanha encantada. Era um homem já maduro, ele que partira quase que um menino. Agora era hora de voltar, mas não era possível descer pelo caminho que partira. Tinha que continuar em frente, descer pelo outro lado da montanha, pelo poente.

 Un día llegó a la cima de la montaña encantada. Era un hombre ya maduro, el que partió casi que un niño. Ahora era el momento de regresar, pero no era posible descender por el camino que partió. Tenía que continuar adelante, descender por el otro lado de la montaña, por el poniente.

 A carroça que no inicio da jornada era leve, agora era bastante pesada. Fazia-se necessário devolver a montanha algumas das pedras preciosas que ele havia recolhido. Foi caminhando ladeira abaixo e deixando cada vez mais os tesouros recolhidos...

 La carroza que al comienzo de la jornada era ligera, ahora estaba bastante pesada. Se hacía necesario devolver a la montaña algunas de las piedras preciosas que había recogido. Fue caminando colina abajo y dejando cada vez más los tesoros recogidos...

 Ele não foi o único. Conta-se que muitos e muitos outros seguiram este caminho. Existem testemunhos da partida. Mas inexistem testemunhos da volta. Da montanha encantada ninguém voltou.

 El no era el único. Se cuenta que muchos y muchos otros siguieron este camino. Existen testimonios de la partida. Pero no existen testimonios del regreso. De la montaña encantada nadie regresó.

 Dentre os que nunca partiram existem poetas que cantam as sagas dos conquistadores. Inventam-se belas histórias que embalam as noites de lua cheia. Novos jovens as escutam e partem no nascer do novo dia. A montanha encantada os aguarda.

 Entre los que nunca partieron existen poetas que cantan la saga de los conquistadores. Se inventan bellas historias que embalan las noches de luna llena. Nuevos jóvenes las escuchan y parten al nacer del nuevo día. La montaña encantada los aguarda.

 Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, 10 de fevereiro de 2010 da Revelação do Cristo.

 Traducción libre al español: Ma. Consuelo Alvarez

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