Lições do Cotidiano


O diabo no dia a dia

Por Hiran de Melo

Escrevo para compartilhar reflexões sobre a vida, nascidas, quase sempre, de experiências que me atravessaram antes de se transformarem em palavras. Não tenho a pretensão de ensinar. Talvez escrever seja apenas uma maneira de conversar comigo mesmo, na esperança de que, em algum momento, alguém se reconheça em uma dessas inquietações.

Foi assim que, certa vez, um ancião me falou sobre o símbolo e o diabólico.

— O símbolo une. O diabo dispersa.

Guardei aquela frase.

Algumas palavras precisam de tempo para amadurecer dentro de nós. Há ensinamentos que não são compreendidos quando são ouvidos pela primeira vez. Permanecem adormecidos, como sementes sob a terra, até que alguma experiência da vida lhes ofereça a água necessária para germinar.

Foi somente muito tempo depois que comecei a compreender que talvez o diabo não seja tão assustador quanto imaginamos.

É justamente por isso que ele é tão perigoso.

O diabo do cotidiano não costuma chegar anunciando sua presença. Não bate à porta dizendo que veio nos destruir. Não aparece diante de nós vestido de maldade.

Ele chega de maneira discreta.

Às vezes, chega como um convite.

Outras vezes, como uma oportunidade.

E, quase sempre, como uma justificativa.

Ele nos diz que podemos deixar para depois.

Que podemos experimentar apenas uma vez.

Que não há problema em nos afastarmos um pouco.

Que somos suficientemente fortes para voltar quando quisermos.

É assim que ele trabalha.

Não nos tira imediatamente do caminho.

Apenas nos convence de que podemos caminhar por alguns instantes em outra direção.

O caminho continua existindo.

A missão permanece.

Mas nós nos afastamos.

E talvez o grande segredo do diabólico esteja justamente nisso: não destruir aquilo que somos, mas nos dispersar daquilo que poderíamos ser.

O símbolo reúne.

O diabólico separa.

O símbolo nos lembra quem somos.

O diabólico nos faz esquecer.

Talvez seja por isso que toda caminhada verdadeira precise de símbolos.

Precisamos de alguma coisa que nos recorde o sentido quando o caminho se torna difícil. Precisamos de marcas, palavras, gestos e ritos que nos devolvam ao centro quando as circunstâncias nos empurram para as margens.

Porque viver é, em grande parte, tentar permanecer inteiro — e há muitas coisas neste mundo interessadas, silenciosa e pacientemente, em nos fragmentar.

Há o excesso de trabalho.

O excesso de informação.

O excesso de desejos.

O excesso de possibilidades.

Há a necessidade de parecer aquilo que não somos.

Há o desejo de possuir aquilo de que não precisamos.

Há a comparação permanente com pessoas que conhecemos apenas por suas imagens.

Há uma infinidade de caminhos disponíveis e, paradoxalmente, uma dificuldade cada vez maior de saber qual deles merece ser percorrido.

Talvez o diabo contemporâneo não tenha mais a aparência que lhe atribuímos na infância.

Aprendeu a usar outras roupas.

Às vezes, veste a roupa da pressa.

Outras vezes, a da distração.

Muitas vezes, a do prazer imediato.

E, em nossos dias, talvez tenha encontrado na tela de um celular uma de suas melhores moradas.

A internet é uma das maiores criações da inteligência humana. Ela aproximou distâncias, democratizou conhecimentos e abriu possibilidades que antes pareciam impossíveis.

Mas tudo aquilo que amplia nosso poder também amplia nossa responsabilidade.

A internet pode ser uma janela para o mundo.

Mas também pode ser um espelho no qual passamos horas contemplando aquilo que gostaríamos de ser.

Podemos entrar para buscar uma informação e sair, horas depois, sem saber exatamente onde estivemos.

Podemos começar procurando uma coisa e terminar desejando outra.

Podemos entrar satisfeitos e sair insatisfeitos.

Podemos olhar para a vida dos outros e, sem perceber, começar a desprezar a nossa.

É uma forma moderna de tentação.

Não precisamos mais sair de casa para encontrar aquilo que nos dispersa.

Basta abrir uma tela.

A imaginação, que deveria nos ajudar a construir futuros, pode então se transformar em uma fábrica de desejos que jamais serão satisfeitos.

Passamos a desejar coisas que nunca havíamos desejado.

A sentir falta de experiências que nunca vivemos.

A comparar nossa realidade com vidas que existem apenas em fotografias cuidadosamente escolhidas.

E, assim, o diabo já não precisa nos oferecer o pecado.

Basta oferecer-nos distração.

Porque quem está permanentemente distraído não precisa ser convencido a abandonar seu caminho.

Ele simplesmente deixa de perceber que estava caminhando.

Talvez seja por isso que a Régua de Vinte e Quatro Polegadas tenha tanto a nos ensinar.

Ela nos lembra que o dia possui medida.

O tempo não é infinito.

Cada amanhecer nos entrega uma quantidade limitada de horas e nos pergunta, silenciosamente, o que faremos com elas.

Há tempo para trabalhar.

Há tempo para descansar.

Há tempo para servir.

Há tempo para contemplar.

Mas, quando não sabemos medir o tempo, acabamos permitindo que uma coisa ocupe o espaço de todas as outras.

O trabalho invade o descanso.

O descanso se transforma em preguiça.

O prazer se transforma em dependência.

A informação se transforma em excesso.

A comunicação se transforma em ruído.

E aquilo que deveria ser instrumento passa a ser senhor.

Talvez o diabo seja, muitas vezes, aquilo que ocupa um espaço que não deveria ocupar.

Não é necessariamente o que fazemos.

É o lugar que aquilo passa a ocupar em nossa vida.

Um copo de vinho pode ser celebração.

Dois podem ser prazer.

Mas chega um momento em que já não somos nós que bebemos o vinho.

É o vinho que começa a beber nossa liberdade.

O mesmo acontece com o dinheiro.

Com o poder.

Com o sexo.

Com a comida.

Com o trabalho.

Com a internet.

Com qualquer coisa.

O problema raramente está na existência do desejo.

O problema começa quando o desejo deixa de ser uma parte de nós e passa a governar o todo.

Foi talvez por isso que o diabo apareceu diante de Jesus no deserto.

O momento não poderia ser mais simbólico.

Jesus estava prestes a iniciar sua missão.

Antes de começar a caminhar, foi colocado diante da possibilidade de escolher outro caminho.

As tentações não lhe ofereciam simplesmente o mal.

Ofereciam soluções.

Poder.

Reconhecimento.

Segurança.

Atalhos.

A grande tentação não era fazer o mal.

Era fazer o bem da maneira errada.

Era cumprir uma missão sem pagar o preço da missão.

Era alcançar o destino sem atravessar o caminho.

Era transformar pedra em pão quando a fome apertasse.

Era buscar o reconhecimento dos homens.

Era aceitar o poder do mundo.

O tentador parecia dizer:

— Você pode fazer tudo isso de uma maneira mais fácil.

E talvez seja esse o discurso que ouvimos todos os dias.

Você pode chegar mais rápido.

Você pode ganhar mais.

Você pode ser mais admirado.

Você pode ter mais.

Você pode evitar a dor.

Você pode fugir da responsabilidade.

Você pode voltar depois.

Mas há caminhos que não podem ser encurtados sem que alguma coisa essencial se perca.

Há experiências que precisam ser vividas.

Há dores que precisam ser atravessadas.

Há responsabilidades que não podem ser terceirizadas.

Há missões que exigem fidelidade.

Jesus disse não.

E esse foi o seu maior gesto de liberdade.

Dizer não.

Vivemos em uma época que celebra excessivamente o sim.

Sim para todas as oportunidades.

Sim para todos os desejos.

Sim para todos os convites.

Sim para tudo aquilo que parece ampliar nossa vida.

Mas uma vida sem limites pode se tornar uma vida sem direção.

Talvez seja necessário reaprender a dizer não.

Não porque tudo seja proibido.

Mas porque nem tudo nos convém.

Nem tudo que podemos fazer merece ser feito.

Nem todo caminho precisa ser percorrido.

Nem todo desejo precisa ser realizado.

Nem todo convite merece nossa presença.

A liberdade não está apenas na capacidade de escolher.

Está também na capacidade de renunciar.

E talvez seja essa a parte da liberdade que mais esquecemos.

O homem verdadeiramente livre não é aquele que pode beber todos os cálices.

É aquele que, diante do cálice que não lhe convém, consegue dizer:

— Não preciso disso.

A missão de cada pessoa também é assim.

Nem todos recebemos grandes missões.

Alguns são chamados a construir coisas que serão lembradas por gerações.

Outros recebem tarefas silenciosas, quase invisíveis — tarefas que ninguém aplaude, mas que sustentam o mundo por baixo dele.

Cuidar de alguém.

Educar um filho.

Perdoar.

Permanecer ao lado de quem sofre.

Ser honesto quando ninguém está olhando.

Cumprir uma promessa.

Fazer bem aquilo que ninguém reconhece.

Talvez a grandeza de uma missão não esteja no tamanho da tarefa, mas na fidelidade com que ela é cumprida.

O problema é que o mundo costuma nos oferecer muitas missões falsas.

Ser rico.

Ser famoso.

Ser admirado.

Ser desejado.

Ser superior.

Ser visto.

E, enquanto perseguimos essas coisas, podemos abandonar silenciosamente aquilo que realmente importava.

O diabo não precisa destruir nossa missão.

Basta convencer-nos de que existe outra mais interessante.

Talvez seja assim que perdemos a vida.

Não de uma só vez.

Mas aos poucos.

Uma pequena renúncia àquilo que sabemos ser certo.

Uma pequena concessão ao que sabemos ser errado.

Uma pequena distração.

Um pequeno atraso.

Um pequeno prazer.

Um pequeno esquecimento.

E, quando percebemos, já não reconhecemos a pessoa que nos tornamos.

Não houve uma grande queda.

Houve apenas muitos pequenos passos para longe.

É por isso que o diabo do cotidiano é tão difícil de perceber.

Ele não costuma aparecer nos grandes acontecimentos — vive escondido nos pequenos, naqueles instantes em que a escolha parece pequena demais para importar.

Naquele momento em que sabemos que deveríamos levantar, mas permanecemos deitados.

Naquele instante em que deveríamos ouvir, mas preferimos responder.

Naquela oportunidade em que deveríamos pedir perdão, mas escolhemos justificar-nos.

Naquele momento em que deveríamos desligar a tela, mas continuamos olhando.

Naquela hora em que deveríamos descansar, mas buscamos mais uma distração.

Naquela noite em que deveríamos voltar para casa, mas aceitamos mais um cálice.

A tentação raramente nos pede que abandonemos tudo.

Ela apenas nos pede mais um pouco.

E o "mais um pouco" é uma das expressões mais perigosas da existência.

Porque quase tudo começa com ele.

Mais um pouco de prazer.

Mais um pouco de poder.

Mais um pouco de dinheiro.

Mais um pouco de reconhecimento.

Mais um pouco de atenção.

Mais um pouco de tempo.

Mas a vida não é feita apenas do que acrescentamos.

Também é feita daquilo que precisamos saber interromper.

Talvez o grande aprendizado seja descobrir o momento de parar.

Parar antes do excesso.

Parar antes da dependência.

Parar antes da perda.

Parar antes de esquecer quem somos.

O diabo pode até nos convidar para um desvio.

Mas a responsabilidade pelo caminho continua sendo nossa.

Não podemos atribuir ao diabo aquilo que escolhemos conscientemente.

A tentação pode bater à porta.

Mas somos nós que decidimos abri-la.

E, talvez, essa seja a parte mais difícil de aceitar.

Porque é mais confortável acreditar que o mal está sempre fora.

É mais fácil culpar o outro.

A circunstância.

O destino.

O diabo.

Difícil é reconhecer que, algumas vezes, fomos nós que escolhemos o cálice.

Fomos nós que permanecemos diante da tela.

Fomos nós que adiamos.

Fomos nós que nos desviamos.

E, se fomos nós que nos afastamos, também podemos ser nós a retornar.

Talvez essa seja a esperança escondida em toda essa reflexão.

O símbolo ainda existe.

O caminho ainda existe.

A missão ainda existe.

E, enquanto existirem, sempre haverá possibilidade de retorno.

Não importa quantos ziguezagues tenhamos feito.

Não importa quantos cálices tenhamos aceitado.

Não importa quanto tempo tenhamos perdido.

Podemos sempre perguntar novamente:

— Para onde eu estava indo?

Essa é uma das perguntas mais importantes que um ser humano pode fazer.

Porque há momentos em que precisamos parar.

Não para desistir.

Mas para lembrar.

Lembrar o que queríamos.

Lembrar quem éramos.

Lembrar por que começamos.

Lembrar qual era a nossa missão.

O ancião tinha razão.

O símbolo une.

O diabo dispersa.

Toda a jornada humana é uma luta silenciosa entre essas duas forças.

De um lado, tudo aquilo que nos reúne.

Do outro, tudo aquilo que nos fragmenta.

De um lado, a consciência.

Do outro, a distração.

De um lado, a missão.

Do outro, o prazer imediato.

De um lado, a medida.

Do outro, o excesso.

De um lado, o caminho.

Do outro, o ziguezague que se transforma em destino.

Mas talvez as duas forças nasçam da mesma raiz: a liberdade que nos permite desviar é a mesma que nos permite voltar.

Talvez o diabo não queira que façamos o mal.

Talvez ele queira apenas que esqueçamos o bem que poderíamos fazer.

Talvez não queira que destruamos nossa vida.

Basta que a desperdicemos.

É por isso que precisamos aprender a vigiar.

Não apenas contra aquilo que nos ameaça.

Mas contra aquilo que nos seduz.

Porque algumas coisas que nos fazem perder não chegam com a aparência da perda.

Chegam como presentes.

Como oportunidades.

Como prazeres.

Como atalhos.

Como promessas.

E somente depois descobrimos o preço.

No fim, talvez a Régua de Vinte e Quatro Polegadas nos ensine uma verdade simples:

O tempo é limitado.

A vida é breve.

E aquilo que fazemos com nossas horas é, no fundo, aquilo que fazemos com nossa própria existência.

Por isso, quando o diabo do cotidiano se aproximar, talvez não seja necessário expulsá-lo.

Talvez seja suficiente perguntar:

— Quanto da minha vida você está levando?

E, depois, olhar para a régua.

Medir.

Respirar.

Recomeçar.

Porque talvez o verdadeiro triunfo não seja nunca se desviar.

Talvez seja perceber o desvio antes de transformar-se nele.

E retornar.

Sempre retornar.

Enquanto houver caminho.

Enquanto houver consciência.

Enquanto houver tempo.

Poeta Hiran de Melo — Mestre Instalado, Cavaleiro Rosa Cruz e Noaquita — Oráculo de Melquisedec, ao Vale do Mirante, 9 de julho do ano 2011 da revelação do nome de Deus.

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