
O Encontro que Não se Apaga
Sobre o que escolhemos
lembrar quando amamos
Por Hiran de Melo
“Quero nesta noite inteira
Ao meu lado tê-la
Como namorada verdadeira
Quero vê-la
Quero vê-la
Na morada
E quero tê-la
Delícia da mente”.
- Da música “Tudo lindo, tudo dez”.
Hiran de Melo & Majda Hamad
Pereira
Existe
uma escolha que fazemos todas as noites, sem perceber que é uma escolha.
Diante
de quem amamos, a mente abre um arquivo. E o arquivo tem duas gavetas. Numa, os
encontros — o rosto que se abre em surpresa, a mão que procurou a outra no
escuro, o riso que não precisou de motivo. Na outra, os desencontros — a
palavra que feriu, o silêncio que durou demais, a promessa que ficou pelo
caminho.
Toda
noite, decidimos qual gaveta abrir.
A gaveta que escolhemos
abrir
O
amor cura quando é contemplado. Não pelo esquecimento — pela escolha. Voltar-se
para o que ele trouxe de bom não é fingir que o resto não aconteceu. É
reconhecer, com honestidade adulta, que os desencontros pesam menos do que
insistimos em fazê-los pesar.
Talvez
o erro mais comum entre os que amam não seja amar pouco. Seja lembrar errado.
Insistir
na falha enfraquece a memória do que deu sentido à vida a dois. E não torna
ninguém melhor — nem quem acusa, nem quem é acusado. Só empobrece o arquivo
comum, até que reste nele apenas a gaveta triste, e a outra pareça ter sido
sonho.
A Páscoa que ainda não
chegou
O
futuro guarda uma Páscoa. Toda relação carrega essa promessa dupla:
ressurreição ou esquecimento. Vida eterna no amor, ou o silêncio definitivo de
quem deixou de se procurar.
E
aqui está o que poucos percebem: essa Páscoa não é decidida no futuro. É
decidida agora, na gaveta que abrimos hoje à noite.
Cristo
perguntou, mais de uma vez, sem precisar das palavras exatas: podemos perdoar a
falha humana? A pergunta não era retórica. Era o convite mais concreto que já
se fez ao amor — o de escolher a ressurreição em vez do arquivo do rancor.
A luz que já está lá
A luz
não precisa ser acesa. Ela já habita os olhos de quem se ama — só espera ser
deixada livre para iluminar o olhar.
Deixe-a.
E nos
veja, enquanto ainda estamos aqui — não como quem soma desencontros para um dia
apresentar a conta, mas como quem escolhe, noite após noite, reabrir a gaveta
certa.
O
amor não é o que resiste aos desencontros. É o que decide, todas as vezes,
lembrar do que os venceu.
ANEXO — Sobre a construção
deste texto
Volto
a este ensaio não para repeti-lo, mas para expor a arquitetura que o sustenta.
Parto
de uma imagem única — o arquivo de duas gavetas — e recuso desenvolvê-la como
sequência de argumentos ilustrados. Toda a reflexão que segue é desdobramento
dessa cena inicial, até ela retornar, no fecho, como "a gaveta
certa": é a composição circular que dá ao texto sua unidade.
Trabalho
sobre três eixos:
- A dialética do encontro e do
desencontro.
Não escolho um lado para descartar o outro. O texto reconhece que ambos
compõem toda relação — o movimento maduro não é negar o desencontro, é
recusar-se a fazer dele a memória dominante.
- A memória como ato de escolha, não
de arquivo passivo.
Lembrar não é operação neutra. É seleção. Ao decidir qual gaveta abrir,
cada pessoa decide, sem perceber, que tipo de amor está construindo — daí
a Páscoa não ser promessa de um futuro distante, mas decisão renovada a
cada noite.
- O perdão como libertação, não como
esquecimento.
Evito a armadilha de tratar perdoar e esquecer como sinônimos. Perdoar
aqui é redistribuir o peso da memória — não apagar o que doeu, mas
recusar-lhe o trono.
A luz
nos olhos, no fechamento, retoma a imagem da gaveta por outra via: se a memória
é escolha, a luz é o que já existe antes de qualquer escolha, esperando apenas
licença para aparecer. É a integração final — não "encontro vence
desencontro", mas os dois reconciliados sob um mesmo olhar que decide,
enfim, para onde olhar.
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