A vida
Boa – Capítulo 4
Tolerância
Maçônica
Fui
solicitado a me pronunciar, em uma reunião de maçons, sobre tolerância. Não
sobre uma tolerância qualquer, genérica, mas falar sobre a tolerância maçônica.
Neste caso, não é uma questão de consultar dicionários e fazer comentários, vai
mais além. Embora, na quarta acepção do termo no Aurélio, poderemos observar
uma definição que é bem próxima do conceito maçônico: "tendência a admitir
modos de pensar, de agir e de sentir que diferem dos de um indivíduo ou de
grupos determinados, políticos ou religiosos".
A
maçonaria simbólica foi construída como um espaço aberto ao diálogo das
interpretações dos símbolos. Há um convite à livre interpretação. Um convite ao
exercício da liberdade de imaginar e de expressar o pensamento de cada maçom,
que é naturalmente embargado em um contexto histórico, cultural e familiar do
mesmo. Embora no catecismo maçônico, presente em alguns manuais de aprendiz
maçom, estejam presentes as interpretações oficiais da organização maçônica que
os adotam.
Fico,
muitas vezes, perplexo e encantado com as interpretações que escuto, por
exemplo, do símbolo maçônico três pontos equidistantes. Um livro de mil páginas
seria insuficiente para caber tantas interpretações. Mesmo que se fizesse uso
de uma fonte de letras com tamanho mínimo.
O
Venerável Mestre da loja escuta todas as interpretações de um símbolo maçônico,
não censura nenhuma e no final da escuta, apresenta a interpretação oficial da
Ordem, quando existe e é do seu conhecimento. Nesta atitude, se manifesta a
tolerância maçônica: ouvir e orientar quando se fizer necessário.
As
organizações maçônicas em geral, defendem a existência de um princípio criador
e a imortalidade da alma. Mas, nada além disso no campo religioso.
Entretanto, não veta nos seus quadros obreiros que preferem um rito despido de
qualquer referência religiosa, a exemplo do Rito Francês Moderno, tido como
agnóstico. Assim como não privilegia a concepção de Deus, teísta ou deísta.
Quanto a imortalidade da alma, a Maçonaria Simbólica não se manifesta se há
encarnação, ressurreição ou nenhum retorno.
Nos
períodos de instrução os temas preferidos são: liturgia, ritualística e
simbologia. Entretanto, não há impedimento para que qualquer obreiro possa
apresentar um trabalho que contemple uma abordagem científica de qualquer outro
tema. Por exemplo, a apresentação de outras antropologias que não estejam
circunscritas ao corpo material e a alma.
O
que é terminantemente proibido, e com isso apresenta-se um dos limites da tolerância
maçônica, é a apologia a qualquer doutrina religiosa ou política. Isto é,
discursos doutrinários e/ou evangelizadores de uma dada profissão de fé
religiosa e/ou de ideologia política partidária.
Sendo
assim, as lojas maçônicas acolhem qualquer profissão de fé religiosa e/ou
filiação partidária dos seus obreiros. Todavia, para impedir qualquer
constrangimento decorrentes de embates entre os seus obreiros, proibi a
discussão de temas religiosos e político-partidários. É neste contexto em
que se dá a tolerância maçônica, na ausência do debate de ideias religiosas
e/ou de políticas partidárias.
Uma
característica importante que expressa os limites da tolerância maçônica se dá
na lenda fundadora da Ordem: a defesa do mérito. Assim, não é tolerando a promoção
sem mérito. Nem se protege - no sentido de cumplicidade - um irmão que
tenha cometido um crime. Não há cumplicidade com o erro, muito menos com os
vícios. Todavia, se oferece os instrumentos de defesa legal ao irmão que tenha
caído em desgraça ou que se encontre acusado de irregularidade, tudo em
conformidade com o Estado de Direito.
Como
podemos observar, o conceito de tolerância na maçonaria tem seus limites e
possibilidades. Neste sentido a quinta acepção do Aurélio, relativas a
medições, também se aproxima do conceito maçônico: "diferença máxima
admitida entre um valor especificado e o obtido; margem especificada como
admissível para o erro em uma medida ou para discrepância em relação a um
padrão".
Vamos,
neste aspecto, dá um exemplo bem comum. Os irmãos quando iniciados prestaram um
juramento solene de participar regularmente das sessões da loja, assim como
pagar com regularidade as mensalidades e outra obrigações pecuniárias que se
fizerem necessário.
Ao
longo da vida maçônica muitos são os irmãos que esquecem tal juramento, e por
esta razão são julgados em Câmara do Meio em sessão de finanças, e proclamados
regulares ou não. Neste julgamento se faz o exercício da quinta acepção
oferecida ao conceito de tolerância.
Meu
amado irmão, se você deseja saber o quanto os maçons são tolerantes, basta
comparar o número de maçons tido como regulares com o número de maçons
irregulares da sua oficina. Na minha loja o número de irregulares é bem maior.
Por
fim, vamos observar o conceito de tolerância aplicado no campo da ética. Não
existe propriamente uma ética tida como maçônica. O que podemos constatar é uma
prática na qual o maçom ético é aquele que busca o conhecimento para se
aperfeiçoar e assim exercer com competência a sua função, sem com isso esteja
ocupado ou preocupado com o sucesso do outro. Assim como, podemos observar,
também, a prática na qual o maçom ético é aquele que busca servir ao outro e
neste serviço encontra o que ele reconhece como uma vida boa. As duas práticas
são toleradas e são vistas como forma corretas e complementares de servir
a humanidade.
Exortação
Que
a Maçonaria continue sendo um farol de tolerância, iluminando o mundo com os
princípios da liberdade, igualdade e fraternidade.
Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, aos nove dias do mês de MORSHESVAN do ano de 6014 da Verdadeira Luz.
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