A Imensidão
Passeando no campus
Por Hiran de Melo
Há
lugares que não mudam porque permanecem iguais. Mudam porque nós já não somos
os mesmos quando voltamos a eles.
Um
velho mestre retorna ao campus onde ensinou parte de sua vida. Caminha devagar,
sem a urgência de quem precisa chegar. Há muito descobriu que alguns caminhos
existem apenas para serem percorridos — não para serem vencidos.
Ao
seu lado segue Melquisedec, em silêncio. Não porque lhe faltem palavras, mas
porque certas presenças exigem escuta. Há conversas que acontecem antes da
linguagem, quando dois caminhantes dividem o mesmo horizonte e nenhum precisa
nomeá-lo.
O
campus já não é aquele.
As
árvores que antes costuravam sombras sobre os caminhos cederam lugar ao
concreto. Os jardins perderam espaço para edifícios. Os carros multiplicaram-se
mais depressa do que as pessoas aprenderam a conviver. Onde antes havia
intervalo, agora há pressa. Onde existia contemplação, instalou-se a
competição.
Não
se trata de condenar o progresso. O tempo sempre constrói enquanto desfaz. A
questão é outra, e mais funda: quando uma cidade cresce, cresce também o
coração de quem a habita?
O
velho mestre nada comenta. Apenas caminha.
Melquisedec
percebe que existe uma tristeza serena naquele passeio. Não é nostalgia. A
nostalgia deseja voltar. A sabedoria apenas reconhece que tudo aquilo que se
viveu continua existindo — só que em outro endereço: dentro da memória.
A
memória, porém, não é um arquivo. É uma espécie de eternidade provisória.
Basta
um perfume, uma esquina, um banco de praça ou o desenho de uma calçada antiga
para que décadas desapareçam. O passado não retorna. Somos nós que, por um
instante, voltamos a ser quem éramos.
É
então que a imaginação abre sua janela.
Os que discutiam o futuro
Diante
da biblioteca, Melquisedec já não vê apenas o espaço vazio. Enxerga professores
discutindo, apaixonados, o destino da universidade. Uns acreditavam que a
democracia floresceria naturalmente, bastando dar voz a todos. Outros defendiam
que a excelência exigia mérito antes do voto.
Hoje
compreende que ambos carregavam esperança. E talvez toda esperança seja, no
fundo, uma forma de fé.
As
ideias, porém, envelhecem mais depressa do que os edifícios. O que permanece
vivo não são os discursos, mas a coragem de quem ousou pronunciá-los.
Os que redesenhavam o país entre copos
A
paisagem muda de novo. Como uma película antiga, dissolve-se diante dos olhos.
Surge
o pequeno bar de Seu Babú.
Ali
não se reuniam apenas professores. Reuniam-se inquietações. Entre copos, risos
e conversas que não olhavam o relógio, muitos acreditavam estar redesenhando o
país. Descobriam, sem perceber, que nenhuma revolução começa nas ruas antes de
nascer na consciência.
As
grandes transformações quase sempre começam ao redor de uma mesa. Entre amigos.
Entre pessoas que ainda acreditam que conversar é mais poderoso do que gritar.
O
tempo, porém, também atravessa os bares.
As
vozes desaparecem uma a uma. Os rostos tornam-se névoa. Restam apenas ecos de
gargalhadas que nenhum gravador seria capaz de registrar.
O
mestre continua caminhando.
Melquisedec
compreende, então, que a revolução imaginada talvez nunca tenha acontecido do
jeito sonhado. Vieram mudanças lentas, discretas, quase invisíveis. Algumas
produziram justiça. Outras apenas trocaram o nome das antigas estruturas.
Mas
a verdadeira transformação jamais esteve apenas na política, nas instituições
ou nas universidades. Ela sempre começou dentro das pessoas.
O que a cidade levou, o que a alma guardou
O
campus tornou-se maior. Os prédios cresceram. As árvores diminuíram. As vagas
desapareceram.
Mas
talvez a verdadeira perda não tenha sido a sombra das antigas copas. Talvez
tenha sido a capacidade de caminhar sem destino.
Vivemos
uma época em que todos sabem onde precisam chegar — mas poucos ainda sabem por
que caminham.
Ao
deixar a universidade, Melquisedec olha uma última vez para trás. Não procura
reencontrar o passado. Agradece por tê-lo vivido.
Porque
compreende, enfim, que nenhum lugar permanece dentro de nós por causa de seus
edifícios, de suas salas ou de seus jardins. Os lugares sobrevivem pelas
pessoas que nos ensinaram a enxergar o invisível.
E
talvez seja essa a verdadeira função de um mestre. Não transmitir respostas.
Mas transformar um simples passeio numa travessia da alma.
A Imensidão - Passeando no Campus
Paseando
en el Campo
Por Hiran de Melo
Um mestre amigo visita a escola aonde lecionou há pouco tempo atrás. Caminha e faz lembrar a Melquisedec a época do campus arborizado, da sutil harmonia de jardins e copas criados sob a batuta do Professor Átila. Quem vinha de carro escolhia a vaga com sombra onde deixar. Uma época romântica, generosa, farta até. Todavia, a forte expansão inundou os espaços vazios com prédios de alvenaria e cimento, eliminou árvores e atraiu carros sem vagas para estacionar. Espaço denso e tenso num novo e apressado tempo no qual as pessoas mais competem que contemplam.
Un maestro amigo visita la escuela donde enseñó hace poco tiempo atrás. Camina y recuerda a Melquisedec en la época del campo arborizado, de la sutil armonía de los jardines y copas creadas bajo la batuta del profesor Atila. Quienes venían en auto escogían la vaga sombra donde dejarlo. Una época romántica, generosa, hasta abundante. Sin embargo, la fuerte expansión inundó los espacios vacíos con predios de ladrillos y cemento, eliminó árboles y atrajo autos sin espacios para estacionar. Espacio denso y tenso en un nuevo y apresurado tiempo en el cual las personas compiten más que contemplan.
Parece que estamos fora do tempo – são as palavras que veem a mente de Melquisedec, mas ele nada diz. A visita do mestre amigo sempre lhe é preciosa e, portanto, não deve interrompê-lo. Caminha ao seu lado como que de olhos fechados, apurando a escuta. É o que apenas deseja fazer, e o faz.
Parece que estamos fuera de tiempo – son
las palabras que vienen a la mente de Melquisedec, pero él nada dice. La visita
del maestro amigo siempre le es hermosa y, por lo tanto no debe interrumpirlo.
Camina a su lado como de ojos cerrados, apurando a oírlo. Es lo que sólo desea
hacer, y lo hace.
Mas ninguém é dono da sua própria
imaginação, ela voa como pássaro selvagem. Desloca-se no tempo e no espaço das
memórias. Em verdade, ocupa outra dimensão. Então o terceiro olhar, como que
uma grande tela de cinema, se apresenta sem aviso prévio.
Pero nadie es dueño de su propia imaginación,
ella vuela como pájaro salvaje. Se desplaza en el tiempo y el espacio de las
memorias. En verdad, ocupa otra dimensión. Entonces el tercer ojo, como una
gran pantalla de cine se presenta sin previo aviso.
À frente da biblioteca há um amplo espaço aberto e em níveis descendentes como se fosse uma escadaria. Melquisedec vê esperançosos professores expondo suas ideias. Muitos são fervorosos crentes na eficácia da democracia. Existe neles a defesa da escolha dos dirigentes universitário pelo voto dos que fazem a comunidade universitária. É sem dúvida uma questão de fé.
En frente de la biblioteca hay un amplio espacio abierto y en niveles descendentes como si fuese una escalera. Melquisedec ve esperanzados profesores exponiendo sus ideas. Muchos son fervorosos creyentes en la eficacia de la democracia. Existe en ellos la defensa en la elección de los dirigentes universitarios por el voto que hacen a la comunidad universitaria. Es sin duda una cuestión de fe.
Outros defendem, não abertamente, a
escola como uma instituição hierarquizada pelo mérito. A escolha deveria
obedecer a critério de méritos. Neste momento, poucos têm a coragem de
expressá-lo sem constrangimentos. É que vivemos tempos em que os vapores da
ditadura estatal ainda estão muitos presentes. Nos rostos dos presentes brilha
a fé no futuro. A construção de uma escola pública, gratuita e aberta a todos
que puderem passar pelo vestíbulo.
Otros defienden, no abiertamente, la
escuela como una institución jerárquica por el mérito. La elección debería
obedecer al criterio de méritos. En este momento, pocos tienen el coraje de
expresarlo sin restricciones. Es que vivimos tiempos en que los vapores de la
dictadura estatal, todavía está presente en muchos. En los rostros de los
presentes brilla la fe en el futuro. La construcción de una escuela pública,
gratuita y abierta a todos los que puedan pasar a través del portal.
Todavia, a imaginação é como o vento,
sopra na direção que quer. O cenário vai se evaporando, as faces dos
professores entrando em uma bruma. Na tela aparece agora o Bar de Seu Babú, ele
mesmo o garçom atencioso, delicado e discreto. Foi caminhoneiro e parece
ausente. Na cozinha a esposa, Dona Maria. Nas mesas, muitos que lá estavam
agora tem falas mais soltas e temas diversos. É a hora de fazer a revolução sem
dar um tiro, hora da cerveja e dos sorrisos. Nos copos, colarinhos de espuma
latejam, o ar bafeja a destilado, pouco se fumava.
Sin embargo, la imaginación es como el
viento, sopla en la dirección que quiere. El escenario se va evaporando, las
caras de los profesores entrando en la bruma. En la pantalla aparece ahora el
Bar del Señor Babú, el mismo camarero atento, delicado y discreto. Fue
camionero y parece ausente. En la cocina su esposa, Doña María. En las mesas,
muchos de los que allá estaban, ahora con charlas más sueltas y temas diversos.
Es la hora de hacer la revolución sin disparar un tiro, hora de la cerveza y de
las sonrisas. En las copas, collares de espuma latían, en el aire hálito a
destilado, poco se fumaba.
As faces mais uma vez entram na bruma
e com elas o Bar e o Seu Babú. Voltado à escuta total focada na fala do velho
mestre, Melquisedec constata que a revolução não ocorreu. Mas houve mudanças
lentas e graduais, assim como desejava o General, cujo nome nem lembra ou já
nem sabe escrevê-lo.
Las caras una vez más entran en la bruma y con ellas el Bar y el Señor Babú. Dirigido a la audiencia totalmente centrada en el habla del viejo maestro, Melquisedec constata que la revolución no ocurrió. Pero hubo cambios lentos y graduales, así como deseaba el General, cuyo nombre ni recuerda o ya ni sabe escribirlo.
Poeta Hiran de Melo - Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita - oráculo de Melquisedec, 30 de outubro de 2010 da Revelação do Cristo.
Traducción libre al español: María
Consuelo
Comentários
Postar um comentário