A vida
boa – Capítulo 12
A
Fraternidade Maçônica
Na última sessão do Capítulo Apóstolos
do Amor, o sapientíssimo presidente escolheu a fraternidade como tema de
reflexão. Em nossas reuniões, todos devem se manifestar, e quem inicia a
discussão apresenta uma fala de referência, não necessariamente um estudo
exaustivo do tema. Afinal, todos terão oportunidade de se pronunciar.
Fui escolhido para iniciar a discussão
sobre fraternidade. Parece simples, afinal, somos um exemplo de união e
fraternidade! Ou não? Mas a tarefa não é tão fácil. Irmãos fraternos devem
compartilhar os mesmos valores. Não é isso ser "frater"? Irmãos
unidos na busca por uma vida boa? Assim, surge uma questão fundamental: qual a
moral que professamos?
Convidei um filósofo, um tanto
excêntrico, para me ajudar nesta resposta. Pois apenas um espírito inquieto e
questionador se aventuraria em tal empreitada. Não para dar uma resposta
pronta, mas para instigar cada um de nós a refletir sobre a moral que
professamos e, assim, entender a qual fraternidade pertencemos, a que formamos
e a que construímos no dia a dia.
O filósofo excêntrico nos informa que,
no início, prevalecia uma única moral: a dos fortes, dos vencedores, dos
guerreiros. Essa moral se baseava na vida natural e no cultivo da força vital.
Assim, os fortes moldaram uma ética que justificava seus interesses.
E o que é bom para o forte? Tudo que o
permite demonstrar seu valor, especialmente a guerra. Ao vencedor, os despojos.
O guerreiro, guiado pela natureza, busca seu próprio caminho. Ao ouvir o outro,
usa o conhecimento para justificar seu poder.
O guerreiro, quando demora a decidir,
não o faz por prudência, mas sim por estar atento ao seu corpo. A prudência é
um valor do fraco, não do vencedor. Este, por definição, é imprudente.
Arrisca-se, lança-se em novas aventuras, em busca de novas conquistas. O fraco,
por sua vez, refugia-se na prudência, guardando o que possui e ocultando sua
visão de mundo.
Vamos aprofundar essa questão. Por
exemplo, na moral do forte, seria correto que o senhor nobre tenha o direito à
primeira noite de núpcias com qualquer mulher entre os vencidos? Sim, segundo
essa moral, pois o poderoso pode exigir tal privilégio. No entanto, essa
prática não é obrigatória; depende do interesse do senhor pela noiva.
A primeira noite de núpcias com o
senhor não é um direito da mulher, mas sim uma prerrogativa do homem poderoso.
Ele detém esse poder simplesmente por ser o dominador, o vencedor.
A força é o fundamento da moral do
forte. Essa força é tanto uma dádiva da natureza quanto resultado de seu
desenvolvimento através da arte da guerra e da conquista.
E aos fracos, o que lhes compete?
Obedecer. O escravo ideal é aquele que acata as ordens do senhor sem
questionamentos e se dedica integralmente à sua execução, buscando sempre a
excelência exigida pelo senhor.
Só muito depois surge a segunda moral.
Esta nova moral surge com a pregação de
Jesus Cristo na cruz, a maior condenação que o Império Romano poderia infligir.
Jesus Cristo, a própria manifestação da divindade, é sepultado e ressuscita no
terceiro dia, sendo visto por Maria Madalena, a única discípula que nunca o
abandonou. Seu amor por Ele lhe permitiu testemunhar a ressurreição.
Foi ela quem levou a Boa Nova aos
apóstolos reunidos em segredo, desorientados e temerosos. Levou-a àqueles que
haviam esquecido as profecias do Reino de Deus e se apegavam às coisas
materiais, à carne, fugindo da morte na cruz.
A Boa Nova era simples e consoladora:
Deus está entre nós, os mais fracos e oprimidos. Seu Filho se sacrificou como
um cordeiro, por amor, e venceu a morte. Assim, os antigos sacrifícios não seriam
mais necessários. Era uma mensagem de esperança para os humildes, não para os
poderosos e seus sacerdotes.
Esta
Boa Nova alastrou-se como fogo em palha seca. Os escravos, que constituíam a
grande maioria no Império Romano, puderam finalmente unir-se em torno de uma
crença comum. Aqueles que vinham de povos diversos, com línguas e deuses
distintos, encontraram em Deus Pai um ponto de convergência. Pai de todos os
oprimidos, dos enfermos, dos carentes, dos humilhados e dos fracos, Ele
prometeu que os últimos seriam os primeiros em Seu reino. A ressurreição de
Cristo, a vitória sobre a morte, inaugurou um novo tempo, no qual o Reino de
Deus se estabeleceria na terra e conduziria os seus fiéis ao Reino dos Céus.
Após
três séculos de perseguição aos cristãos, unidos e dispersos em diversas
seitas, o imperador romano decidiu adotar o cristianismo como a religião
oficial do Império. Essa medida visava unificar seus domínios sob uma única fé,
impondo uma nova moral e uma ideologia mais sutil para perpetuar o domínio dos
poderosos.
A
legalização do cristianismo sob o Império Romano marcou uma nova era. Os
cristãos, antes perseguidos, agora tinham o apoio do Estado. No entanto, essa
nova realidade trouxe consigo novos desafios. A Igreja Católica, ao se tornar a
religião oficial, passou a desempenhar um papel político e social de grande
importância, enfrentando a tarefa de unificar diferentes grupos cristãos e de
lidar com as heresias que surgiram.
O
que há de bom nessa nova moral romana cristã? Os valores dos fracos: a
humildade, a prudência, a contenção dos instintos, a obediência às leis do
Estado e da Igreja. Que ganham os dominados? A promessa da vida eterna em troca
da morte, regida por preceitos religiosos que celebram o outro mundo. Qual o
preço a pagar? A repressão de seus instintos naturais, a negação da própria
vida.
Mas,
o escravo não se liberta com a nova moral romana cristã? Aparentemente sim.
Agora ele obedece por livre e espontânea vontade. É livre, inclusive para
escolher a fraqueza. A maioria assim escolhe e celebra sua condição de livre,
afirmando: "Sou pobre porque quero,
escolhi ser pobre. Sou fraco porque quero, pois, é melhor para mim e para
todos." Essa é a outra face da moeda: a força se manifesta no serviço
aos outros.
Respeitemos
a singularidade de nosso louco. Cada um de nós carrega em si uma forma
particular de loucura, que é parte integrante de nossa humanidade. O filósofo
nos convidava a abraçar essa singularidade. Deixemo-lo seguir seu caminho,
mesmo sabendo que a paz não era seu objetivo. A guerra era sua sina.
A
moral pode ser resumida em duas perspectivas: a individual e a social. A
primeira se concentra no olhar do indivíduo para si mesmo, enquanto a segunda
se volta para as relações com os outros. A introdução da ideologia como
ferramenta de dominação fortaleceu tanto o Estado de Direito quanto o
populismo, criando um cenário complexo e ambíguo.
Os
poderosos mantiveram seus lugares de destaque no Estado, na Igreja, na
indústria, no comércio e no exército. No entanto, para legitimar seu poder,
adotaram uma postura que simulava a adesão à moral dos mais fracos.
Ao
utilizar o cristianismo como ferramenta de dominação, Constantino criou uma
fissura no poder dos guerreiros. A força física, antes predominante, foi
gradativamente substituída pela habilidade de negociar e persuadir. Os antigos
poderosos, cuja força residia nos músculos, deram lugar a novos líderes que
dominavam a mente. Desse modo, a definição de fraqueza se ampliou, abrangendo
não apenas a fragilidade física, mas, sobretudo, a fragilidade mental.
Os
novos poderosos, em geral, adotam uma postura de extrema humildade, afirmando
servir aos interesses do povo. Diferentemente dos antigos nobres, que não
dissimulavam seus privilégios, os novos líderes criam uma imagem de devoção ao
bem comum. No entanto, essa aparente humildade esconde seus verdadeiros
objetivos, pois a moral que pregam é seletiva, aplicando-se apenas aos mais
fracos.
Nobres
mestres perfeitos do Capítulo Apóstolos do Amor, apresento-lhes algumas
reflexões sobre a nossa jornada maçônica.
Se
a nossa missão é construir uma sociedade mais justa e fraterna, por que a busca por distinções hierárquicas
parece tão importante?"
Por
que não nos contentamos com a condição de
aprendiz maçom? Ou mesmo, com a de companheiro
maçom?
Nosso
propósito é servir. Então, por que a
busca por graus superiores, se o de Mestre já nos capacita para isso?
O
silêncio nos revela que a palavra ainda se oculta no terceiro grau. No entanto,
no quarto grau, ela já nos foi apresentada. Se assim é, por que a busca incessante por novos graus?
É
verdade, buscamos constante aperfeiçoamento. Mas, ao alcançarmos o ápice de um
rito, como o Adonhiramita, ainda nos vemos impulsionados a outros, como o
Noaquita. Essa busca incessante por
novos graus não nos afasta do nosso objetivo
principal?
Como
muitos ainda terão que falar, termino aqui a minha participação, deixando uma
semente para a reflexão: onde floresce a
fraternidade em nosso meio? Ao buscarmos constantemente novos graus e
conhecimentos, não estamos nos distanciando do verdadeiro sentido da
fraternidade? A fraternidade não se encontra nos títulos, mas sim nas ações.
Poeta
Hiran de Melo - Mestre Instalado,
Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale de João
Pessoa, aos seis dias do mês de Kislev do ano de 6014 da Verdadeira Luz.
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