Encontros

Os Lados do Cérebro Humano

Sobre decidir antes de saber que decidiu

Por Hiran de Melo

Existe uma pergunta que quase ninguém faz a si mesmo antes de agir: quem decidiu, primeiro — o sentimento ou a razão?
A resposta incomoda, porque fere a vaidade de nos acharmos seres racionais. O cérebro humano tem dois lados. Um sente. O outro explica. E o que sente sempre chega primeiro — segundos antes, silencioso, sem pedir licença — para depois entregar ao outro lado a tarefa de vestir aquilo de lógica, de argumento, de justificativa. Vivemos convencidos de que pensamos e, só depois, sentimos. Talvez seja exatamente o contrário.

O lado que decide

O lado direito não delibera. Ele reconhece. Basta um rosto, um cheiro, uma cor de parede, o timbre de uma voz — e algo já se moveu por dentro, antes de qualquer frase ter sido formada. É o lado do encontro, não do cálculo. Ele não sabe explicar por que preferiu; ele só sabe que preferiu.

O lado que justifica

O lado esquerdo chega depois, como um advogado contratado para defender uma decisão que já foi tomada sem ele. Organiza planilhas. Enumera vantagens. Constrói o discurso que vai convencer os outros — e principalmente convencer a si mesmo — de que aquilo foi escolhido com a cabeça. Mas a cabeça, na maioria das vezes, só assina embaixo do que o coração já havia decidido.

Talvez seja por isso que tantas pessoas comprem a casa errada achando que compraram a casa certa. Entram pela primeira vez, e a luz da tarde atravessa a janela da sala de um jeito que ninguém programou. Alguma coisa se instala ali dentro, num instante, antes de qualquer planta baixa ser medida. Só depois vêm os argumentos: a localização é boa, o metro quadrado compensa, o bairro está valorizando. Ninguém compra uma casa pela metragem. Compra-se pela luz de uma tarde qualquer — e a metragem é chamada depois, para dar ares de sensatez a um coração que já havia se mudado para lá.

A ilusão da coerência

Não é fraqueza sentir antes de pensar. É apenas a arquitetura de quem somos. O problema não é o lado direito decidir primeiro — o problema é fingir, depois, que foi o esquerdo. Essa mentira pequena, repetida todos os dias, é o que nos afasta de nós mesmos: uma vida inteira de decisões emocionais vestidas de decisões racionais, um casamento de conveniências entre o que se sente e o que se diz.

Talvez a maturidade não seja aprender a decidir só com a razão — isso talvez nem seja possível. Talvez seja aprender a reconhecer, sem vergonha, quando foi o coração quem decidiu. E deixar a razão fazer o que ela sabe fazer de melhor: não mentir sobre a origem da escolha, mas ajudar a escolha a se tornar sábia.

O advogado embriagado

Mas existe uma hora em que o advogado não chega atrasado.
Existe uma hora em que ele nem comparece.
O álcool não cria o lado direito. Ele apenas cala o esquerdo.
Dissolve, copo a copo, a única voz que sabia dizer espera.
A única voz que sabia dizer talvez não seja hoje.
A única voz que sabia dizer você vai se arrepender disso amanhã.

E o que sobra, sozinho na sala, é o lado que sente tudo com urgência e não pesa nada. O lado que reconhece um rosto do outro lado do bar e já decidiu, antes de qualquer prudência ser consultada. O lado que se sente corajoso ao volante, apaixonado ao telefone, ofendido pela primeira farpa, disposto a resolver em cinco minutos uma mágoa de cinco anos.

Não é que a pessoa embriagada minta mais.
É que ela perdeu quem a corrigia.

Talvez seja por isso que tantas decisões tomadas numa mesa de bar pareçam, na manhã seguinte, decisões de outra pessoa. Não foram. Foram as mesmas decisões de sempre — só que sem o esquerdo por perto para adiá-las, pesá-las, vestir a emoção de responsabilidade antes de deixá-la sair pela porta. A palavra dita, o carro ligado, a mensagem enviada, a briga comprada: nada disso nasceu ali, naquela noite. Só perdeu, ali, o único freio que ainda existia.

Por isso a embriaguez não é apenas um risco do corpo. É um risco do cérebro inteiro — porque desarma exatamente a metade que existia para nos proteger da outra.

O lado direito sente a casa.
O lado esquerdo paga as prestações.
E quando o esquerdo é silenciado — pela pressa, pela paixão, ou por um copo a mais — é o direito sozinho quem assina os dois nomes.
Nenhum dos dois lados mente sozinho — mentimos quando fingimos que só um deles esteve na sala.

Existe uma pergunta que quase ninguém faz a si mesmo antes de agir: quem decidiu, primeiro — o sentimento ou a razão? Talvez a pergunta certa não seja essa. Talvez seja outra: você tem coragem de admitir qual dos dois decidiu por você, hoje — e coragem, sobretudo, de não formular a essa pergunta com um copo ainda na mão? 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog