A vida Boa – Capítulo 2
Qual a
moral contemporânea?
Nos
tempos atuais, os paradigmas e as visões de mundo propostos pelos estudiosos
estão sendo questionados. Sem encontrar respostas definitivas, voltamos nossos
olhos para os filósofos gregos antigos, reavivando debates filosóficos
clássicos em busca de fundamentos.
Embora
as utopias tenham se tornado mais complexas e menos homogêneas, a busca por uma
vida boa continua a guiar nossas ações. A pergunta "O que é uma vida
boa?" não encontra mais uma resposta única e universal. A partir de agora,
o foco se volta para o indivíduo, o sujeito, a pessoa em sua singularidade, sem
desconsiderar a importância das relações sociais na construção de um sentido
para a vida.
A
identificação dos indivíduos no Ocidente não se limita mais à família
tradicional. Enquanto antes a família era o principal núcleo de pertencimento,
hoje a participação em diversas organizações e instituições, como grupos de
interesse, comunidades online e movimentos sociais, tem ganhado destaque. Essa
mudança reflete uma transformação mais ampla na forma como as pessoas se
conectam e se definem socialmente, com a identidade sendo construída a partir
de múltiplas pertenças e afinidades.
A
participação em diversas organizações, característica da sociedade contemporânea,
fragmenta a noção de certo e errado. A lealdade a um clube de futebol, por
exemplo, pode levar a conflitos com torcedores rivais, comprometendo a ideia de
uma fraternidade universal. Essa fragmentação da moralidade é ainda mais
evidente quando consideramos a participação em organizações com objetivos
distintos. Um torcedor do Atlético, por exemplo, pode estar envolvido em
atividades ilícitas, como fraudar licitações, ao mesmo tempo em que outro
torcedor da mesma equipe pode trabalhar em uma instituição que combate esse tipo de crime.
Essa
diversidade de comportamentos demonstra como a moralidade individual é moldada
pelas diversas esferas de atuação e pelas relações estabelecidas em cada uma
delas.
A
modernidade, com sua valorização da individualidade e da autonomia, contribuiu
para essa fragmentação, ao mesmo tempo em que a globalização intensificou as
conexões entre diferentes grupos e culturas, gerando um mosaico de valores e
identidades.
A
vida contemporânea, marcada pela diversidade de grupos e comunidades aos quais
pertencemos, fragmenta a noção de uma moral única e universal. O que é
considerado certo ou bom varia de acordo com o contexto, e o que é válido em
uma situação pode não ser em outra.
Essa
"moral líquida", como a define Zygmunt Bauman, é moldada pelas
diversas afiliações sociais e pela busca por identidade em um mundo cada vez
mais complexo. A pergunta "O que é uma vida boa?" não possui mais uma
resposta única, mas sim uma série de respostas parciais, cada uma relacionada a
um aspecto específico de nossa vida.
Essa
fragmentação da moralidade, embora possa gerar conflitos, também nos permite
construir identidades mais ricas e complexas, ao mesmo tempo em que nos desafia
a encontrar um equilíbrio entre nossos diferentes pertencimentos.
A
moralidade, assim como a moda, é um reflexo da sociedade em que vivemos. Assim
como vestimos roupas diferentes para cada ocasião, nossa moral se adapta aos
diversos contextos em que nos encontramos. Em outras palavras, somos como
atores que interpretam diferentes papéis ao longo da vida. Às vezes, esses
papéis se sobrepõem (sincronicamente), como quando somos pais e profissionais
ao mesmo tempo. Outras vezes, eles se sucedem (diacronicamente), como quando
passamos da adolescência para a vida adulta. Essa multiplicidade de papéis não
apenas molda nossos comportamentos, mas também contribui para a construção de
nossa identidade, que se torna um mosaico de diferentes experiências e
pertencimentos.
É
como se fôssemos atores que interpretam diferentes papéis em diversas peças
teatrais, simultaneamente. Por isso, ouvimos com frequência afirmações como:
"Fiz muitas vezes isso na minha juventude, eu era muito inexperiente,
muito audacioso. Hoje não faço mais, não acho certo". Essa flexibilidade em
assumir diferentes papéis ao longo da vida demonstra como nossa moralidade é
moldada pelos contextos sociais e pelas experiências individuais.
Podemos
fazer uma analogia com um smartphone: assim como um celular possui diversos
aplicativos que podem ser utilizados simultaneamente, nós também desempenhamos
múltiplos papéis na vida. A rápida alternância entre esses aplicativos nos dá a
impressão de que tudo acontece ao mesmo tempo, assim como nós transitamos entre
diferentes papéis sociais de forma quase instantânea. Cada aplicativo, ou
papel, é ativado de acordo com a situação em que nos encontramos, mostrando a
flexibilidade e a adaptabilidade da nossa identidade.
Se,
por exemplo, estamos em um estádio de futebol, como torcedores, assumimos uma
postura passional e parcial. Por outro lado, se somos os árbitros da partida,
buscamos a máxima imparcialidade. É interessante notar como a linguagem se
adapta a cada papel que desempenhamos. Cada personagem exige um modo de falar
específico, com vocabulário e entonação próprios.
Nos
trabalhos científicos, a linguagem busca a objetividade, minimizando a presença
do sujeito que realiza a pesquisa. Em vez de "eu observei", "eu
constatei", prefere-se a forma impessoal: "Observa-se",
"Constata-se".
A
linguagem, além de ser um meio de comunicação, é uma ferramenta poderosa para
construir a realidade. No discurso científico, a objetividade é valorizada como
forma de garantir a credibilidade dos resultados. Ao utilizar a voz passiva e
evitar a primeira pessoa do singular, o pesquisador busca distanciar-se do
objeto de estudo, conferindo-lhe um status de verdade universal. Essa
construção linguística, característica do discurso científico, reflete uma
cultura que valoriza a razão e a evidência empírica.
Em
contraste, no discurso cotidiano, a subjetividade é fundamental para
estabelecer conexões interpessoais. Ao compartilhar nossas experiências
pessoais, utilizamos a primeira pessoa do singular para expressar nossos
sentimentos, opiniões e crenças. Essa forma de comunicação, embora menos
rigorosa do ponto de vista científico, é essencial para construir
relacionamentos e criar um sentido de comunidade.
Em
muitas áreas, especialmente nas ciências sociais, observa-se uma crescente
tendência à quantificação e à busca por correlações. Em vez de investigar a
relação causal entre variáveis, muitas pesquisas se contentam em identificar a
força da associação entre elas.
Não
mais se busca encontrar a relação exata existente entre duas variáveis
associadas a um dado objeto de estudo, mas a correlação entre elas, o quanto a
ocorrência de uma pode estar associada à ocorrência da outra. O que se busca é
quantizar a pertinência das variáveis ao objeto de estudo.
A
escolha da palavra "variáveis" para designar os elementos observados
em uma pesquisa é emblemática dessa tendência. Ao chamar algo de
"variável", implicitamente reconhecemos sua natureza mutável e sua
capacidade de se relacionar com outras variáveis. No entanto, essa perspectiva
pode nos levar a negligenciar a natureza mais profunda dos fenômenos que
estudamos.
Cada
vez mais, observa-se uma troca da Matemática pela Estatística na descrição dos
objetos observados. Sabemos que a Matemática está associada a modelos ideais,
ao absoluto. Por outro lado, a Estatística está associada à realidade aleatória
dos objetos em estudo.
A
constatação de que o caos prevalece no universo é cada vez mais frequente. O
cosmo, portanto, é uma construção humana, e não uma criação divina. No caos, o
objeto de estudo é uma delimitação arbitrária, definida pelo observador. Assim,
os resultados obtidos são transitórios e relativos às delimitações
estabelecidas, nunca absolutos. O absoluto é uma construção mental, inexistente
no plano material.
Na
contemporaneidade, a ideia de uma moral absoluta e universalmente válida parece
cada vez mais distante. A diversidade cultural, as rápidas transformações
sociais e o avanço da ciência questionam a existência de valores e princípios
morais imutáveis. O ser humano, moldado por sua história, cultura e
experiências individuais, apresenta uma complexidade que desafia qualquer
tentativa de universalização.
A
busca por uma fraternidade universal, baseada em uma moral comum, é um ideal
que persiste ao longo da história. No entanto, a realidade nos mostra que as
diferenças culturais, os conflitos de interesse e a busca pelo poder
frequentemente se sobrepõem à aspiração por uma humanidade unida. A crença em
uma religião única e eterna, capaz de unir todos os seres humanos, revela a
força desse desejo, mas também sua fragilidade diante da diversidade humana.
A
ideia de um ser humano mutante, constantemente em transformação, reflete a
complexidade e a dinâmica da condição humana. A moralidade, assim como a
identidade individual, é construída ao longo da vida e moldada pelas interações
sociais e culturais. Nesse contexto, a busca por uma moral absoluta se torna
uma utopia, um ideal que não encontra correspondência na realidade humana.
Prof. Dr. Hiran de Melo – Campina Grande, 1 de dezembro de 2014.
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