A Imensidão
Além do Perdão
Há um instante em que o
abismo deixa de ser queda e se torna casa.
Por Hiran de Melo
Há
momentos na vida em que a existência nos convida a atravessar uma fronteira
invisível. Não é uma travessia geográfica, nem moral. É uma passagem interior,
silenciosa, onde deixamos de ser apenas aquilo que pensamos ser para tocar,
ainda que por um instante, aquilo que sempre fomos.
Curiosamente,
esse instante não acontece quando o medo desaparece. O medo permanece. Às
vezes, até cresce. O desconhecido continua sendo um abismo. A diferença é que,
em determinado momento, algo maior que o medo desperta dentro de nós.
Então
avançamos.
Não
porque sejamos corajosos, mas porque uma estranha certeza nos conduz. Não uma
certeza construída por argumentos, doutrinas ou provas. Uma certeza que nasce
do mais profundo da alma, como se a própria vida nos recordasse de uma verdade
esquecida desde sempre.
É
nesse instante que compreendemos que a fé não é ausência de dúvida. É caminhar
mesmo quando todas as respostas permanecem ocultas.
Há
também um momento em que as categorias que organizavam nossa existência deixam
de fazer sentido. Certo e errado, vitória e derrota, mérito e culpa tornam-se
pequenas diante da vastidão da experiência humana. Não porque desapareçam, mas
porque deixam de ocupar o centro da consciência.
É
como navegar durante a noite.
Os
antigos faróis se apagam. O mar permanece escuro. As estrelas continuam acima
de nós, mas já não servem para iluminar o caminho. Servem apenas para lembrar
que existe uma beleza que não foi feita para ser dominada.
Nesse
silêncio, descobrimos que nem toda escuridão é ausência de luz. Algumas
escuridões são apenas o ventre onde nasce uma nova forma de enxergar.
É
por isso que o silêncio deixa de ser vazio.
As
palavras, tão importantes para organizar o mundo, tornam-se insuficientes para
explicar aquilo que acontece dentro de nós. Existem experiências que não cabem
na linguagem. Existem encontros que somente o coração consegue reconhecer.
Talvez
seja essa a razão pela qual os grandes mestres sempre ensinaram mais pelo
silêncio do que pelos discursos.
Quando
cessam as vozes do ego, outra voz começa a ser ouvida.
Não
vem da razão.
Não
nasce da emoção.
Também
não pertence ao orgulho espiritual que tantas vezes se disfarça de humildade.
Ela
parece emergir de um lugar anterior ao próprio pensamento.
É
uma voz sem som.
Uma
presença.
Uma
lembrança.
Como
se alguém, muito antigo e profundamente íntimo, nos chamasse pelo verdadeiro
nome.
Nesse
instante percebemos que carregamos dentro de nós um mestre silencioso. Um
mestre que nunca competiu com nosso pequeno eu, mas que também jamais se
confundiu com ele.
O
ego deseja possuir.
O
mestre interior deseja despertar.
O
ego pergunta quem está certo.
O
mestre pergunta quem estamos nos tornando.
Talvez
seja essa a maior iniciação da existência: deixar de viver apenas como
personagens da nossa própria história para reconhecer a vida que pulsa além das
máscaras, dos títulos, das crenças e dos medos.
É
aí que compreendemos que o perdão não é o destino final.
Existe
algo além do perdão.
O
perdão ainda pressupõe uma separação entre quem feriu e quem foi ferido. Ele é
indispensável enquanto caminhamos dentro da lógica das faltas, das culpas e das
reparações.
Mas
existe uma experiência ainda mais profunda.
Uma
experiência em que a separação começa a desaparecer.
Não
porque a dor tenha sido negada, mas porque o amor se revelou maior do que ela.
Quando
isso acontece, já não somos apenas alguém que foi perdoado.
Somos
alguém que voltou para casa.
A
casa do Pai não é um lugar distante nem uma recompensa futura. Ela é um estado
de consciência onde finalmente deixamos de nos sentir estrangeiros de nós
mesmos.
Ali
compreendemos que nunca estivemos verdadeiramente abandonados.
Apenas
esquecidos.
Esquecidos
de nossa origem.
Esquecidos
da centelha divina que sempre permaneceu acesa sob as cinzas do medo.
Talvez
seja isso que experimentamos em alguns sonhos, em algumas orações, em certos
silêncios e até em determinados encontros humanos que transformam nossa
existência sem que saibamos explicar por quê.
Voltamos
diferentes.
Não
porque o mundo tenha mudado.
Mas
porque algo dentro de nós encontrou novamente a fonte.
E
como todo rio que finalmente reencontra sua nascente, compreendemos que o
verdadeiro retorno nunca foi um movimento para trás.
Foi
sempre uma viagem para dentro.
Muito
além do perdão.
Na
direção do eterno Eu Sou.
A Imensidão - Além do perdão
Por Hiran de Melo - versão 2022
Más allá del perdón
Há um breve instante em que toda prudência é negligenciada. Embora o medo não se tenha ido. Ao contrário, tornou-se mais presente, maior. Avanço como quem se dirige para abismo, e nele me atiro com a certeza que não irei morrer. Não é uma esperança, é uma certeza que vem de um lugar inefável.
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