Segredos Revelados – Capítulo 3
O
Primeiro Beijo
Quando
o mistério deixou de ser segredo
Por
Hiran de Melo
Há
mistérios que não foram feitos para ser explicados.
Foram
feitos para ser vividos.
O
primeiro beijo é um deles.
Antes
dele, existem dois mundos.
Duas
histórias.
Duas
solidões.
Dois
caminhos que, sem saber exatamente por quê, começam a abandonar suas próprias
direções para se aproximarem de um mesmo ponto.
Talvez
seja isso que chamamos de encontro.
Não
o momento em que duas pessoas se encontram, mas o instante em que duas
existências descobrem que vinham procurando uma pela outra.
Agora
que você sabe quem eu sou, e eu já não preciso esconder de você aquilo que sou,
resta atravessar a última distância.
Aquela
que existe entre o desejo e a entrega.
Entre
o olhar e os lábios.
Entre
o medo de se revelar e a coragem de permanecer.
E
então acontecerá o primeiro beijo.
Mas
o que será, afinal, esse beijo?
Será
a consumação de um desejo?
Será
o nascimento de outro?
Ou
será a revelação de que o desejo nunca esteve realmente nos lábios, mas no
caminho que fizemos até chegar a eles?
Não
sei.
E
talvez seja justamente essa a beleza.
Porque
todo verdadeiro mistério perde alguma coisa quando recebe uma explicação.
O
amor não é uma equação.
É
uma construção.
E
nenhuma construção começa pelo teto.
Começa
pela pedra.
Talvez
nós também tenhamos começado assim.
Duas
pedras aparentemente separadas pelo tempo, pelas circunstâncias, pelas escolhas
e pelos caminhos que cada um percorreu.
Pedras
que o mundo julgava destinadas a permanecer onde estavam.
Até
que uma força invisível começou a movê-las.
Não
sei se foi o acaso.
Não
sei se foi Deus.
Talvez
o acaso seja apenas o nome que damos àquilo que ainda não conseguimos
compreender.
Eu
prefiro acreditar que há encontros que não acontecem por acidente.
Há
encontros que parecem ter sido inscritos muito antes de chegarmos a eles.
Cada
um de nós atravessou o seu próprio deserto.
E
ninguém atravessa um deserto sem levar consigo alguma cicatriz.
Levamos
sede.
Levamos
medo.
Levamos
lembranças.
Levamos
aquilo que não conseguimos esquecer.
Mas
também levamos uma esperança secreta:
a
de encontrar um oásis.
Talvez
você seja parte do meu.
Talvez
eu seja parte do seu.
Não
porque um de nós venha salvar o outro.
Não
acredito mais nesse tipo de amor.
Ninguém
deve ser o salvador de ninguém.
O
que podemos fazer é caminhar juntos até a fonte.
E,
quando chegarmos, beber da mesma água.
É
por isso que agradeço ao Pai pelo caminho que me trouxe até você.
Até
pelas curvas que pareceram erradas.
Até
pelas portas que permaneceram fechadas.
Até
pelos desencontros.
Porque
hoje compreendo que alguns caminhos precisam nos fazer perder para que possamos
aprender a encontrar.
O
deserto não é apenas lugar de sofrimento.
É
também lugar de revelação.
Foi
no deserto que muitos homens aprenderam a escutar.
Talvez
porque, quando tudo desaparece, finalmente conseguimos ouvir aquilo que estava
dentro de nós.
Depois
virão as separações.
A
vida profana continuará exigindo seus tributos.
Haverá
compromissos.
Responsabilidades.
Distâncias.
Horas
em que estaremos longe um do outro.
Mas
talvez o amor não seja medido pelo tempo em que permanecemos juntos.
Talvez
seja medido pela intensidade com que continuamos presentes quando estamos
separados.
A
ausência revela aquilo que a presença, às vezes, esconde.
Quando
estamos juntos, simplesmente estamos.
Quando
estamos distantes, descobrimos o quanto o outro passou a morar dentro de nós.
E
então a saudade se transforma numa espécie de oração.
Não
uma oração que pede para possuir.
Mas
uma oração que agradece por ter encontrado.
E
chegará o momento.
O
lugar talvez já esteja escolhido.
Talvez
a mão divina tenha conduzido nossos passos até ele sem que percebêssemos.
Uma
via sacra.
Um
jardim.
A
sombra de árvores antigas.
O
silêncio de um lugar onde homens aprenderam que servir é uma forma elevada de
amar.
E
talvez Francisco de Assis esteja ali apenas como memória.
Não
precisaremos vê-lo.
Algumas
presenças não precisam de corpo.
Basta
aquilo que deixaram no mundo.
Diante
de nós, o templo.
Fechado.
Silencioso.
Esperando.
E
talvez descubramos que o templo mais importante não é aquele que está diante de
nós.
Somos
nós.
Você
é templo.
Eu
sou templo.
E
o amor é o espaço sagrado que surge quando abrimos nossas portas um ao outro.
Então
virá o beijo.
O
primeiro.
E
talvez, por um breve instante, tudo aquilo que aprendemos sobre separação deixe
de fazer sentido.
Não
haverá mais dois desejos.
Haverá
um desejo.
Não
haverá duas esperas.
Haverá
um encontro.
Não
haverá mais a pergunta sobre onde termina você e começa eu.
Porque,
naquele instante, nascerá uma palavra que até então não existia entre nós:
nós.
Não
é fusão.
Não
é posse.
Não
é desaparecimento.
É
síntese.
Você
continua sendo você.
Eu
continuo sendo eu.
Mas
nasce algo que não pertence exclusivamente a nenhum dos dois.
O
amor.
Talvez
seja esse o mistério do terceiro.
Dois
que permanecem dois e, ainda assim, descobrem uma unidade que não existia
antes.
A
bem-amada.
O
bem-amado.
E
o amor.
Três
manifestações de uma mesma experiência.
Talvez
seja por isso que o beijo tenha alguma coisa de sacramento.
Ele
não apenas toca o corpo.
Ele
confirma uma presença.
Diz
sem palavras:
eu
reconheço você.
E
talvez, mais profundamente:
eu
aceito que você faça parte de mim sem deixar de ser você.
Depois
do primeiro beijo, o mundo continuará exatamente onde estava.
Os
carros continuarão passando.
As
pessoas continuarão caminhando.
O
tempo continuará obedecendo ao relógio.
Mas
nós não seremos mais exatamente os mesmos.
Porque
alguns acontecimentos não mudam o mundo.
Mudam
apenas aqueles que os vivem.
E
isso é suficiente.
Talvez
o verdadeiro milagre não esteja no beijo.
Talvez
esteja no que ele revela.
Que
não somos feitos apenas para caminhar sozinhos.
Que
há encontros capazes de devolver sentido à estrada.
Que
o desejo pode ser mais do que vontade.
Pode
ser reconhecimento.
Pode
ser chamado.
Pode
ser caminho.
E
que o amor, quando encontra dois seres dispostos a atravessar o próprio
deserto, transforma a distância em passagem e a espera em preparação.
Um
dia, talvez, as portas do templo se abram para nós.
E,
diante de Deus, diante dos homens e diante daquilo que somos, chamaremos de
matrimônio aquilo que começou muito antes.
Não
será o casamento que criará o amor.
Será
o amor que dará sentido ao casamento.
Porque
o sagrado não começa no altar.
Começa
quando duas pessoas decidem não mais esconder aquilo que sentem.
Começa
quando o medo perde espaço para a confiança.
Começa
quando a liberdade de cada um não ameaça a existência do outro.
Começa
quando o “eu” não precisa desaparecer para que exista o “nós”.
E
talvez seja essa a maior iniciação:
descobrir
que amar não é possuir o outro.
É
recebê-lo.
Por
isso, quando finalmente nossos lábios se encontrarem, não procurarei terminar o
mistério.
Quero
apenas vivê-lo.
Quero
que o beijo seja longo o bastante para que o tempo se esqueça de nós.
E
breve o bastante para que desejemos outro.
E
outro.
E
outro.
Porque
talvez o amor não seja a satisfação definitiva do desejo.
Talvez
seja a descoberta de que sempre haverá algo mais profundo a conhecer.
Um
novo silêncio.
Um
novo olhar.
Um
novo beijo.
Uma
nova revelação.
E
assim, pouco a pouco, iremos descobrindo que o segredo nunca esteve escondido.
Estava
apenas esperando que estivéssemos preparados para enxergá-lo.
O
segredo era você.
O
segredo era eu.
Mas
a revelação...
A
revelação sempre foi:
nós.
Poeta Hiran de Melo
Mestre
Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita — Oráculo de Melquisedec
Ao
Vale do Mirante, 28 de julho do ano 2012 da revelação de que somos todos filhos
de um mesmo Pai no Cristo.
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