A Imensidão


Perdas e dos Ganhos

Por Hiran de Melo

Há quem inveje uma memória perfeita.

Eu nunca pertenci a esse grupo.

Desde menino descobri que minha memória era feita mais de vento do que de pedra. Enquanto alguns colegas decoravam datas, fórmulas e nomes com a naturalidade de quem recolhe frutos maduros, eu via tudo escapar pelos dedos como água entre as mãos.

Na escola, memória era sinônimo de inteligência.

A professora sorria orgulhosa diante do aluno que repetia a lição palavra por palavra. "Que menino inteligente!", dizia ela, como se decorar fosse a medida exata da sabedoria.

Nunca fui esse menino.

Durante muito tempo pensei carregar um defeito. Hoje suspeito que carregava apenas outra forma de caminhar pelo mundo.

Ainda hoje não me entregue duas tarefas ao mesmo tempo. Provavelmente terminarei nenhuma. Preciso concentrar todas as forças numa única direção. E, curiosamente, a concentração jamais foi meu dom.

Vivo distraído.

Tudo me chama.

Tudo me interessa.

Há dias em que uma folha caindo interrompe um pensamento inteiro. Um pássaro muda o rumo de uma reflexão. Um perfume antigo abre portas que eu nem lembrava existirem.

Quando danço, fecho os olhos. Quando canto, entrego-me ao ritmo para não me perder na infinidade de estímulos que me cercam.

Durante muitos anos imaginei que essa dispersão fosse fraqueza.

Hoje desconfio que ela seja apenas outra maneira de contemplar.

Minha antiga professora talvez acreditasse que eu fosse um aluno limitado. As notas confirmavam seu julgamento. Eu, porém, nunca me senti diminuído por elas.

Enquanto muitos guardavam tudo, eu aprendia a conservar apenas aquilo que realmente permanecia vivo.

Talvez a vida tenha me dado uma memória pequena para abrir espaço a uma percepção maior.

Mas não é da memória que desejo falar.

Quero falar do esquecimento.

Talvez esta seja a maior virtude que recebi.

Esqueço depressa.

E justamente por isso consigo perdoar.

Guardar ressentimentos exige uma memória disciplinada. É preciso alimentar diariamente a lembrança da ofensa para que ela continue produzindo dor.

O esquecimento dissolve esse trabalho silencioso.

Não porque negue o que aconteceu.

Mas porque recusa transformar a ferida em morada.

Também não me apego facilmente às coisas.

Não sinto necessidade de repetir para mim mesmo: "Isto, aquilo, é meu".

Talvez porque, antes que eu termine de pronunciar a frase, alguma parte de mim já tenha compreendido que nada nos pertence.

Tudo apenas nos visita.

Nós também somos visitantes.

Lembro-me de uma antiga parábola, embora já não saiba quem a escreveu. Talvez tenha esquecido o autor para que restasse apenas aquilo que realmente importava.

Dizia ela que, ao nascer, cada pessoa recebe uma pequena carroça de mão.

Ela começa vazia.

Leve.

Durante a caminhada recolhemos pedras.

Algumas parecem preciosas.

Outras representam conquistas, títulos, afetos, ideias, vitórias, razões, certezas.

Pouco a pouco a carroça torna-se pesada.

Chega então o momento decisivo.

Podemos continuar carregando tudo como se cada pedra definisse quem somos.

Ou podemos parar à beira do caminho.

Olhar uma a uma.

Agradecer.

E devolvê-las à terra.

Não porque deixaram de ter valor.

Mas porque compreendemos que jamais foram nossas.

O esquecimento, nesse instante, deixa de ser perda.

Transforma-se em liberdade.

Olho para um livro comprado há muitos anos.

Já não recordo seu conteúdo.

Isso facilita presenteá-lo a alguém que talvez encontre ali a mesma luz que um dia encontrei.

Ganham dois.

Quem recebe o livro.

E eu, que recebo novamente o espaço vazio da estante.

Os vazios também alimentam.

Uma estante completamente cheia não acolhe novos livros.

Uma alma completamente ocupada não acolhe novos encontros.

Foi então que pensei na minha primeira professora.

Aprendi a ler sob a pedagogia da palmatória.

Naquele tempo acreditava-se que o conhecimento podia nascer do medo.

Recordo seus olhos escuros.

Sua voz serena.

E aquelas mãos que, contraditoriamente, sabiam afagar e corrigir com a mesma firmeza.

Lembro-me do essencial.

Talvez o restante eu tenha inventado.

E isso já não faz tanta diferença.

Quem possui memória imperfeita acaba recebendo um estranho presente.

A imaginação.

Ela preenche delicadamente os espaços onde a lembrança já não alcança.

Não para falsificar o passado.

Mas para revelar que toda memória também é criação.

Hoje compreendo que Deus foi generoso comigo.

Não me deu uma memória extraordinária.

Deu-me algo talvez ainda mais precioso.

A leveza de esquecer.

A liberdade de recomeçar.

E a graça de descobrir, a cada novo dia, que viver não consiste em acumular lembranças, mas em aprender quais delas merecem permanecer.

Porque, no fim das contas, a verdadeira riqueza não está naquilo que conseguimos guardar.

Está naquilo que somos capazes de deixar partir.

E talvez seja justamente esse o maior dos ganhos.

Perder o peso.

Para continuar caminhando.

 


A Imensidão - Perdas e Ganhos

 - Pérdidas y Ganancias

Por Hiran de Melo

Quem não aprecia uma boa memória?

Quien no aprecia una buena memoria?

Um instrumento poderoso e grande amigo nos primeiros passos da vida.

Un instrumento poderoso y gran amigo en las primeras etapas de la vida.

Na escola? Feliz era aquele que tinha nascido com uma memória eficiente. Logo, a capacidade de decorar era traduzida como uma virtude inteligente.

En la escuela? Feliz era aquel que había nacido con una memoria eficiente. Luego, la capacidad de decorar era traducida como una virtud inteligente.

Que menino inteligente!

Que muchaho inteligente!A professora se gabava de ter um aluno assim.

La profesora se alardeaba de tener un alumno así.

Mas este não era o meu caso. Nasci com uma memória volátil e diminuta. Ainda hoje não me venha com duas tarefas que eu termino não realizando nenhuma. Preciso estar sempre bem focado para chegar a algum lugar. Mas, estar focando também nunca foi o meu forte.

Pero este no era mi caso. Nací con una memoria volatil y diminuta. Aún hoy no me venga con dos tareas que no termino realizando ninguna. Necesito estar siempre bien enfocado para llegar a algún lugar. Pero, estar enfocado también nunca fué mi fuerte.

Ao contrário, vivo mergulhado na dispersão. Tudo me chama; tudo exige minha atenção. Assim, por exemplo, para dançar preciso fechar os olhos. E, também, cantar para não perder o ritmo da música e o compasso da dança.

Al contrario, vivo inmerso en la dispersión. Todo me llama, todo exige mi atención. Así, por ejemplo, para bailar necesito cerrar los ojos. Y también, cantar para no perder el ritmo de la música y el compás de la danza.

Voltando a escola, acredito que minha professora me achava muito burro. As notas eram as provas e testemunhas falazes. Mas, isso não me perturbava. Eu tinha outra visão. Só guardava o essencial. E, tinha nascido com a faculdade compensatória de enxergar o essencial nas coisas mil. Todavia, não é da memória que quero lhe falar hoje.

Regresando a la escuela, creo que mi profesora me encontraba muy burro. Las notas eran las pruebas y testimonios falaces. Pero, eso no me perturbaba. Yo tenía otra visión. Solo guardaba lo esencial. Y, había nacido con la facultad compensatoria de ver lo esencial en las mil cosas. Pero, no es de la memoria que les quiero hablar hoy.

Falarei do esquecimento. Esta é a minha maior virtude, caso você ache que eu tenho alguma. Esqueço rápido e assim, efetivamente, perdôo.

Hablaré del olvido. Esta es mi mayor virtud, en caso que usted encuentre que yo tengo alguna. Olvido rápido y así, efectivamente, perdono.

Digo maior virtude porque com a faculdade do esquecer não me apego às coisas e nem as ideias. Não preciso dizer a mim mesmo toda hora: “isto é meu”. Pois, por mais que repita não deixarei de esquecer. Melhor é dizer: nada é meu. E no nada, tudo é meu e seu.

Digo mayor virtud porque con la facultad del olvido no me apego a las cosas ni a las ideas. No necesito decirme a mí mismo y a toda hora: esto es mio. Pues, por más que repita no dejaré de olvidar. Mejor es decir nada es mío. Y no nada, todo es mio y suyo.

Tentarei ilustrar este “papo de doido” com uma parábola que li outro dia. E, para ser coerente, não me lembro quando e nem de quem escreveu. Revelo apenas o essencial, não é minha.

Intentaré ilustrar este "cultivo de frutos secos" con una parábola que leí el otro día. Y, para ser coherente no recuerdo cuando ni quien la escribió. Apenas revela lo esencial, no es mía.

Dizia o profeta que quando você nasce lhe é entregue uma carroça de mão. Carroça vazia e leve. Ao longo da vida você vai encontrando no caminho pedras, algumas delas, você vai considerar preciosas e recolhê-las para si.

Decía el profeta que cuando usted nace le es entregada una carreta de mano. Carreta vacía y suave. A lo largo de la vida usted va encontrando en el camino piedras, algunas de ellas, usted las considera preciosas y las recoge para sí.

Com o passar do tempo a carroça vai ficando cheia e pesada. Diante deste fato, você tem duas opções. Reavaliar o valor de cada pedra recolhida e apropriada ou continuar a retê-las como suas.

Con el pasar del tiempo la carreta va poniéndose llena y pesada. Delante de este hecho, usted tiene dos opciones. Evaluar el valor de cada piedra recogida y apropiada o continuar reteniéndolas como suyas.

A opção primeira lhe permite libertá-las, devolvê-las ao caminho. Esquecer que já foram suas ou, melhor, compreender que nunca lhes pertenceram. Mas, cada pedra é testemunha de uma memória. É exatamente neste momento em que quem nasceu com a virtude do esquecimento lhe será revelada a graça.

La primera opción le permite liberarlas, devolverlas al camino. Olvidar que fueron suyas, o mejor, comprender que nunca les pertenecieron. Pero, cada piedra es testimonio de una memoria. Es exactamente en este momento en que quien nació con la virtud del olvido le será revelada la gracia.

Olho para um livro que comprei faz alguns anos. Ele jaz na pequena estante e não me lembro do que ele fala. Assim é mais fácil dar de presente a quem considerá-lo uma preciosidade. Ganho duas coisas. A oportunidade de doação e o vazio na estante que permitirá acolher o novo.

Miro hacia un libro que compré hace algunos años. El está en un pequeño estante y no recuerdo de lo que habla. Así es más facil regalarlo a quien lo considera una preciosidad. Gano dos cosas. La oportunidad de la donación y el vacío en el estante que me permitirá adaptarme a lo nuevo.

Pensei na professora que me fez aprender a ler e a escrever na base do “ferro e fogo” ou como se diz aqui, na “marra”. Lia correto ou ganhava bolos da palmatória que repousava alerta e pronta para o trabalho pedagógico.

Pensé en la profesora que me hizo aprender a leer y escribir en la base del "hierro y fuego", o como se dice aqui, "a la fuerza". Leía correcto o ganaba tortazos de palmas que reposaban alerta y dispuestas al trabajo pedagógico.

Lembro-me dos seus olhos grandes e negros, da sua voz delicada e amiga. Quem diria que aquelas mãos usariam um dia a palmatória?

Me acuerdo de sus ojos grandes y negros, de su voz delicada y amiga. Quien diría que aquellas manos usarían un día las palmetas?

Aprendi no primeiro dia que usaria sim. E com muita força.

Aprendí en el primer día, sí. Y con mucha fuerza.

Dona Rosilda era o nome dela. E isso é tudo, quase tudo do que me lembro ou que inventei agora. Pois, também, tem este lado para quem não possui uma boa memória. Deus me proveu de asas imaginárias, portas abertas para a imaginação e o mundo do “entre os dois”.

Doña Rosilda era el nombre de ella. Y eso es todo, casi todo de lo que me acuerdo o que inventé ahora. Pues, también tiene este lado para quien no tiene una buena memoria. Dios me facilitó de alas imaginarias, puertas abiertas para la imaginación y el mundo de "entre los dos".

Um beijo. Serás feliz.

Un beso, Sé feliz.

Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, 3 de agosto de 2009 da Revelação do Cristo.

Traducción libre al español: María Consuelo

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