A vida boa – Capítulo 11

A despedida do guerreiro do bem

 

Estava satisfeito com seus feitos, consigo mesmo, agradecido a todos que o ajudaram ao longo das jornadas. Agradecido ao Senhor Altíssimo e a todas as suas criaturas.

 

Havia adiado demais a hora da partida, mas agora não dava mais. Mandou chamar todos os seus filhos e filhas espalhados pelas longas planícies e altíssimos montes.

 

Seus cabelos não eram todos brancos; alguns insistiam em se manter na cor do nascimento. Todavia, todos portavam as marcas do tempo.

 

Suas mãos eram garras, mas agora impróprias à guerra. Não haveria mais como participar de qualquer outra guerra, com o mesmo vigor das tantas e tantas vencidas e perdidas.

 

Não tinha só histórias de vitórias a serem contadas. Aliás, gostava mais de relembrar as perdidas. Foram com elas que aprendera mais. As vencidas, curtia em silêncio.

 

Pernas que gostavam de correrem nuas ao sabor do vento, não mais se alegravam com o convite. Preferiam a quietude do nada fazer. Juntas, se aquecendo mutuamente.

 

Seus olhos, antes ávidos por novas descobertas, agora refletiam uma melancolia da alma. A vastidão do mundo, que um dia o fascinara, parecia agora incompleta. Afastado das batalhas, sentia a falta da intensidade de cada instante. E, acima de tudo, arrependia-se de não ter apreciado a beleza sutil das pequenas coisas, como o brilho fulgurante de um relâmpago em meio à tempestade.

 

Seus ouvidos, antes atentos a cada ruído, agora se sentiam vazios. A falta de sons vibrantes o envolvia como um mar de silêncio. Lamentava não ter dado mais atenção às palavras dos outros, aos sussurros da natureza.

 

Chamou os filhos e assim falou: "Não chorem pela minha partida, pois só vou na hora que me for permitido. Se desejarem chorar, façam por vocês mesmos. Curtam o luto pelo que perderam e depois vivam a vida como se nada tivessem perdido."

 

Chamou a bem-amada e lhe falou com a ternura de sempre: "Para onde eu vou não estarei lhe esperando, mas não se magoe por isso. Sua vida é aqui e não lá. Viva plenamente no lugar em que você está e não aonde pensa que deveria. Amo sua presença, seu olhar, seu carinho infinito, sua paciência para comigo. Mas, nada disso justifica a renúncia ao que a vida de bom e belo irá lhe oferecer daqui para frente."

 

Mas uma vez abraçou a todos e por fim falou: “Faça da sua vida um ato de libertação. Semeie a liberdade. Viva com propósito. Ao ir, deixe um legado que inspire outros a seguirem seus sonhos”.

 

Beijou-a como sempre o fazia e não mais disse uma única palavra.

 

Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, nos dias vinte dias do mês de outubro do ano 2014 da Luz do Cristo.

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