Lições do Cotidiano


O Lugar de Quem Ama

Sobre a ilusão da neutralidade nos relacionamentos

Por Hiran de Melo

Um velho mestre dizia que existem guerras que não podem ser vencidas. Não porque lhes falte estratégia, mas porque jamais deveriam ter começado. São as guerras que surgem dentro da casa, entre aqueles que um dia prometeram caminhar na mesma direção.

Quando ouvi essas palavras, imaginei que ele falava dos casais que brigam. Somente muitos anos depois compreendi que se referia a algo ainda mais silencioso.

Ele falava dos casais que deixam de lutar um pelo outro.

Existe uma diferença sutil entre a paz e a indiferença.

A paz nasce quando dois corações aprendem a resolver seus conflitos sem destruir o vínculo que os une.

A indiferença nasce quando um deles conclui que a dor do outro já não lhe diz respeito.

À primeira vista, a neutralidade parece uma virtude. Afinal, quem não deseja agir com equilíbrio? Quem não teme cometer injustiças ao tomar partido?

Mas o amor nunca foi um tribunal.

O amor é uma casa.

E uma casa não permanece de pé porque seus moradores julgam uns aos outros com imparcialidade. Ela permanece porque seus habitantes decidiram que nenhum deles enfrentará sozinho as tempestades que inevitavelmente chegarão.

Isso não significa defender o erro.

Nem transformar o companheiro em alguém incapaz de reconhecer seus próprios equívocos.

Há uma diferença profunda entre justificar uma atitude e sustentar uma pessoa.

Quem ama pode dizer: "Você errou."

Mas acrescenta, quase no mesmo instante:

"Vamos atravessar isso juntos."

Talvez seja justamente essa palavra — juntos — a mais esquecida em muitos relacionamentos.

Com o passar do tempo, alguns casais aprendem a dividir despesas, tarefas, compromissos e responsabilidades.

Entretanto, deixam de dividir aquilo que mais importa: o peso da existência.

Cada companheiro passa a carregar sua própria cruz.

Cada um enfrenta suas próprias batalhas.

Cada um responde sozinho pelas dores que surgem.

A convivência continua.

O casamento continua.

O amor, porém, começa a desaparecer sem fazer qualquer ruído.

Não é a falta de carinho que o destrói.

É a ausência de pertencimento.

Há dores que não pedem soluções.

Pedem companhia.

Há conflitos que não exigem defesa incondicional.

Exigem apenas que alguém permaneça ao nosso lado enquanto o mundo parece nos empurrar para longe.

É curioso perceber que ninguém espera ser amado apenas quando acerta.

Ser amado apenas nos dias de vitória não é amor.

É admiração.

O amor revela sua natureza justamente quando o outro vacila, se confunde, tropeça ou sofre.

É nesse instante que descobrimos se ocupamos um lugar na vida de alguém ou apenas um espaço em sua rotina.

A neutralidade possui um preço invisível.

Ela comunica, sem palavras, que determinados sofrimentos pertencem exclusivamente a quem os vive.

E nenhuma solidão é maior do que perceber que a pessoa que escolhemos para caminhar conosco decidiu assistir à nossa travessia da margem.

Os antigos costumavam dizer que duas árvores plantadas lado a lado fortalecem uma à outra.

Quando o vento sopra contra uma delas, suas raízes já se encontram entrelaçadas.

Nenhuma impede o vento.

Nenhuma substitui a outra.

Mas ambas resistem porque, debaixo da terra, já aprenderam que crescer é compartilhar sustentação.

Talvez seja essa a imagem mais bela do amor.

Não dois troncos idênticos.

Nem duas sombras iguais.

Mas duas raízes que já não sabem exatamente onde termina uma e começa a outra.

Por isso, amar não é perder a própria identidade.

É permitir que a existência do outro também encontre abrigo dentro da nossa.

Quando esse abrigo desaparece, o relacionamento continua existindo apenas como forma.

Restam os compromissos.

Restam as fotografias.

Restam os aniversários.

Resta a rotina.

Mas falta aquilo que transforma duas vidas em uma caminhada comum.

No fim, compreendi o ensinamento daquele velho mestre.

Os relacionamentos não terminam quando surgem os conflitos.

Terminam quando um dos dois deixa de reconhecer que a dor do outro também lhe pertence.

Porque o amor nunca pediu que escolhêssemos entre a verdade e a pessoa amada.

Pediu apenas que jamais deixássemos quem amamos enfrentar a verdade completamente sozinho.

É por isso que o oposto do amor talvez não seja o ódio.

O ódio ainda se importa.

O verdadeiro oposto do amor é a confortável indiferença de quem observa a tempestade pela janela e acredita que, porque a chuva cai apenas sobre o outro, a casa continua intacta.

Não continua.

Quando um coração deixa de ser abrigo para o outro, a primeira ruína nunca aparece no telhado.

Ela começa, silenciosamente, nos alicerces.

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