Lições do Cotidiano

Vagando pelo Reino do Esquecimento

Por Hiran de Melo

Encontrei-me perdido nos labirintos do sofrimento, e eis que vi um ancião, como se estivesse à minha espera. Nada precisei dizer para que ele soubesse o que eu procurava. Disse-me ele:

A causa do teu sofrimento não é a que imaginas. Nem sequer é semelhante a ela. Ao contrário, está bem distante do teu racional agora. Não sofres porque amas. Não sofres porque tens medo. Sofres porque buscas a felicidade.

Diante de tão poderosa fala, nada me foi permitido senão ficar à escuta. E é justamente aí, na escuta, que se revela o primeiro engano que carregamos sem saber: pensamos que o sofrimento tem raízes visíveis — o amor que não coube, o medo que paralisa — quando na verdade sua raiz está num gesto mais sutil e mais antigo, o de correr atrás de algo que nunca foi para ser perseguido. A felicidade, quando se torna alvo, foge; ela só se deixa encontrar por quem já não a procura mais.

Por um longo tempo imperou o silêncio, depois a imagem do ancião dispersou-se, mas a sua voz se fez mais presente:

Quando olhares para uma laranjeira, pensas que as laranjas são iguais, que é indiferente a escolha. Não é bem assim. Cada uma das laranjas é única. Assim como são todos os seres. Não deves buscar a felicidade, mas sim a tua identidade. O que te faz único é o que pode libertar-te do sofrimento.

A laranjeira ensina o que nenhum discurso ensinaria com tanta simplicidade. Olhamos para os frutos de uma mesma árvore e supomos igualdade, como se bastasse colher qualquer um para saciar a mesma fome. Mas a árvore não produz cópias — produz variações de si mesma, cada fruto carregando um peso, uma doçura, um tempo de amadurecimento que só a ele pertence. Assim é com os seres: a felicidade genérica que se ensina por aí — fórmulas, receitas, promessas repetidas — ignora que cada existência tem sua própria safra. Buscar a felicidade como quem busca um fruto qualquer é desconhecer que o que salva não é o gênero, é a identidade.

Basta dares ouvido aos teus determinantes que terás êxito na vida. Os teus determinantes são as qualidades que te diferenciam dos demais. Saberás o que és quando souberes o que desejas fazer da melhor maneira. Não é fazendo qualquer coisa e de qualquer maneira que verás o Eu Sou. É na busca da perfeição do que sabes e podes fazer que tu perceberás o Eu Sou. É na busca da perfeição do que sabes e podes fazer que tu encontrarás a tua identidade e verás a Deus. E um dia poderás dizer, assim como já disse o Filho: Eu Sou único no Pai. Encontrarás a unidade do universo no que és por completo.

Os determinantes não são talentos a serem exibidos, são antes um chamado a ser obedecido. Há algo profundamente devocional nesta ideia: que o caminho até Deus não passa pela renúncia de si, mas pelo aprofundamento de si — pela perfeição paciente daquilo que já nos foi dado para fazer. Não é no fazer disperso, no experimentar de tudo um pouco, que o Eu Sou se revela; é na entrega concentrada, quase artesanal, ao que sabemos fazer bem, que a identidade se destila até tornar-se transparente o bastante para deixar passar a luz de Deus. E, ao alcançá-la, o poeta ousa repetir a fórmula do Filho — "Eu Sou único no Pai" — não como blasfêmia, mas como reconhecimento de que a unidade não apaga a singularidade: cada laranja é única, e ainda assim toda laranja é da mesma árvore.

Muito mais ouvi, embora agora só o revele em parte. Passarei ainda dias refletindo sobre estas revelações. Agora que começo a compreender, não há mais pressa. A urgência se foi, assim como se evadiu a dor.

Compreendo que poderei ser feliz sem correr atrás da felicidade. Compreendo que poderei ser feliz realizando pequenas obras, ou apenas as mais simples. Basta que eu as faça da melhor maneira que me é possível.

Ora, eu já sabia disso!

Talvez alguém assim o diga. Concordo — mas eu havia esquecido.

E é este, talvez, o verdadeiro nome do reino por onde eu vagava: não um lugar de ignorância, mas de esquecimento. Sabíamos disso. Sempre soubemos. A sabedoria do ancião não trouxe nada novo — trouxe de volta o que já era nosso antes de nos perdermos nos labirintos. A urgência que sentíamos era a urgência de quem procura fora o que só existia dentro, adormecido sob o peso de tantas laranjas que confundimos umas com as outras. Bastou parar, ouvir, lembrar. E na lembrança, a felicidade deixou de ser destino e voltou a ser o que sempre foi: o gosto simples e único do fruto que já éramos.

Hiran de Melo — Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita, oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 7 de julho do ano 2011 da revelação do nome de Deus.

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