A vida boa – Capítulo 8
Desejo-lhe uma bela e doce passagem
Contemplando
a Imensidão, o homem não se sentiu só. Observando suas manifestações, sentiu
uma profunda conexão com algo maior, como se fizesse parte de um todo. A
Imensidão, maior do que qualquer indivíduo, despertava no homem um sentimento
de respeito e temor.
Em
um segundo olhar, o homem percebeu uma ordem intrínseca no Universo, a qual
denominou Cosmo. Diante dessa eternidade, o homem percebeu a finitude de sua
existência e a vastidão do cosmos: ele era finito, o cosmos infinito; ele era
temporal, o cosmos atemporal; ele era mortal, o cosmos eterno.
Em
um terceiro olhar, o homem percebeu uma profunda unidade entre si e o cosmos:
'Eu e o cosmos somos um', concluiu. Essa unidade reside no fato de que o cosmos
habita em seu interior, manifestando-se como uma força vital, que ele denominou
alma. O mundo, repleto de dualidades, reflete a minha própria natureza dual.
A
partir daí, o homem passou a registrar as revelações de sua alma. E assim como
um oceano profundo abriga uma infinidade de criaturas, a alma humana abriga uma
multiplicidade de ideias e crenças, tornando o homem um ser complexo e
multifacetado. Essa diversidade de crenças, por sua vez, gerou uma rica
tapeçaria cultural, onde cada indivíduo carrega consigo uma pequena parte do
universo.
Das
descobertas iniciais da diversidade dos peixes, cada homem se tornou um
profeta, anunciando a existência de uma única espécie, como se todos os peixes
devessem pertencer a uma mesma categoria. Assim, o conhecimento que
inicialmente libertava a mente humana, tornando-a capaz de compreender a
complexidade do mundo, gradativamente se transformou em uma crença que
aprisionava, limitando a busca por novas verdades.
Vozes
se fizeram ouvir ao longo da terra, proclamando com veemência: 'Eu tenho a
verdade!' Essa busca pela verdade única, muitas vezes acompanhada de
intolerância e fanatismo, gerou inúmeros conflitos e atrasou o progresso da
humanidade. A verdade, que deveria ser um guia para a compreensão do mundo,
tornou-se uma arma nas mãos daqueles que buscavam poder e domínio.
‘A
minha verdade, que é a palavra estruturante do cosmo, me foi revelada pela
Imensidão’, afirmava cada crente. Dessa forma, a Imensidão, em vez de ser vista
como uma fonte única de verdade, passou a ser interpretada de maneira diversa
por cada indivíduo, moldada por suas experiências e interesses.
Essa
multiplicidade de interpretações sobre a natureza da Imensidão levou à criação
de múltiplos cosmos, cada um com suas próprias leis e verdades. Cada cosmo, por
sua vez, era governado por um Verbo, uma palavra primordial que dava sentido e
ordem àquela realidade particular. Assim, ao longo do tempo, o homem foi
construindo uma vasta coleção de crenças, cada uma oferecendo uma visão única e
particular do universo.
Houve
o homem que, contemplando a imensidão do cosmos, percebeu que tudo não era
eterno. Antes da existência, havia apenas o Caos, um estado de indeterminação e
infinitas possibilidades. Então, em um momento de singularidade, do caos
primordial emergiu uma força ordenadora, um Criador. Este, com sua vontade,
estruturou o universo e tudo o que nele habita.
O
homem, como parte da criação, encontra seu propósito em servir ao seu Criador e
obedecer aos seus mandamentos. Para se libertar do caos e fazer parte da ordem
cósmica, deveria submeter-se à vontade divina. Assim, a contemplação da
imensidão deu lugar à obediência, e o conhecimento foi substituído pela fé.
Essa
crença em um Criador e em um povo escolhido levou à formação de grupos que se
consideravam superiores aos demais. Doze tribos se uniram, impondo sua ordem
sobre as vizinhas e proclamando-se o povo eleito. No entanto, essa pretensa
eleição gerou conflitos e divisões, revelando a face sombria da fé quando ela se
transforma em instrumento de poder e dominação.
Outras
tribos, também, ouviram seus próprios profetas e, pela força da fé e das armas,
como as cruzadas, impuseram suas crenças sobre outros povos, cada uma
reivindicando a adoração de um único Criador. A ironia é que a busca por uma
única verdade universal gerou uma multiplicidade de verdades, cada uma
reivindicando a exclusividade da salvação.
Múltiplos
profetas, múltiplas crenças e múltiplos cosmos coexistiam, sem que houvesse uma
ordem capaz de unificar a humanidade. A busca por uma ordem cósmica única,
imposta por um único Criador, paradoxalmente gerou uma desordem social, marcada
por conflitos e divisões. A discórdia entre os homens era a consequência
inevitável de uma fé que, ao invés de unir, dividia e excluía.
Contemplando
a imensidão, o homem se sentiu só, até em si mesmo. Seu último olhar lhe
revelou que tudo muda a cada instante, como um rio que flui incessantemente.
Nada é agora como foi antes.
Todas
as visões anteriores eram apenas tentativas de fixar o que é fluído, de negar a
impermanência da existência. Somos únicos a cada instante, mas a mudança é
gradual, criando a ilusão de continuidade.
Uma
montanha, hoje serena e bela, pode tornar-se um vulcão em erupção. Assim como a
natureza, a natureza humana também é marcada pela mudança e pela
imprevisibilidade. Um homem, hoje considerado justo e honesto, pode, sob
determinadas circunstâncias, tornar-se capaz de atos cruéis e destrutivos, como
uma multidão descontrolada.
A
existência é um fluxo constante, onde nada permanece estático. Aceitar essa
verdade é o primeiro passo para uma compreensão mais profunda de nós mesmos e
do mundo que nos cerca.
A
ordem é uma construção humana, uma resposta ao sentimento de insegurança diante
da imensidão do cosmos. Embora cada homem seja único, sua existência está
intrinsecamente ligada à Imensidão e às relações que estabelece com tudo o que
nela existe.
Cada
relação que estabelecemos é como um nó que tenta dar sentido ao caos
primordial. No entanto, essas primeiras relações, muitas vezes baseadas em
mitos e crenças, criam miragens que obscurecem a realidade. Para superar essas
miragens, é preciso ampliar o círculo de nossas relações, buscando um diálogo
mais profundo com a natureza e com os outros seres humanos.
Quanto
mais intensas e diversas forem nossas relações, mais clara se torna a ordem
subjacente ao cosmos. A ecologia, nesse sentido, não se limita às relações
entre os seres humanos e o meio ambiente, mas abrange todas as interações que
estabelecemos. Somos, em última análise, o resultado de nossas relações,
ecoando as experiências de nossos ancestrais e moldando o futuro da humanidade.
Neste
dia em que celebramos a Páscoa, desejo a você um caminhar consciente pelas
estradas da vida. Seja o protagonista da sua própria história.
Lembre-se:
você é parte da imensidão, e seu corpo, como tudo na natureza, está em
constante transformação, um ciclo eterno de vida e renovação. Essa ideia,
presente na ressurreição de Jesus, nos convida a celebrar a vida em todas as
suas formas.
Como
João nos ensinou, o oposto do amor é o medo. Que neste dia, você possa
transcender o medo e abraçar a vida com amor e gratidão.
Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, no domingo de páscoa do ano de 2014 da revelação do Cristo.
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