A vida boa – Capítulo 7
O Pai quer que o filho seja feliz
Alguns
sacerdotes contemporâneos da Igreja do Livro da Lei, da qual faço parte,
aparentemente esqueceram dos limites que separam o profano do sagrado. E esse esquecimento tem gerado uma grande
confusão, pois não há mais distinção entre simples crentes e ilustres
clérigos, promovendo discussões desnecessárias e sem fim.
As fronteiras entre o sagrado e o
profano impedem a Igreja de
pronunciar-se sobre o registro civil de uma relação estável, como um casamento.
Este é um casamento profano, por
ser celebrado fora da Igreja, e portanto, não pertence à esfera do sagrado. Apesar disso, esses religiosos, envolvidos em
debates sociais, vêm se pronunciando, mesmo sem serem chamados.
Observe
que a relação estável entre profanos, mesmo sendo registrada em cartório como
um matrimônio, não implica que o
casal esteja submetido ao rito do
casamento sagrado. Embora
um juiz, por ter formação religiosa, possa conferir um caráter solene e com
viés religioso ao ato do registro, o casamento
civil não pertence à esfera do sagrado. Portanto, a Igreja não deveria
se pronunciar sobre esse tipo de união, muito
menos sobre sua dissolução por meio do divórcio.
O que pode ser defendido como
indissolúvel é o Casamento Religioso,
pois este é celebrado por um sacerdote que invoca a presença de Deus, como
testemunho do juramento de que o casal permanecerá unido para sempre. Isso significa que esse casamento foi
realizado na forma de um sacramento, isto é, celebrado por um sacerdote, mas
efetivamente realizado em nome de Deus. E, o que Deus une, o homem não pode
separar.
Todos nós sabemos que a Igreja deve,
permanentemente, ser edificada fundamentada
no simbolismo e, portanto, tem como função precípua unir. Enquanto o simbolismo representa a
união, o diabólico representa a desunião. Portanto, a Igreja jamais poderá
celebrar o divórcio de um casamento sagrado. Deveria ficar apenas nisso, pois
neste ponto não há o que discutir.
É mais do que sabido que, nesse paradigma, a família sagrada se
constituiu a base sólida do desenvolvimento social e econômico da civilização
das Terras Ocidentais.
Base
sólida porque a família sagrada é constituída mediante a livre decisão dos cônjuges, que
aceitam o matrimônio como uma
relação a ser vivida para sempre. Dessa
forma, para defender esta família, espera-se que a Igreja celebre o
casamento apenas entre duas pessoas que efetivamente saibam o que querem.
Saibam o significado transcendente do casamento.
Espera-se, também, que a Igreja
acompanhe o casal nos momentos de tormentos, porque o casamento sagrado, além
de transcendente, é imanente (é
vivido neste mundo e tem consequências reais). Aqueles em que todos nós
passamos e que, se devidamente assistidos, podem fortalecer ainda mais o matrimônio, desde que superados à luz
desses valores.
No entanto,
não é isso que se vê no discurso de muitos sacerdotes contemporâneos. Em nome
da liberdade, elaboram-se discursos que têm como centro a busca pela felicidade individual. E como se dará tal felicidade?
Cabe a cada um descobrir.
O novo
paradigma abre espaço para que essa busca leve à dissolução do casamento
sagrado. Embora não haja uma defesa aberta do divórcio, o Clero da Igreja é
contrário. Podemos observar, no entanto,
a aceitação do princípio de que cada um seja feliz, ao seu modo, conforme o seu
grau de consciência.
Penso que a
fragilidade da defesa do casamento
sagrado, ao se envolver na discussão do divórcio civil, se deve exatamente à
falta de experiência dos sacerdotes com o casamento entre um homem e uma
mulher.
O sacerdote
está casado com a Igreja. Ama a Igreja. Além
disso, não sabe o que é amar uma
mulher. A Igreja pretende ser imutável com o tempo, enquanto o ser
humano é, por natureza, em constante transformação.
Amar algo que
muda a cada instante, e quando até o amante muda, é muito mais complexo do que
amar uma instituição dogmática, centralizada e autoritária.
Quem faz a
opção de estar unido à Igreja sabe com quem se une. Ao passo que, quem se casa com um ser humano, só sabe mesmo que este ser é mutante.
Hoje é forte e belo, amanhã pode ser fraco e feio; por exemplo. Entretanto, não só o corpo muda. Pode mudar, também, o
próprio eu do indivíduo. Visto que a vida ensina, educa e transforma o homem. O
indivíduo não é constituído por um sujeito imutável, mas por várias formas de
subjetividade. Formas estas que estão em processo de transformação."
Então, é apropriado questionar: Deus, o Absoluto, o
que quer de seus filhos, tão
sujeitos às mudanças?
Os antigos
respondiam: "Quer obediência a Sua Vontade".
Mas, afinal, qual a Vontade Divina?
A tradição
afirmava: "Que o ser
humano busque a conexão com o divino.
E os filhos
contemporâneos, o que respondem? A
crença em um Deus pessoal e intervencionista foi abalada. Diante disso, alguns sacerdotes contemporâneos defendem que a última
vontade divina seja a felicidade dos filhos.
E não
perguntem a eles o que é a tal felicidade. Vale como resposta, a frase adaptada
do poeta que já morreu: "que o casamento seja eterno, enquanto dure".
Essa afirmação reflete a complexidade das relações humanas e a busca por felicidade
em um mundo em constante mudança.
Por fim, segundo o Gênesis, no início
de tudo, Deus criou o universo a partir do nada. Ele não foi criado por
ninguém, nem a partir de qualquer material preexistente. Portanto, no princípio, Deus era. E sendo o Ser
Supremo, tinha a liberdade de criar tudo conforme a sua vontade. Cada coisa
criada assumiu a forma que Deus escolheu. No entanto, apenas ao ser humano Ele concedeu a
capacidade de criar e de moldar a própria existência, à Sua imagem e
semelhança, dotando-o de livre-arbítrio.
Paradoxalmente, alguns sacerdotes contemporâneos interpretam essa ideia de criação a
partir do nada como um incentivo para que os seres humanos sigam a natureza do
Nada, construindo suas vidas a partir de suas próprias escolhas. Essa
perspectiva, que pode parecer contraditória à visão tradicional de Deus como
criador, sugere que a fé e a espiritualidade não se limitam a seguir dogmas,
mas também envolvem uma busca pessoal por significado e propósito. O ser
humano não é determinado por sua origem, mas constrói sua própria identidade
através das escolhas que faz ao longo da vida.
Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, aos vinte e dois dias do mês das festas juninas do ano de 2014.
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